domingo, 12 de novembro de 2017

A Patinha Feia


Shirlei se sentia a menina mais feia do mundo. Não precisava que lhe dissessem o quanto era sem graça. Ela reconhecia a sua feiura. Deixara de se importar com a sua aparência há muito tempo. Tinha coisas mais importantes para ela se preocupar.

Era alta demais, muito magra, desengonçada, tinha os dentes tortos, usava óculos fundo de garrafa e seus cabelos eram horríveis, viviam presos num rabo de cavalo.

Desde a pré escola era chamada por diversos apelidos.

Nenhuma criança queria brincar com ela. Quando ela se aproximava as outras crianças saíam de perto. Ela, então, se encolhia num canto qualquer até ser notada por uma das professoras.

E essas cenas se sucederam quando ela foi para o ensino regular.

Os trabalhos em grupo eram a pior parte. Ninguém a queria em seu grupo.

Os apelidos foram se tornando mais ferinos.

 ⁃ Sua girafa piolhenta!

 ⁃ Perna de pau, quatro olhos, cabelo pixaim e outros que ela nem gosta de lembrar.

Suas roupas eram surradas, sua família vivia com o dinheiro contado e com a ajuda da Assistência Social. Shirlei tinha que cuidar dos irmãos mais novos, enquanto sua mãe dormia para se recuperar do trabalho noturno.

Ela não gostava quando lhe perguntavam sobre o trabalho da mãe, nem quando era cobrada pela ausência da progenitora nas reuniões de pais e mestres.

Jamais conhecera seu pai e cada irmão tinha um pai diferente. Sua mãe não vivia muito tempo com o mesmo marido. Shirlei preferia se manter alheia à rotina de vida dela.

Comida não faltava para ela e os irmãos. A casa onde moravam era simples e pequena. O aluguel era barato, dizia a mãe. 

Os irmãos menores, dois meninos e uma menina eram responsabilidade de Shirlei.

Era ela quem levava os irmãos menores para a creche e para a escola. Cuidava deles com carinho. 

Limpava a casa, lavava a roupa e cozinhava desde os doze anos de idade.

Chegava sempre atrasada na sala de aula. Alguns professores eram compreensíveis, outros não. Shirlei ficava sem jeito, pedia desculpa pelo atraso e explicava o motivo.

Os colegas riam dela. Sentia os olhares enviesados sobre si e ouvia os cochichos quando passava por eles.

Com o tempo ela criou uma espécie de couraça e deixou de se importar com os apelidos e comentários maldosos que ouvia.

Fazia os trabalhos escolares sozinha até o dia em que chegou na sala de aula uma nova aluna.

Essa menina sentou-se ao seu lado. Foi simpatia à primeira vista.  De ambas as partes. Dali em diante, as duas se tornaram amigas inseparáveis. Faziam os trabalhos escolares juntas.

Shirlei era aluna estudiosa e aplicada. Valorizava seu material escolar que era comprado com sacrifício com o pouco dinheiro que a família tinha.

Na formatura do nono ano, Shirlei preferiu não participar. Sabia que a mãe não poderia arcar com as despesas.

Liana, sua amiga, também não participou. Estava de mudança para uma outra cidade.

No ensino médio, Shirlei, ainda se sentia a patinha feia da turma. A Shirlei com i no final do nome, erro do escrivão, segundo a mãe.

Porém, a sua inteligência causava inveja aos outros alunos. A sua inteligência a enaltecia perante à turma.

Edu, o carinha mais bonito da classe, o mais cobiçado pela maioria das meninas, começou a prestar atenção na Shirlei.

Ele reparou que ela parecia sem graça, sem gosto para se vestir, mas muito inteligente. As melhores notas eram as dela. Em todas as disciplinas. Em todos os trabalhos apresentados.

Quando ela precisava expor algum trabalho, agia com naturalidade. Não demonstrava nervosismo. 

Shirlei tinha um sonho e pretendia realizá-lo. Queria ajudar sua mãe e seus irmãos no futuro. Para isso, precisava estudar muito. Sabia que precisava ganhar uma bolsa para fazer a faculdade.

Tudo o que ela mais queria era seguir por um caminho diferente da mãe, não desejava para a si aquela profissão.

Há tempos atrás quando estava no sexto ano, ouviu algumas meninas comentarem no banheiro da escola sobre o trabalho da sua mãe e ficou envergonhada.

Os olhares do Edu foram notados pela Shirlei. Ela percebeu, também, que as outras alunas estavam  enciumadas. 

Numa certa manhã, ao chegar na escola, Shirlei foi abordada pelo Edu no portão de entrada.

- Olá, estou com dificuldade na aula de matemática, você pode me ajudar? - o rapaz foi direto ao assunto.

- Oi, você quer a minha ajuda? Tem certeza? - Shirlei ficou admirada com aquele pedido.

- Se você puder me ajudar, eu pago por umas aulas particulares. Podemos marcar na sua casa, se você preferir.

- Não tenho tempo livre, ajudo a cuidar dos meus irmãos e da casa enquanto minha mãe trabalha. Apesar de notar a expressão no rosto do rapaz, preferiu continuar mentindo. Como ia falar para ele que a mãe dormia durante o dia para trabalhar a noite?

- E se eu me sentar ao seu lado nas aulas livres? 

- Se você quiser, tudo bem.

- Combinado.

A partir daquele dia, Edu passou a se sentar ao lado da Shirlei nas aulas livres, sem se incomodar com os falatórios. Suas notas melhoraram consideravelmente. 

Os dois se tornaram bons amigos. Apenas na escola. Um não frequentava a casa do outro. Não por falta de convite por parte do Edu. Shirlei não tinha tempo livre e nem coragem para retribuir o convite.

Quando o dia terminava ela estava cansada e dormia cedo. Às vezes não conseguia nem ler um dos livros que pegava emprestado na biblioteca da escola.

Sua mãe saía no final da tarde e só voltava de madrugada ou na metade da manhã. Quando acordava, tomava banho, comia alguma coisa e passava um tempo em frente ao espelho se arrumando. Ela dizia para os filhos que era gerente num bar.

Shirlei seguia sua vida cuidando dos irmãos, estudando muito e mantendo sua amizade com Edu na escola.

Edu não ligava para a falta de beleza exterior da Shirlei. Ela tinha qualidades que a tornavam uma moça linda.

Cada vez que ele a encontrava, no portão de entrada da escola, imaginava que chegaria o dia em que ela o olharia com outros olhos.

Não deixe de ler o desfecho deste conto na próxima semana!

Grata pela visita,

Cidália.











domingo, 5 de novembro de 2017

Fora de cena




Ela se recolheu à sua inércia. Cansou de lutar pelos seus direitos. Os fios de cabelos brancos agora tomaram conta da sua cabeleira. Já não sente mais saudades dos cabelos pintados e escovados.

Suas unhas, antes sempre pintadas, são apenas cortadas quando estão muito compridas. A vaidade se distanciou de tal maneira que ela não se importa mais.

Ela já foi linda de bonita, como diz a personagem de uma novela. Hoje é somente uma sombra da mulher que foi um dia. 

Veste a roupa que lhe dão, come a comida que lhe servem. 

O dia passa sem nenhuma novidade. A rotina é a mesma dos últimos anos. As rugas aumentam a olhos vistos. A pele flácida não a incomoda mais.

Ela perdeu a vontade de viver. Perdeu a alegria que a contagiava. Não reclama. Entregou os pontos, como no ditado popular.

A cortina se fechou. Ela nem lembra da última cena em que representou uma mulher feliz. Qual foi a última vez em que teve a família reunida? Foi há muito tempo! A imagem está se apagando da sua memória.

Seu palco agora é a sala onde passa o dia deitada no sofá vendo TV.

Quem se importa com a vida que ela está levando? Muitos dirão que ela é responsável pela escolha que fez. 

Será que se ela quisesse poderia mudar aquela situação? Se ela decidisse se impor, teria novamente as rédeas em suas mãos?

Por onde anda aquela mulher decidida, dona de si, inteligente e batalhadora? Será que ela não gostaria de voltar àqueles tempos? Por onde andarão os diplomas que conquistou ao longo da vida?

Ah, se ela tivesse disposição para ir ao salão de beleza e dar uma repaginada na sua vida! Sua auto estima, certamente, agradeceria!

Ela poderia fazer uma viagem para conhecer novas pessoas e novos lugares. Talvez conhecesse alguém interessante, que se preocupasse com ela. Mesmo que isso não acontecesse, só o fato de querer passear, comprar algo que a agradasse, seria o suficiente para tirá-la daquela monotonia em que estava confinada.

Aos olhos de muitos ela estava vivendo em cárcere privado. Na sua opinião, talvez tivesse se acostumado à comodidade. Do jeito que estava vivendo ela não precisava se preocupar com as contas, com os assaltos ou com qualquer coisa que fosse.

Nem mesmo a situação do país lhe interessava mais. Para ela tanto fazia a água correr para cima ou para baixo. (mais um ditado popular)

Qual o cardápio do dia? O que fazer primeiro, lavar a louça ou a roupa? Essas pequenas preocupações do dia a dia já não faziam parte da sua rotina.  Lavar, passar ou cozinhar eram verbos que deixaram de ser conjugados há muito tempo. Assim como outros verbos, comuns no cotidiano das mulheres.

Quanto ao espelho que um dia foi um item que não podia faltar na bolsa ou no banheiro, hoje nem lembra da sua utilidade.

O que ele vai lhe mostrar? A pessoa que se tornou, uma flor murcha que perdeu a sua vivacidade e a sua beleza. Um zero a esquerda que não tem mais voz ativa. Alguém que se deixou dominar, que perdeu sua autonomia e a vontade de reagir.

O espelho não faz parte desta nova etapa da sua vida. Assim como o sol ou a alegria. Neste seu novo universo ela busca refúgio no aconchego do seu quarto ou no sofá da sala.

E assim os dias vão passando numa lentidão que a assusta. E lá deitada no sofá assistindo os mesmos programas de sempre, o dia se torna noite.

Ela não se queixa, não reclama. De que adiantaria? Sabe que ninguém a ouve!


Um abraço!
Cidália.

PS: Obrigada pela visita!!










quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O AMOR (reflexão)


Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som do gongo ou como o barulho de um sino.
Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter fé, a ponto de tirar as montanhas do seu lugar, mas, se não tivesse amor, eu não seria nada.
Poderia ter tudo o que tenho e até mesmo entregar o meu corpo para ser queimado, mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada.
Quem ama é muito paciente e bondoso.
Quem ama não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso.
Quem ama não é grosseiro, nem egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas.
Quem ama não fica alegre quando alguém faz alguma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo.
Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.
O amor é eterno.
Existem mensagens espirituais, mas durarão pouco.
Existe o dom de falar em línguas estranhas, mas acabará logo.
Existe o conhecimento, mas terminará também.
Pois, os nossos dons de conhecimento e as nossas mensagens espirituais são imperfeitos.
Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança e pensava como criança.
Agora que sou adulto, parei de agir como criança.
O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado.
Mas, depois veremos face a face.
Tudo o quanto sei agora é obscuro e confuso.
Mas, depois verei tudo com clareza.
Tão claramente como Deus está vendo agora mesmo o interior do meu coração.
Agora, portanto, permanecem três coisas:
A fé, a esperança e o amor.
Porém, a maior delas é o amor.
(Coríntios 13)

Num dia de faxina, numa caixa entre muitos guardados, encontrei esse poema que recebi em junho de 2006, de um amigo que não se encontra mais entre nós.

É uma bela reflexão sobre o amor, esse sentimento tão sublime, que ultimamente se encontra desaparecido entre muitas pessoas.

O que está acontecendo com o ser humano?

Se ligamos a TV o que vemos nos assusta de tal maneira que daqui a pouco teremos medo de sair de casa. Se bem, que segundo uma amiga, temos medo de que nos aconteça algo na rua, mas corremos riscos, também, dentro de casa. 

Estamos à mercê da própria sorte?

Então, pensamos: seja o que Deus quiser!

Que Deus nos proteja!

Obrigada pela visita ❤
💋💋💋
Cidália

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Aniversário do Blog



O blog completa o segundo ano e mais uma vez peço desculpas por não realizar nenhum sorteio para comemorarmos a data.

Não me faltou vontade, caríssimos leitores, mas sim iniciativa. Pensei: como fazer o sorteio? O que posso sortear?

Vejo tantos blogueiros realizando sorteios. Participei de muitos e até fui contemplada num deles. Cheguei a pensar em pedir sugestões a alguns blogueiros e depois desisti por não querer incomodá-los. 

Saibam que tive a intenção de realizar um sorteio.

Durante esses dois anos interagi com tantos blogueiros que perdi a conta. Nessas interações alcancei o número de 1191 curtidas na fan page e 681 seguidores no blog. De vez em quando interajo com o Instagram, o Twitter e o Google +.

Por aconselhamento de alguns blogueiros comecei a escrever no Wattpad, porém não com muita frequência.

Participo de vários grupos no Facebook e fui convidada para ser mediadora num deles. No começo fiquei preocupada com a minha função, mas o administrador me deu o suporte necessário.

Nesses dois anos recebi muitos comentários sinceros e motivadores. Sou agradecida por todo o apoio.

Tenho uma fã que me acompanha desde o início, que me incentiva e elogia tudo o que escrevo. Ela é a minha irmã. Já me inspirei nela para escrever alguns contos. Ela é uma bisa que vive conectada e que adora ler. Eu comecei a gostar de ler fotonovelas por causa dela. Um dia, meu pai me pegou com uma revista na mão, a pegou e rasgou. Ele não gostava que eu as lesse. 

Outro dia, uma parente, esposa de um primo, me disse que lê tudo o que eu escrevo e que gosta muito. Fiquei muito feliz!

Espero que as ideias continuem aflorando à minha mente para que eu mantenha o blog por muitos anos.

Encontrei um passatempo viciante. Um passatempo que me leva a interagir com muitas pessoas. Sigo muitos blogs bacanas, de pessoas que são ótimos profissionais. 

"Conheci" alguns escritores, autores incríveis que divulgam seu trabalho através dos blogs.

Sim, manter um blog parece fácil. Só parece! Responsabilidade, compromisso e dedicação não podem faltar.

A cada um de vocês, que já leu um ou mais, dos meus contos, meu carinho especial!

Um abraço e o desejo de uma semana abençoada a todos!

Aos blogueiros e escritores desejo muito sucesso!

Cidália.





domingo, 8 de outubro de 2017

O Valor de Um Olhar



Sabemos que há várias formas de nos comunicar e que um olhar diz mais do que mil palavras. Já ouvi dizer que quando uma pessoa desvia o olhar, ela não é confiável. Olho no olho! Alguns compositores fizeram músicas se referindo ao olhar.

Mas, qual o sentido deste texto, pode perguntar o leitor?

Como na semana que vem comemora-se o dia da criança pensei em escrever algo sobre a minha neta.

Há quatro anos nasceu uma bela menina, pequenina, de olhos pretos. Cabelos? Eram alguns fios ralinhos. Muito esperada e amada pelos pais e avós. Primeira neta de ambos os lados.

Conforme o tempo foi passando notava-se que o desenvolvimento era lento. Sabemos que cada criança tem o seu tempo.  Não se deve comparar as crianças. O ritmo de uma criança é diferente da outra.

Então, o jeito era esperar que ela começasse a engatinhar, sentar, andar e falar. A espera estava se tornando preocupante.

“A nossa caminhada com a Maitê começou antes de ela ter um ano de idade, quando os sinais de atraso de desenvolvimento começaram a aparecer. Desde então ela faz fisioterapia, fonoaudióloga, natação e logo a colocamos na escola. Com  um ano ela não sentava sozinha, o ritmo dela é mais lento, mas ela sempre mostrou respostas positivas aos estímulos. (Trecho do depoimento da mãe escrito no blog, A Jornada da Passarinha).”

No mês em que a Maitê ia completar três anos foi realizado um exame para saber qual era a síndrome que ela tinha. Algumas suposições haviam sido descartadas. Ao tomar conhecimento do diagnóstico, através do meu filho, fiquei desnorteada.

Sem saber o que falar para minha nora, enviei a ela uma mensagem que falava sobre crianças especiais que encontrei no Facebook.

Quando eu ouviria a voz da minha neta me chamando de vovó? Isso não importava, eu só pensava nas nossas trocas de olhares que diziam tudo.

“Quanto amor cabe na troca de um olhar?”

A cada dia, mesmo distante, eu acompanho seus passos, ou melhor seu voo, através de fotos, vídeos e facetime (finais de semana). A cada dia me sinto mais apaixonada por esta linda loirinha.

Como é grande o meu amor por você
Letras
Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você
E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você
Nem mesmo o céu nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Nada é maior que o meu amor
Nem mais bonito
Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você
Nunca se esqueça, nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você
Mas como é grande o meu amor por você
Compositores: Roberto Carlos
Letra de Como é grande o meu amor por você © EMI Music Publishing

Portadora de uma síndrome rara, a minha neta já teve um grande avanço. Ela é uma menina inteligente, esperta, gosta de música, dança e de livros, entre outras coisas. Gosta de brincar com os avós e outras crianças.





Quando estamos juntas brincamos bastante e na hora dela dormir me deito ao seu lado e nos abraçamos até ela pegar no sono.

 “Eu não mudaria você para o mundo… Mas mudaria o mundo para você.” (depoimento da mãe retirado do blog, A Jornada da Passarinha)

Para àqueles que quiserem saber mais sobre a Síndrome de keefstra segue o link:

http://ajornadadapassarinha.com/


Grata pela visita!

Cidália





sábado, 30 de setembro de 2017

Vida às avessas (parte final)



Ao receber a carta do filho,  dona Josefa chorou muito. Porém, não foi um choro de tristeza, foi um choro de agradecimento. Não pelo dinheiro que ele estava devolvendo. Claro que o dinheiro seria útil na sua velhice, para os medicamentos e para seu conforto.

Porém, o agradecimento era pelo fato do filho reconhecer seus erros e pedir perdão. Pena que ele precisou perder a esposa e parte de uma perna para perceber que a ganância, o egoísmo e o orgulho eram sentimentos destrutivos.

Ariana, prestes a se casar com o amor da sua vida, voltou a estudar. Queria ser professora efetiva e não somente uma substituta. Ela queria voltar para a escola que deu abrigo à sua família, como educadora. Queria dar mais atenção às crianças, se dedicar à carreira com amor.

Geraldo se tornou um ótimo comerciante. Transformou o bar num armazém de secos e molhados. Comprou uma bela casa perto do tio. Uma casa espaçosa, pois ele e Ariana pretendiam ter uns quatro filhos.

Num almoço de domingo onde Sueli convidou toda a família, os irmãos Jaime e Jurandir, juntamente com José Carlos, resolveram buscar o tio Jesuíno para que ele ficasse um tempo com a mãe.

O motivo que os levou a tomar tal decisão foi o que o tio escreveu no final da carta endereçada à mãe.

“Agora estou bem. Quase não vejo minhas filhas e meus genros, mas tenho a dona Pérola que cuida bem de mim. Pena que ela não gosta de conversar, então converso comigo mesmo. Sou um bom ouvinte. Com a ajuda das muletas posso caminhar pelo quintal. Cheguei à conclusão de que estou sentindo o mesmo que a senhora e Ariana sentiram na minha casa. Mereço passar por isso.”

E lá foram os três homens buscar o Jesuíno para que ele ficasse na casa da irmã e pudesse se reconciliar com toda a família. Afinal, todo mundo merece uma segunda chance.

Em breve Elizandra e Noel teriam um bebê. Estavam morando numa casa alugada e juntando dinheiro para comprar um lote e construir uma moradia. Noel era um rapaz trabalhador e Elizandra tinha uma boa clientela; era uma ótima costureira.

Jesuíno recebeu os irmãos e o sobrinho com alegria. O motivo da felicidade foi ver que os irmãos não guardaram ressentimento pelo que ele fez com a mãe. Aceitou o convite sem pensar duas vezes e dispensou a dona Pérola.

José Carlos não segurou a língua quando viu o quarto nos fundos onde o tio vivia.

- Tio, nesta casa tão grande, não tinha um quarto melhor para o senhor ficar?

- Não me incomodo com essas coisas, meu filho. Pra mim este quarto é suficiente.

- Meu quarto também é pequeno, o senhor vai ficar lá e ver que é muito mais confortável que este.

- Não deixe sua prima ouvir isso, ela vai ficar ofendida. Pelo menos ela me trouxe pra cá, a irmã disse que não me queria na casa dela.

- Nossa, tio! Não se preocupe, o senhor será bem vindo na casa da mamãe. A vovó está muito feliz.

Depois dessa conversa os homens resolveram dormir no hotel e viajar na manhã seguinte de volta para casa. Passariam cedo para pegar o Jesuíno.

Quando os quatro chegaram na casa da Sueli, toda a família estava reunida esperando por eles. A mesa foi colocada no quintal para o almoço. Noel e Geraldo foram responsáveis pelo churrasco.

Jesuíno foi recebido com alegria e chorou ao abraçar a mãe e pedir perdão mais uma vez, agora pessoalmente. Dona Josefa o apertou em seus braços e ele se sustentou sobre a única perna para não cair.

Ao abraçar Ariana, o tio que lhe causou sofrimento, foi gentil e amoroso. Aquele homem que estava ali, naquele momento, parecia muito diferente do Jesuíno de outrora. A moça apresentou seu noivo a ele que o tratou cordialmente.

Dali em diante o passado seria enterrado. A família seguiria a sua rotina com mais um integrante. Geraldo convidou-o para trabalhar com ele no armazém. Precisava contratar um funcionário e Jesuíno era a pessoa perfeita. Poderia ser o caixa, assim trabalharia sentado.

O casamento da Ariana aconteceu no civil e no religioso. Ela foi a noiva mais feliz dos últimos tempos. A festa foi presente da avó Josefa. A lua de mel do casal seria no Caribe. Presente dos pais do Geraldo. Uma viagem  inesquecível para os pombinhos.

As gêmeas, filhas do Jesuíno, foram convidadas e ao verem o pai acharam que ele estava muito bem ali. Não o chamaram para voltar com elas. Não queriam ter trabalho com ele. 

A família desfrutou de mais uma data memorável e ainda teriam outras datas para comemorar. O nascimento do filho da Elizandra, a formatura do José Carlos que, depois do curso técnico, quis fazer direito e a formatura da Ariana.

Sueli e dona Josefa continuaram ajudando Elizandra com a costura. Antes do neto nascer, Sueli levou a mãe para ficar uma semana numa cidade praiana. As duas queriam se divertir um pouco.

Dona Josefa tinha esperança de que a filha conhecesse alguém que a fizesse feliz. Mal sabia ela que Sueli havia prometido a si, depois de perder o marido, que  não dividiria a sua vida com mais ninguém.

Jesuíno se tornou o braço direito do Geraldo no armazém. O trabalho lhe deu ânimo para viver e assim ele podia colaborar com a despesa da casa. Seu plano para o futuro era chamar a dona Pérola para morar com ele. Estava pensando em alugar uma casa perto da irmã.

Quem sabe a dona Pérola aceitaria uma proposta de casamento? Durante o tempo que ela cuidou dele, Jesuíno notou a sua beleza interior. Descobriu, por acaso, que ela era viúva e morava sozinha.

O amor venceu todas as barreiras enfrentadas pela família da Ariana e curou todas as feridas.


FIM

A você que acompanhou esta história ou apenas leu alguns trechos, meu agradecimento especial!

Ao meu sobrinho desenhista, Marcos Wagner, que colaborou comigo com as ilustrações meu eterno carinho!

Beijos,
Cidália.



Se você sentir curiosidade de ler os capítulos anteriores, basta acessar este link:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ret…








domingo, 24 de setembro de 2017

Vida às avessas (retrospectiva)


Peço desculpas aos leitores que estão acompanhando a história desta família, mas deixarei o capítulo final para o próximo sábado (dia 30). Não postarei no domingo como sempre, porque quero encerrá-la este mês. 

O motivo da decisão foi dar, àqueles que leram esporadicamente um ou outro trecho, uma oportunidade para que conheçam a história, se quiserem, é claro!

Os comentários são importantíssimos para mim, que gosto muito de escrever. Por isso, conto com a opinião daqueles que gostam de ler e interagir.

Tenho a sorte de poder contar com a ajuda de meu sobrinho desenhista que está sempre pronto para atender meus pedidos.

Mais uma vez quero agradecer a todos que deixaram comentários motivadores e elogios a mim e ao meu sobrinho. Uma palavra de incentivo ajuda a melhorar a auto estima de qualquer pessoa.

Abaixo, vou deixar os links na sequencia aos interessados.


http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ll.…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-lll…

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http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xl-…

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http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xll…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xii…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xiv…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xv-…


Uma semana abençoada a todos,

Cidália
















domingo, 17 de setembro de 2017

Vida às avessas XV (arrependimento)



Na calada da noite, depois que a avó e a mãe dormiram, Ariana foi até o quarto do irmão. José Carlos estava esperando-a, pois a curiosidade era enorme.

- Mano, você não imagina o que o tio Jesuíno fez com a vovó, ele controlava a conta dela e usou a parte do dinheiro que coube a ela com a venda da propriedade.

- Não acredito! Ele tinha recebido a parte dele e não se contentou?

- A vovó ficou arrasada e nem quis que o tio Jaime e o tio Jurandir soubessem.

- Acho que eles têm que saber o que aconteceu. Precisam ir atrás do dinheiro da vovó. Afinal, é dela e ela tem o direito de usar como achar melhor.

- Ele e a tia Iracema nem atendem o telefone - completou Ariana.

- É um caso de polícia, se a vovó não o autorizou a pegar o dinheiro, então foi roubo, mana.

- Você acha que a vovó acusará o próprio filho? Com certeza ela prefere deixar esse assunto pra lá.

- Poxa, é muito triste pensar que o tio Jesuíno foi capaz de agir dessa maneira com a vovó - disse o José Carlos.

- Olha, é melhor você não se envolver, se ela quiser contar para o tio Jaime e o tio Jurandir, ela conta. Eu creio na justiça divina.

Os irmãos mudaram de assunto. José Carlos quis saber sobre o Geraldo e Ariana perguntou sobre seu trabalho.

Jesuíno e a esposa resolveram viajar para o exterior para curtir umas férias. O sonho deles era conhecer a Itália.

Mas a viagem que prometia ser a realização de um sonho se tornou um pesadelo para o casal. O voo foi cancelado duas vezes por causa das más condições meteorológicas.

Na terceira tentativa, antes de chegarem ao aeroporto o táxi sofreu um acidente. Capotou. O motorista morreu na hora. Iracema e Jesuíno tiveram várias lesões e foram socorridos no hospital mais próximo.

Iracema ficou em coma e faleceu após uma semana. Jesuíno ficou com sequelas. Perdeu a metade de uma perna. Entrou em depressão. As filhas acharam melhor colocá-lo numa clínica para que ele tivesse um bom acompanhamento.

Dona Josefa ficou muito triste com a notícia, porém nenhum dos filhos ou netos quis levá-la para visitar o Jesuíno. Afinal, ela tinha passado por tantas coisas e não podia fazer uma viagem longa.

Jaime e Jurandir ficaram revoltados com o irmão quando souberam o que ele tinha feito com a mãe. José Carlos não conseguiu segurar a língua. Pensaram em ir atrás dele para tirar satisfações. Dona Josefa não deixou.

-Deixem pra lá, não quero mais saber desse dinheiro que foi motivo de discórdia entre a família. Posso me manter com a pensão e ainda tenho força para ajudar a Sueli com a costura e os trabalhos de crochê e tricô.

- E agora o tio Jesuíno está naquela clínica - comentou Ariana. Pode ser que as filhas usem o dinheiro para pagar o tratamento dele.

Respeitando a vontade da dona Josefa o assunto foi esquecido. Jesuíno estava passando por um mal pedaço. Nem parecia mais o mesmo homem. Sentia a falta da esposa, a companheira de muitos anos. Chorava muito quando pensava nela.

Ao se dar conta de que havia perdido a metade de uma das pernas, além de perder a mulher, Jesuíno pensou em tirar a própria vida. Tentou mais de uma vez. As filhas nem cogitaram a ideia de levá-lo para casa. Ambas tinham uma vida social bem movimentada.

O namoro da Ariana e do Geraldo estava firme. Depois de alguns encontros aconteceu o primeiro beijo. No dia do noivado do casal, seu Maneco foi convidado. Como tio do noivo, não poderia faltar. Fazia um bom tempo que ele estava viúvo. Assim que viu a Sueli, pediu perdão pelos acontecimentos do passado.

-Espero que a senhora me perdoe pelo que fiz com sua família. Na época, quando seu marido faleceu, deduzi que minha dívida estava quitada. Por conta do meu ato, a senhora perdeu a sua casa.

- Por muitos anos senti raiva do senhor. Sem dinheiro não pude mais pagar as prestações. Eu contava com aquele dinheiro.

- Para corrigir o meu erro passei o bar para o nome do meu sobrinho. Meus filhos estão bem de vida e entenderam o meu gesto. Assim, Ariana será recompensada pelo mal que causei, principalmente, a ela. Casando-se com meu sobrinho em comunhão de bens, ela também será dona do estabelecimento. Eles poderão transformá-lo num mercado.

- E o que o senhor vai fazer da vida?

- Vou aproveitar a minha aposentadoria. Quero viajar, curtir os netos.

Na família de Sueli tudo estava indo bem. Em breve ela e a mãe ficariam sozinhas. Continuariam costurando e vendendo seus crochês. O benefício da dona Josefa ajudava no orçamento da casa.

Depois de ficar meses na clínica, Jesuíno teve alta. Conseguiu superar a depressão e foi morar na casa de uma das filhas. As duas irmãs pagavam uma cuidadora para fazer companhia a ele. A casa dele foi vendida. Ele não quis mais morar nela sem a esposa. Ele tinha ainda um salário que recebia do INSS.

Aqueles acontecimentos mexeram com a sua cabeça e com a ajuda da filha, Jesuíno transferiu o dinheiro para a conta da mãe e escreveu-lhe uma carta pedindo perdão pelo que havia feito a ela. O arrependimento era muito grande.
Terminou a carta com lágrimas nos olhos. Pediu perdão, também, a Ariana pelo comportamento dele e da esposa na época em que a tiveram em sua casa.

Dona Josefa e Ariana perdoarão Jesuíno? Será que o arrependimento dele é sincero?

No próximo domingo a história chegará ao fim, não deixe de acompanhá-la.


Eternamente grata pela sua visita,

Cidália.

PS: O meu agradecimento especial ao meu sobrinho, Marcos Wagner que está sempre disposto a fazer a ilustração!

domingo, 10 de setembro de 2017

Vida às avessas XIV (o casamento)




Chegou, afinal, o dia tão esperado pela Elizandra e seu noivo. O casamento foi realizado apenas no cartório com a presença da família e dos padrinhos.

Ariana usou um vestido feito especialmente para ela pela irmã e sua mãe. O modelo foi copiado de uma revista de moda. Ela fez uma maquiagem leve, pintou as unhas e colocou uma sandália combinando com o vestido. Prendeu o cabelo num coque.

Elizandra ganhou o vestido da mãe. Era simples, mas muito bonito. Escolhido com amor pela Sueli. Sua avó fez questão de lhe dar os sapatos de presente, escolhidos pela Ariana. O buquê foi feito pela própria noiva, que além de costurar bem, era muito criativa.

José Carlos fez questão de dividir o presente com a Ariana. Os dois deram as passagens para a lua de mel. O casal passaria uma semana numa praia da região. Para eles o que importava era estarem juntos, não importava o lugar.

Sueli e a mãe estavam bem arrumadas para a ocasião. O almoço foi feito pelas duas e oferecido na sala. Estavam presentes, além da sua família, os pais e irmãos do noivo. De estranho só tinha o Geraldo, amigo e padrinho do Noel.

Os irmãos da Sueli não foram convidados. Ela até gostaria de convidá-los, mas não foi possível.

Geraldo não desgrudou os olhos da Ariana desde que chegou ao cartório. Dessa vez ela retribuiu os olhares. Sua mãe fez vista grossa. Ouviu os conselhos de dona Josefa. Precisava dar uma chance ao rapaz. Não poderia julgá-lo associando-o ao tio. Afinal, seu irmão Jesuíno agiu como o seu Maneco. Pelo menos, seu Manoel passara a perna num estranho.

Na hora do almoço, dona Josefa colocou Ariana sentada ao lado do Geraldo e lhe deu uma piscada. Geraldo com seu ar de bom moço conquistou, logo, Sueli e sua mãe. Tudo transcorreu bem naquele dia para a família. O almoço foi um sucesso.

No final da tarde, os noivos se despediram e tomaram um táxi até a rodoviária. A família do Noel foi embora. Geraldo convidou Ariana para tomar um sorvete. José Carlos quis aproveitar o colo da mãe e da avó, pois no dia seguinte teria que retornar para sua rotina. Deitou-se no sofá com a cabeça no colo da mãe e os pés no colo da avó. Aproveitaram para colocar os assuntos em dia.

- E aí, alguma novidade sobre o tio Jesuíno? - perguntou o rapaz.

- Não conseguimos falar com ele desde que Ariana foi buscar a sua avó - Sueli respondeu.

- Nem quero ouvir esse nome, meu querido - dona Josefa comentou.

- Nossa, gente! O que o titio aprontou com a senhora, vovó? Perguntei sobre ele porque faz tempo que não ouço o nome dele nem aqui e nem na casa do tio Jaime.

- Pois então é melhor que continue assim, meu filho, é melhor esquecermos seu tio Jesuíno e aquela sua tia Iracema de nariz empinado - dona Josefa se alterou.

Vendo a expressão da sua avó, José Carlos achou melhor mudar de assunto. Noutra oportunidade perguntaria para sua mãe ou para Ariana.

Enquanto isso, Ariana e Geraldo tomavam um sorvete sentados num banco da praça e conversavam. Quem passava por ali via um casal apaixonado que expelia amor pelos poros.

Ariana ficou sabendo sobre o golpe da barriga que a tal moça quis aplicar no Geraldo e contou sobre o tempo que ela passou na casa dos tios. O sol se pôs e os dois saíram de mãos dadas em direção à casa da Ariana.

Ao deixá-la na porta, Geraldo não quis se precipitar e apesar dos lábios convidativos da moça, deu- lhe um beijo de despedida na sua testa.

Ariana, mesmo querendo muito ser beijada, sendo o primeiro encontro que tinha com um rapaz, admirou o gesto dele. Assim esperaria ansiosa pelo próximo encontro.

Para ela não era problema a irmã mais nova estar casada antes dela. Tudo tinha seu tempo.  Entrou com um sorriso no rosto. Sua avó e sua mãe trocaram um olhar de satisfação. Seu irmão a abraçou.

- Aí, mana, dessa vez você vai desencalhar.

- Seu bobo, não estou encalhada. Só não tinha encontrado ainda o amor da minha vida.

- Crianças, não discutam - Sueli abraçou os dois. Passamos um ótimo dia e só temos que agradecer a Deus pela nossa família.

- É isso mesmo - dona Josefa se aproximou - quero participar desse abraço.

José Carlos cochichou no ouvido da irmã.

- Quero falar com você a sós, vá até o meu quarto depois que as duas dormirem, tá?


A conversa com a mãe e avó deixaram o José Carlos curioso. Ariana contaria a ele o que o tio aprontou?

Não deixe de conferir no próximo domingo!

Obrigada pela visita!

Abraços,
Cidália.


PS: Meu agradecimento especial ao meu sobrinho Marcos Wagner pela belíssima ilustração!


domingo, 3 de setembro de 2017

Vida às avessas XIII (a descoberta)




Quando dona Josefa conferiu o saldo bancário sentiu vertigem. Sua vista ficou turva, ela se apoiou na filha.

- Mãe, o que está acontecendo? A senhora está pálida.

- Minha filha, tem alguma coisa errada na minha conta. Preciso conversar com o gerente.

- Não tem nada errado, mamãe. Veja, a senhora fez vários saques.

-Fiz um empréstimo para seu irmão, mas ele ficou de devolver assim que pudesse. Eu falei pra ele que ia te ajudar a comprar uma casa.

- Mamãe, tem certeza que não foi a senhora que tirou o dinheiro?

- Claro que tenho certeza, Sueli. Era seu irmão que ficava com meu cartão. Passei a senha pra ele tirar o dinheiro para o casamento das gêmeas. E era ele quem comprava meus remédios.  Confiei nele, pensei que só tirasse o necessário.

- Na sua conta só tem o pagamento da pensão e mais alguns trocados. Da sua parte na venda da propriedade não tem mais nada, mãe.

- Não é possível minha filha. Deve ser algum engano. O Jesuíno não ia tirar o dinheiro da minha conta sem me avisar. Para o casamento das filhas ele pediu emprestado.

- Vamos para casa, vou ligar para ele. Será que ele pensou que a senhora não ia descobrir o desfalque?

- Não quero que você conte para o Jaime e nem para o Jurandir. Eles não gostam do irmão.

- A senhora não pode esconder isso deles, mamãe. O que o Jesuíno fez foi um roubo. Todos nós recebemos a nossa parte. Ele não tinha o direito de pegar a sua parte sem permissão.

- Ele vai explicar porque fez isso minha filha. Vamos conversar com ele antes de falar com os outros.

- A senhora é quem sabe. O dinheiro é seu, pode fazer o que quiser com ele. Pode dar para o Jesuíno se quiser.

- Eu queria ajudar na reforma da casa já que vou ficar morando com você.

- Quanto a isso não se preocupe. Tenho meu trabalho e uma boa freguesia. Todos gostam da minha costura e do meu crochê.

Naquele momento, Jesuíno estava saindo para o almoço, pensando na sua mãe. Algumas dúvidas pairavam em seu pensamento.

“Será que ela já tomara conhecimento do saldo bancário?”

“Seus irmãos já estariam sabendo do desfalque na conta dela?”

Quando ele pegou “emprestado” o dinheiro para fazer um investimento em seu nome, não imaginou que a mãe sofreria uma queda e que iria para a casa da Sueli. De acordo com seus planos a seguraria por mais tempo em sua casa.

Ao chegar encontrou a esposa aflita.

- Meu bem, sua irmã telefonou. Pediu para você ligar assim que chegasse. Ela precisa saber o que você fez com o dinheiro da sua mãe. Parece que a velha quase bateu as botas quando viu o saldo hoje pela manhã.

- Não vou ligar e se ela ou alguém ligar você inventa uma desculpa. Preciso pensar numa solução.

- Então é melhor nem atender o telefone, porque não quero ouvir desaforos.

- Faça o que achar melhor. Ainda bem que colocamos identificador de chamadas.

- Daqui a pouco seus irmãos estarão sabendo e provavelmente ligarão atrás de você.

- A mamãe não vai querer contar pra eles.

As duas mulheres, mãe e filha, ficaram aguardando o telefonema do Jesuíno. Ariana ao saber do ocorrido ficou abismada. Como seu tio teve a coragem de fazer aquilo com a própria mãe? Aquele dinheiro era para ser usado por ela em caso de necessidade. Ali, ninguém queria usufruir dos benefícios dela.

A situação financeira da família estava estabilizada. Ariana continuava lecionando como leiga, vendendo marmita e fazendo seu crochê. Elizandra e a mãe tinham uma boa clientela na costura.

José Carlos trabalhava e estudava. Não dependia mais da mãe. Continuava morando na casa do tio.

O casamento da Elizandra estava próximo. Dona Josefa que estava animada com o casamento da neta, ficou deprimida depois de descobrir o que o Jesuíno fez com ela.

Sueli pensou em contar para os irmãos, Jaime e Jurandir, porém dona Josefa achou melhor não aborrecê-los.

- Mamãe, se a senhora continuar aí pelos cantos, nessa tristeza que dá pena, vou ter que contar para eles o motivo.

- Vovó - disse a Elizandra - quero a senhora bem bonita no meu casamento.

- Fizemos um vestido para a senhora, mamãe - falou a Sueli.

Dona Josefa sorriu, sentindo-se amada por aquelas três mulheres. Ela não queria estragar o casamento da neta por causa da atitude do Jesuíno.

-Adivinha quem o Noel chamou para ser padrinho, mana? - Elizandra piscou para a irmã.

Ariana ficou radiante com a camaradagem do cunhado. Sabia que ele e sua irmã estavam conspirando a seu favor. Ela não perderia essa oportunidade!


Será que dessa vez Ariana trataria o Geraldo de outra maneira? Cederia aos galanteios do moço?

Não perca mais um trecho desta história na semana que vem...

Agradeço a sua visita!!

Um abraço,

Cidália.


PS: essa ilustração linda foi feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Vida às avessas Xll (angústia)





Quando dona Josefa acordou estava na cama. Será que ela teve um pesadelo? Tentou se levantar, mas não conseguiu. Ouviu vozes. Não reconheceu nenhuma voz. Olhou a sua volta e não reconheceu o quarto.

O que estava acontecendo com ela? Fechou os olhos e voltou a dormir. As pálpebras estavam pesadas. Num canto do quarto o filho Jesuíno conversava com a enfermeira.

- Como ela está? Parece que tem muito sono!

- É o efeito dos medicamentos. Ela fraturou o fêmur com o tombo - disse a enfermeira.

- Quanto tempo ela vai ficar internada? Não vou poder ficar aqui com ela, tenho meu trabalho.

- Ela precisa de acompanhante meu senhor.

- Vou telefonar para minha esposa. Assim ficarei sabendo direito o que aconteceu.

Ao falar com a esposa, Jesuíno soube que a mãe fora encontrada, caída na rua, pela faxineira que estava passando, de bicicleta, naquele momento. Foi ela quem telefonou para a emergência pedindo ajuda.

Iracema falou que ficaria com a sogra naquela noite, mas queria que o marido avisasse os outros irmãos. Eles que viessem buscar dona Josefa. Ela não ia ficar cuidando dela.

Jesuíno entrou em contato com um dos irmãos e contou o que aconteceu. Jaime ficou de buscar a mãe quando ela tivesse alta. Se comprometeu de avisar os outros irmãos.

Jaime ligou na escola e pediu para falar com a Sueli, era um caso de emergência. No momento em que Ariana tomou conhecimento do estado de saúde da sua avó, não pensou em mais nada. Arrumou suas coisas e foi para a rodoviária. Há algum tempo ela estava planejando visitar a avó. Deveria ter ido antes, talvez tivesse evitado o acidente da pobre mulher.

Dona Josefa abriu os olhos e viu a neta querida ao seu lado. Ficou muito feliz. Na noite anterior sentiu-se mal ao ver que a nora estava no quarto. Iracema agiu friamente, como se estivesse ali apenas para cumprir uma obrigação.

Os dias de agonia passaram lentamente para dona Josefa. Ela recebeu a triste notícia de que teria dificuldade para caminhar. Precisaria de apoio. O que seria dela? Ela não queria dar trabalho para ninguém.

Ao receber alta, Josefa e a neta foram levadas para casa pelo Jesuíno. Teriam que esperar a chegada do Jaime.

Ariana sentiu um mal estar quando entrou naquela casa onde fora desprezada por alguns anos. Teve que fazer um esforço para não dar meia volta e fugir dali.
Iracema mal as cumprimentou e saiu para passar o dia com uma das filhas. Antes de sair disse para o marido que tinha comida na geladeira, era só esquentá-la.

Ariana ajudou a avó a arrumar as suas coisas. A avó estava triste e abatida. Estar ali, mesmo sabendo que seria por pouco tempo, só aumentava a sua angustia.

No final da tarde, Jaime chegou para pegar a mãe e a sobrinha. Jesuíno não os convidou para passarem a noite na sua casa. Mal trocou duas palavras com o irmão. Também não tocou no assunto sobre o empréstimo com a mãe.

Jaime pegou as duas mulheres e as levou dali o mais rápido possível. Tinha alguma coisa naquela casa que o deixava amargurado. Passaram a noite num hotel e partiram na manhã seguinte.

Dona Josefa ficaria na escola com a filha e as netas, ocuparia o quarto do neto. Em breve sairiam dali. Sueli estava comprando uma casa nos arredores. O dinheiro que lhe coube pela venda da propriedade da mãe e mais suas economias foi suficiente para adquirir um pequeno imóvel.

Elizandra recebeu a irmã com uma boa notícia.

- Mana, soube que o Geraldo terminou com aquela moça. Ele descobriu que ela estava enganando-o. O filho era de outro rapaz. Não sei todos os detalhes, sei apenas que ele veio morar com o tio. Vai arrumar um emprego por aqui.

O semblante da Ariana se transformou. A esperança voltou. Seu coração se alegrou. Se ele a procurasse agiria diferente. Quanto a sua mãe, ela teria que entender que o Geraldo não tinha culpa do que o tio fez no passado.

Sueli estava animada com a mudança. A nova casa não era tão grande, porém daria para abrigar a sua família com conforto. As quatro mulheres dividiriam o quarto maior. Seria por pouco tempo. Elizandra logo casaria e teria sua própria casa.  O quarto menor seria para o José Carlos.

As moças teriam um beliche. Sueli ficaria na cama de casal com a mãe. A sala e a cozinha eram espaçosas. O quintal era de bom tamanho. Elas poderiam fazer uma horta e um jardim.

Dona Josefa, cercada de amor e carinho, parecia outra pessoa. Começou a se interessar novamente pelos trabalhos manuais. Fez planos de ajudar a filha na reforma da casa. Queria construir mais um quarto na casa.

Pediu que Sueli a acompanhasse ao Banco para ver seu saldo da poupança. Enquanto estava na casa do Jesuíno era ele quem controlava sua conta. Ao tomar conhecimento do saldo, dona Josefa ficou indignada.



O que teria aprontando o Jesuíno dessa vez?


Aguarde mais um trecho desta história na próxima semana!

Sua visita me deixa muito feliz!!
Obrigada!
Abraços!!

Cidália.

PS: Mais um belo desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner!