domingo, 17 de setembro de 2017

Vida às avessas XV (arrependimento)



Na calada da noite, depois que a avó e a mãe dormiram, Ariana foi até o quarto do irmão. José Carlos estava esperando-a, pois a curiosidade era enorme.

- Mano, você não imagina o que o tio Jesuíno fez com a vovó, ele controlava a conta dela e usou a parte do dinheiro que coube a ela com a venda da propriedade.

- Não acredito! Ele tinha recebido a parte dele e não se contentou?

- A vovó ficou arrasada e nem quis que o tio Jaime e o tio Jurandir soubessem.

- Acho que eles têm que saber o que aconteceu. Precisam ir atrás do dinheiro da vovó. Afinal, é dela e ela tem o direito de usar como achar melhor.

- Ele e a tia Iracema nem atendem o telefone - completou Ariana.

- É um caso de polícia, se a vovó não o autorizou a pegar o dinheiro, então foi roubo, mana.

- Você acha que a vovó acusará o próprio filho? Com certeza ela prefere deixar esse assunto pra lá.

- Poxa, é muito triste pensar que o tio Jesuíno foi capaz de agir dessa maneira com a vovó - disse o José Carlos.

- Olha, é melhor você não se envolver, se ela quiser contar para o tio Jaime e o tio Jurandir, ela conta. Eu creio na justiça divina.

Os irmãos mudaram de assunto. José Carlos quis saber sobre o Geraldo e Ariana perguntou sobre seu trabalho.

Jesuíno e a esposa resolveram viajar para o exterior para curtir umas férias. O sonho deles era conhecer a Itália.

Mas a viagem que prometia ser a realização de um sonho se tornou um pesadelo para o casal. O voo foi cancelado duas vezes por causa das más condições meteorológicas.

Na terceira tentativa, antes de chegarem ao aeroporto o táxi sofreu um acidente. Capotou. O motorista morreu na hora. Iracema e Jesuíno tiveram várias lesões e foram socorridos no hospital mais próximo.

Iracema ficou em coma e faleceu após uma semana. Jesuíno ficou com sequelas. Perdeu a metade de uma perna. Entrou em depressão. As filhas acharam melhor colocá-lo numa clínica para que ele tivesse um bom acompanhamento.

Dona Josefa ficou muito triste com a notícia, porém nenhum dos filhos ou netos quis levá-la para visitar o Jesuíno. Afinal, ela tinha passado por tantas coisas e não podia fazer uma viagem longa.

Jaime e Jurandir ficaram revoltados com o irmão quando souberam o que ele tinha feito com a mãe. José Carlos não conseguiu segurar a língua. Pensaram em ir atrás dele para tirar satisfações. Dona Josefa não deixou.

-Deixem pra lá, não quero mais saber desse dinheiro que foi motivo de discórdia entre a família. Posso me manter com a pensão e ainda tenho força para ajudar a Sueli com a costura e os trabalhos de crochê e tricô.

- E agora o tio Jesuíno está naquela clínica - comentou Ariana. Pode ser que as filhas usem o dinheiro para pagar o tratamento dele.

Respeitando a vontade da dona Josefa o assunto foi esquecido. Jesuíno estava passando por um mal pedaço. Nem parecia mais o mesmo homem. Sentia a falta da esposa, a companheira de muitos anos. Chorava muito quando pensava nela.

Ao se dar conta de que havia perdido a metade de uma das pernas, além de perder a mulher, Jesuíno pensou em tirar a própria vida. Tentou mais de uma vez. As filhas nem cogitaram a ideia de levá-lo para casa. Ambas tinham uma vida social bem movimentada.

O namoro da Ariana e do Geraldo estava firme. Depois de alguns encontros aconteceu o primeiro beijo. No dia do noivado do casal, seu Maneco foi convidado. Como tio do noivo, não poderia faltar. Fazia um bom tempo que ele estava viúvo. Assim que viu a Sueli, pediu perdão pelos acontecimentos do passado.

-Espero que a senhora me perdoe pelo que fiz com sua família. Na época, quando seu marido faleceu, deduzi que minha dívida estava quitada. Por conta do meu ato, a senhora perdeu a sua casa.

- Por muitos anos senti raiva do senhor. Sem dinheiro não pude mais pagar as prestações. Eu contava com aquele dinheiro.

- Para corrigir o meu erro passei o bar para o nome do meu sobrinho. Meus filhos estão bem de vida e entenderam o meu gesto. Assim, Ariana será recompensada pelo mal que causei, principalmente, a ela. Casando-se com meu sobrinho em comunhão de bens, ela também será dona do estabelecimento. Eles poderão transformá-lo num mercado.

- E o que o senhor vai fazer da vida?

- Vou aproveitar a minha aposentadoria. Quero viajar, curtir os netos.

Na família de Sueli tudo estava indo bem. Em breve ela e a mãe ficariam sozinhas. Continuariam costurando e vendendo seus crochês. O benefício da dona Josefa ajudava no orçamento da casa.

Depois de ficar meses na clínica, Jesuíno teve alta. Conseguiu superar a depressão e foi morar na casa de uma das filhas. As duas irmãs pagavam uma cuidadora para fazer companhia a ele. A casa dele foi vendida. Ele não quis mais morar nela sem a esposa. Ele tinha ainda um salário que recebia do INSS.

Aqueles acontecimentos mexeram com a sua cabeça e com a ajuda da filha, Jesuíno transferiu o dinheiro para a conta da mãe e escreveu-lhe uma carta pedindo perdão pelo que havia feito a ela. O arrependimento era muito grande.
Terminou a carta com lágrimas nos olhos. Pediu perdão, também, a Ariana pelo comportamento dele e da esposa na época em que a tiveram em sua casa.

Dona Josefa e Ariana perdoarão Jesuíno? Será que o arrependimento dele é sincero?

No próximo domingo a história chegará ao fim, não deixe de acompanhá-la.


Eternamente grata pela sua visita,

Cidália.

PS: O meu agradecimento especial ao meu sobrinho, Marcos Wagner que está sempre disposto a fazer a ilustração!

domingo, 10 de setembro de 2017

Vida às avessas XIV (o casamento)




Chegou, afinal, o dia tão esperado pela Elizandra e seu noivo. O casamento foi realizado apenas no cartório com a presença da família e dos padrinhos.

Ariana usou um vestido feito especialmente para ela pela irmã e sua mãe. O modelo foi copiado de uma revista de moda. Ela fez uma maquiagem leve, pintou as unhas e colocou uma sandália combinando com o vestido. Prendeu o cabelo num coque.

Elizandra ganhou o vestido da mãe. Era simples, mas muito bonito. Escolhido com amor pela Sueli. Sua avó fez questão de lhe dar os sapatos de presente, escolhidos pela Ariana. O buquê foi feito pela própria noiva, que além de costurar bem, era muito criativa.

José Carlos fez questão de dividir o presente com a Ariana. Os dois deram as passagens para a lua de mel. O casal passaria uma semana numa praia da região. Para eles o que importava era estarem juntos, não importava o lugar.

Sueli e a mãe estavam bem arrumadas para a ocasião. O almoço foi feito pelas duas e oferecido na sala. Estavam presentes, além da sua família, os pais e irmãos do noivo. De estranho só tinha o Geraldo, amigo e padrinho do Noel.

Os irmãos da Sueli não foram convidados. Ela até gostaria de convidá-los, mas não foi possível.

Geraldo não desgrudou os olhos da Ariana desde que chegou ao cartório. Dessa vez ela retribuiu os olhares. Sua mãe fez vista grossa. Ouviu os conselhos de dona Josefa. Precisava dar uma chance ao rapaz. Não poderia julgá-lo associando-o ao tio. Afinal, seu irmão Jesuíno agiu como o seu Maneco. Pelo menos, seu Manoel passara a perna num estranho.

Na hora do almoço, dona Josefa colocou Ariana sentada ao lado do Geraldo e lhe deu uma piscada. Geraldo com seu ar de bom moço conquistou, logo, Sueli e sua mãe. Tudo transcorreu bem naquele dia para a família. O almoço foi um sucesso.

No final da tarde, os noivos se despediram e tomaram um táxi até a rodoviária. A família do Noel foi embora. Geraldo convidou Ariana para tomar um sorvete. José Carlos quis aproveitar o colo da mãe e da avó, pois no dia seguinte teria que retornar para sua rotina. Deitou-se no sofá com a cabeça no colo da mãe e os pés no colo da avó. Aproveitaram para colocar os assuntos em dia.

- E aí, alguma novidade sobre o tio Jesuíno? - perguntou o rapaz.

- Não conseguimos falar com ele desde que Ariana foi buscar a sua avó - Sueli respondeu.

- Nem quero ouvir esse nome, meu querido - dona Josefa comentou.

- Nossa, gente! O que o titio aprontou com a senhora, vovó? Perguntei sobre ele porque faz tempo que não ouço o nome dele nem aqui e nem na casa do tio Jaime.

- Pois então é melhor que continue assim, meu filho, é melhor esquecermos seu tio Jesuíno e aquela sua tia Iracema de nariz empinado - dona Josefa se alterou.

Vendo a expressão da sua avó, José Carlos achou melhor mudar de assunto. Noutra oportunidade perguntaria para sua mãe ou para Ariana.

Enquanto isso, Ariana e Geraldo tomavam um sorvete sentados num banco da praça e conversavam. Quem passava por ali via um casal apaixonado que expelia amor pelos poros.

Ariana ficou sabendo sobre o golpe da barriga que a tal moça quis aplicar no Geraldo e contou sobre o tempo que ela passou na casa dos tios. O sol se pôs e os dois saíram de mãos dadas em direção à casa da Ariana.

Ao deixá-la na porta, Geraldo não quis se precipitar e apesar dos lábios convidativos da moça, deu- lhe um beijo de despedida na sua testa.

Ariana, mesmo querendo muito ser beijada, sendo o primeiro encontro que tinha com um rapaz, admirou o gesto dele. Assim esperaria ansiosa pelo próximo encontro.

Para ela não era problema a irmã mais nova estar casada antes dela. Tudo tinha seu tempo.  Entrou com um sorriso no rosto. Sua avó e sua mãe trocaram um olhar de satisfação. Seu irmão a abraçou.

- Aí, mana, dessa vez você vai desencalhar.

- Seu bobo, não estou encalhada. Só não tinha encontrado ainda o amor da minha vida.

- Crianças, não discutam - Sueli abraçou os dois. Passamos um ótimo dia e só temos que agradecer a Deus pela nossa família.

- É isso mesmo - dona Josefa se aproximou - quero participar desse abraço.

José Carlos cochichou no ouvido da irmã.

- Quero falar com você a sós, vá até o meu quarto depois que as duas dormirem, tá?


A conversa com a mãe e avó deixaram o José Carlos curioso. Ariana contaria a ele o que o tio aprontou?

Não deixe de conferir no próximo domingo!

Obrigada pela visita!

Abraços,
Cidália.


PS: Meu agradecimento especial ao meu sobrinho Marcos Wagner pela belíssima ilustração!


domingo, 3 de setembro de 2017

Vida às avessas XIII (a descoberta)




Quando dona Josefa conferiu o saldo bancário sentiu vertigem. Sua vista ficou turva, ela se apoiou na filha.

- Mãe, o que está acontecendo? A senhora está pálida.

- Minha filha, tem alguma coisa errada na minha conta. Preciso conversar com o gerente.

- Não tem nada errado, mamãe. Veja, a senhora fez vários saques.

-Fiz um empréstimo para seu irmão, mas ele ficou de devolver assim que pudesse. Eu falei pra ele que ia te ajudar a comprar uma casa.

- Mamãe, tem certeza que não foi a senhora que tirou o dinheiro?

- Claro que tenho certeza, Sueli. Era seu irmão que ficava com meu cartão. Passei a senha pra ele tirar o dinheiro para o casamento das gêmeas. E era ele quem comprava meus remédios.  Confiei nele, pensei que só tirasse o necessário.

- Na sua conta só tem o pagamento da pensão e mais alguns trocados. Da sua parte na venda da propriedade não tem mais nada, mãe.

- Não é possível minha filha. Deve ser algum engano. O Jesuíno não ia tirar o dinheiro da minha conta sem me avisar. Para o casamento das filhas ele pediu emprestado.

- Vamos para casa, vou ligar para ele. Será que ele pensou que a senhora não ia descobrir o desfalque?

- Não quero que você conte para o Jaime e nem para o Jurandir. Eles não gostam do irmão.

- A senhora não pode esconder isso deles, mamãe. O que o Jesuíno fez foi um roubo. Todos nós recebemos a nossa parte. Ele não tinha o direito de pegar a sua parte sem permissão.

- Ele vai explicar porque fez isso minha filha. Vamos conversar com ele antes de falar com os outros.

- A senhora é quem sabe. O dinheiro é seu, pode fazer o que quiser com ele. Pode dar para o Jesuíno se quiser.

- Eu queria ajudar na reforma da casa já que vou ficar morando com você.

- Quanto a isso não se preocupe. Tenho meu trabalho e uma boa freguesia. Todos gostam da minha costura e do meu crochê.

Naquele momento, Jesuíno estava saindo para o almoço, pensando na sua mãe. Algumas dúvidas pairavam em seu pensamento.

“Será que ela já tomara conhecimento do saldo bancário?”

“Seus irmãos já estariam sabendo do desfalque na conta dela?”

Quando ele pegou “emprestado” o dinheiro para fazer um investimento em seu nome, não imaginou que a mãe sofreria uma queda e que iria para a casa da Sueli. De acordo com seus planos a seguraria por mais tempo em sua casa.

Ao chegar encontrou a esposa aflita.

- Meu bem, sua irmã telefonou. Pediu para você ligar assim que chegasse. Ela precisa saber o que você fez com o dinheiro da sua mãe. Parece que a velha quase bateu as botas quando viu o saldo hoje pela manhã.

- Não vou ligar e se ela ou alguém ligar você inventa uma desculpa. Preciso pensar numa solução.

- Então é melhor nem atender o telefone, porque não quero ouvir desaforos.

- Faça o que achar melhor. Ainda bem que colocamos identificador de chamadas.

- Daqui a pouco seus irmãos estarão sabendo e provavelmente ligarão atrás de você.

- A mamãe não vai querer contar pra eles.

As duas mulheres, mãe e filha, ficaram aguardando o telefonema do Jesuíno. Ariana ao saber do ocorrido ficou abismada. Como seu tio teve a coragem de fazer aquilo com a própria mãe? Aquele dinheiro era para ser usado por ela em caso de necessidade. Ali, ninguém queria usufruir dos benefícios dela.

A situação financeira da família estava estabilizada. Ariana continuava lecionando como leiga, vendendo marmita e fazendo seu crochê. Elizandra e a mãe tinham uma boa clientela na costura.

José Carlos trabalhava e estudava. Não dependia mais da mãe. Continuava morando na casa do tio.

O casamento da Elizandra estava próximo. Dona Josefa que estava animada com o casamento da neta, ficou deprimida depois de descobrir o que o Jesuíno fez com ela.

Sueli pensou em contar para os irmãos, Jaime e Jurandir, porém dona Josefa achou melhor não aborrecê-los.

- Mamãe, se a senhora continuar aí pelos cantos, nessa tristeza que dá pena, vou ter que contar para eles o motivo.

- Vovó - disse a Elizandra - quero a senhora bem bonita no meu casamento.

- Fizemos um vestido para a senhora, mamãe - falou a Sueli.

Dona Josefa sorriu, sentindo-se amada por aquelas três mulheres. Ela não queria estragar o casamento da neta por causa da atitude do Jesuíno.

-Adivinha quem o Noel chamou para ser padrinho, mana? - Elizandra piscou para a irmã.

Ariana ficou radiante com a camaradagem do cunhado. Sabia que ele e sua irmã estavam conspirando a seu favor. Ela não perderia essa oportunidade!


Será que dessa vez Ariana trataria o Geraldo de outra maneira? Cederia aos galanteios do moço?

Não perca mais um trecho desta história na semana que vem...

Agradeço a sua visita!!

Um abraço,

Cidália.


PS: essa ilustração linda foi feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Vida às avessas Xll (angústia)





Quando dona Josefa acordou estava na cama. Será que ela teve um pesadelo? Tentou se levantar, mas não conseguiu. Ouviu vozes. Não reconheceu nenhuma voz. Olhou a sua volta e não reconheceu o quarto.

O que estava acontecendo com ela? Fechou os olhos e voltou a dormir. As pálpebras estavam pesadas. Num canto do quarto o filho Jesuíno conversava com a enfermeira.

- Como ela está? Parece que tem muito sono!

- É o efeito dos medicamentos. Ela fraturou o fêmur com o tombo - disse a enfermeira.

- Quanto tempo ela vai ficar internada? Não vou poder ficar aqui com ela, tenho meu trabalho.

- Ela precisa de acompanhante meu senhor.

- Vou telefonar para minha esposa. Assim ficarei sabendo direito o que aconteceu.

Ao falar com a esposa, Jesuíno soube que a mãe fora encontrada, caída na rua, pela faxineira que estava passando, de bicicleta, naquele momento. Foi ela quem telefonou para a emergência pedindo ajuda.

Iracema falou que ficaria com a sogra naquela noite, mas queria que o marido avisasse os outros irmãos. Eles que viessem buscar dona Josefa. Ela não ia ficar cuidando dela.

Jesuíno entrou em contato com um dos irmãos e contou o que aconteceu. Jaime ficou de buscar a mãe quando ela tivesse alta. Se comprometeu de avisar os outros irmãos.

Jaime ligou na escola e pediu para falar com a Sueli, era um caso de emergência. No momento em que Ariana tomou conhecimento do estado de saúde da sua avó, não pensou em mais nada. Arrumou suas coisas e foi para a rodoviária. Há algum tempo ela estava planejando visitar a avó. Deveria ter ido antes, talvez tivesse evitado o acidente da pobre mulher.

Dona Josefa abriu os olhos e viu a neta querida ao seu lado. Ficou muito feliz. Na noite anterior sentiu-se mal ao ver que a nora estava no quarto. Iracema agiu friamente, como se estivesse ali apenas para cumprir uma obrigação.

Os dias de agonia passaram lentamente para dona Josefa. Ela recebeu a triste notícia de que teria dificuldade para caminhar. Precisaria de apoio. O que seria dela? Ela não queria dar trabalho para ninguém.

Ao receber alta, Josefa e a neta foram levadas para casa pelo Jesuíno. Teriam que esperar a chegada do Jaime.

Ariana sentiu um mal estar quando entrou naquela casa onde fora desprezada por alguns anos. Teve que fazer um esforço para não dar meia volta e fugir dali.
Iracema mal as cumprimentou e saiu para passar o dia com uma das filhas. Antes de sair disse para o marido que tinha comida na geladeira, era só esquentá-la.

Ariana ajudou a avó a arrumar as suas coisas. A avó estava triste e abatida. Estar ali, mesmo sabendo que seria por pouco tempo, só aumentava a sua angustia.

No final da tarde, Jaime chegou para pegar a mãe e a sobrinha. Jesuíno não os convidou para passarem a noite na sua casa. Mal trocou duas palavras com o irmão. Também não tocou no assunto sobre o empréstimo com a mãe.

Jaime pegou as duas mulheres e as levou dali o mais rápido possível. Tinha alguma coisa naquela casa que o deixava amargurado. Passaram a noite num hotel e partiram na manhã seguinte.

Dona Josefa ficaria na escola com a filha e as netas, ocuparia o quarto do neto. Em breve sairiam dali. Sueli estava comprando uma casa nos arredores. O dinheiro que lhe coube pela venda da propriedade da mãe e mais suas economias foi suficiente para adquirir um pequeno imóvel.

Elizandra recebeu a irmã com uma boa notícia.

- Mana, soube que o Geraldo terminou com aquela moça. Ele descobriu que ela estava enganando-o. O filho era de outro rapaz. Não sei todos os detalhes, sei apenas que ele veio morar com o tio. Vai arrumar um emprego por aqui.

O semblante da Ariana se transformou. A esperança voltou. Seu coração se alegrou. Se ele a procurasse agiria diferente. Quanto a sua mãe, ela teria que entender que o Geraldo não tinha culpa do que o tio fez no passado.

Sueli estava animada com a mudança. A nova casa não era tão grande, porém daria para abrigar a sua família com conforto. As quatro mulheres dividiriam o quarto maior. Seria por pouco tempo. Elizandra logo casaria e teria sua própria casa.  O quarto menor seria para o José Carlos.

As moças teriam um beliche. Sueli ficaria na cama de casal com a mãe. A sala e a cozinha eram espaçosas. O quintal era de bom tamanho. Elas poderiam fazer uma horta e um jardim.

Dona Josefa, cercada de amor e carinho, parecia outra pessoa. Começou a se interessar novamente pelos trabalhos manuais. Fez planos de ajudar a filha na reforma da casa. Queria construir mais um quarto na casa.

Pediu que Sueli a acompanhasse ao Banco para ver seu saldo da poupança. Enquanto estava na casa do Jesuíno era ele quem controlava sua conta. Ao tomar conhecimento do saldo, dona Josefa ficou indignada.



O que teria aprontando o Jesuíno dessa vez?


Aguarde mais um trecho desta história na próxima semana!

Sua visita me deixa muito feliz!!
Obrigada!
Abraços!!

Cidália.

PS: Mais um belo desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner!























sábado, 19 de agosto de 2017

Vida às avessas XI (ignorada)



Quem será a moça por quem Geraldo estava apaixonado? Ariana foi dormir pensando no olhar que recebera dele durante o momento em que se encontraram, por acaso, naquele dia. Ela não entendia nada sobre o amor, apenas sabia que desde que o vira, pensava nele o tempo todo. Aquele moço mexera com a sua cabeça e seu coração. Estaria apaixonada por ele? 

Sua irmã mais nova parecia uma manteiga derretida quando falava do noivo. Contava sobre as palpitações que sentia quando estava com ele, da vontade de tê-lo junto a si. Isso era o amor? De uma coisa Ariana tinha certeza. Tinha que esquecer aquele rapaz. Ele ia casar com outra. Logo seria pai. Precisava arcar com suas responsabilidades. 

Como dona Sueli não tinha condições de comprar o enxoval para a Elizandra, as três mulheres começaram a fazê-lo nos finais de semana e nas horas de folga.  O dinheiro que lhe coube pela venda da propriedade da mãe, Sueli juntou com suas economias para comprar uma casa. O contrato com a escola estava para vencer.

Na casa do Jesuíno as coisas não estavam correndo bem para dona Josefa. O casal, agora sem as filhas, não parava em casa nos finais de semana. Dona Josefa ficava sozinha e se virava na cozinha.

Iracema transformou o quarto que era das filhas num quarto de hóspedes. Colocou uma cama de casal. O quarto ficaria a disposição quando uma das filhas fosse com o marido visitá-los. 

Dona Josefa passava os dias sem ter com quem conversar. Até mesmo na hora das refeições, Iracema a deixava falando sozinha. A faxineira, que trabalhava três vezes por semana, é que trocava algumas palavras com ela quando Iracema não estava por perto.

Se Iracema visse a sogra conversando com a mulher, chamava a atenção das duas. 

Quando Jesuíno chegava em casa, só conversava com a mãe se estivesse precisando de ajuda financeira.

- A senhora pode me emprestar o dinheiro para o pagamento da conta de luz?

- Meu pagamento está atrasado, a senhora me empresta uns trocados?

Uma noite, sentindo um aperto no coração, dona Josefa puxou conversa com o filho.

- Jesuíno, quero que você me leve para a casa da Sueli.

- Só posso levar a senhora nas minhas férias no final do ano.

- Então eu quero ligar e pedir para um dos seus irmãos vir me buscar.

- Eles não estão preocupados com a senhora pelo que vejo. Nunca mais telefonaram.

- Falei com Ariana e Sueli  no dia do casamento das gêmeas. Elas ligaram.

- Nossa - falou Iracema - as meninas se casaram há dois meses!

- Eles devem estar esperando a minha ligação - argumentou dona Josefa - não posso ficar esperando que só eles me liguem. 

- Não sei onde guardei a chave do telefone - mentiu Iracema. 

O jeito era esperar que alguém ligasse para ela, pensou dona Josefa. Foi para o quartinho dos fundos, onde dormia, e arrumou suas coisas. 

Sueli e as filhas, envolvidas com a correria do dia a dia, se deram conta de que estavam sem notícias da dona Josefa há um bom tempo. Não podiam ficar usando o telefone da escola.  O orelhão que havia naquela rua fora depredado. 

Estavam, também, sem notícias do filho. José Carlos, atolado com os trabalhos escolares, estava sem tempo para visitar a família ou para escrever.  Só podia ligar para o telefone da escola em caso de emergência. Seu tio também estava cheio de trabalho.

Jurandir estava viajando a trabalho e não estava preocupado com a mãe. Imaginava que ela estava bem. 

Ariana teve a ideia de ir visitar a avó. Prometera a si que não pisaria mais naquela casa onde fora maltratada, mas seria por uma boa causa. Precisava saber como a sua vó estava. Desde o último telefonema estavam sem notícias. Começou a se organizar para viajar.

Numa certa manhã, dona Josefa amanheceu pensando em como ela e a neta Ariana tinham muito em comum.  Ariana sofreu naquela casa quando perdeu o pai e ela estava sofrendo ali desde que perdera seu companheiro. As duas tiveram a vida virada às avessas, respirando o mesmo ar que o Jesuíno.

A diferença era que a pobre Ariana não tivera escolha,  e ela aceitara o convite do filho. Se não tivesse ido com ele, certamente estaria bem melhor.

Que mal havia naquela casa ou nos corações daqueles dois, seu filho e a esposa?Ela saiu sem que a nora percebesse. Queria caminhar, respirar o ar puro. Foi andando sem rumo, perambulando, com a mente cheia de pensamentos tristes. 

Não encontrou ninguém pelo caminho, a rua estava deserta. Era uma rua de pouco movimento. Começou a sentir uma zonzeira, talvez fosse fome. Deu meia volta, precisava comer alguma coisa. 

Mas, de repente, a visão ficou turva e ela sentiu que estava caindo. Estaria morrendo?

O que terá acontecido com dona Josefa? Acompanhe no próximo domingo a sequencia desta história.

Sua visita me deixa muito feliz!

Abraços,

Cidália.












domingo, 13 de agosto de 2017

Vida às avessas X (desilusão)



Ao caminhar pelos cômodos da casa, esperando encontrar alguém, dona Josefa respirava fundo para não derramar nenhuma lágrima. O silêncio reinava, a casa estava vazia! Ela saiu no quintal, talvez o filho estivesse esperando-a no carro. Porém, a garagem estava fechada.

O jeito era esperar. Certamente, Jesuíno viria buscá-la. Provavelmente, o carro estava lotado e ele voltaria em seguida. 

Dona Josefa pegou seu crochê para passar o tempo. Pensou em chamar um táxi, mas como estava confiante de que iria com o filho, não pegou o endereço do clube. O casamento seria realizado no próprio clube e não na igreja.

O telefone tocou, dona Josefa levantou-se e foi atender.

- Alô! Com quem gostaria de falar?

- Vovó, não reconheceu minha voz? Sou eu, Ariana. Como a senhora está? Estamos com muita saudade. 

- Oi, meu bem, eu também estou com muita saudade de vocês. Vou pedir para o Jesuíno me levar embora.

- Que bom vovó! Ficaremos felizes com a senhora aqui conosco. 

- Quero ajudar sua mãe a comprar uma casa, vou morar com vocês.

- Cadê o pessoal, vó? Sempre que ligamos alguém atende e diz que a senhora está descansando.

- Saíram. Hoje as gêmeas estão casando. É dia de festa para a família.

- E o que a senhora está fazendo em casa, vovó? Devia estar participando da cerimônia!

- Eu preferi ficar em casa, minha filha. Não gosto de tumulto - dona Josefa não teve coragem de contar para a neta que não a levaram.

- Que pena, vovó! Mas, eu entendo a senhora. Em breve estaremos juntas, se Deus quiser.

As duas conversaram por mais algum tempo e Ariana notou pela voz da avó que ela parecia triste. Devia ser por causa da saudade. Sueli aproveitou para conversar com a mãe, já que ela estava ao telefone. Contou que a Elizandra estava namorando e em breve ficaria noiva.

No final do dia, Jesuíno e a esposa chegaram em casa. As filhas foram diretamente para o hotel onde passariam a noite. Partiriam na manhã seguinte, cada uma com seu marido, para o destino escolhido. Ficariam algumas semanas em lua de mel.

Dona Josefa continuava sentada fazendo seu crochê. Não levantou a cabeça e não perguntou sobre o casamento. Jesuíno e Iracema se olharam e seguiram para o quarto. Estavam cansados e sem disposição para inventar desculpas.

Na manhã seguinte, o casal acordou cedo e saiu para passear. Eles pretendiam passar o domingo no clube para relaxarem.

Ao levantar e ir para a cozinha, dona Josefa notou que estava sozinha novamente. Preparou seu desjejum e foi para o quintal. Sentou-se num banquinho, debaixo de uma árvore, para ouvir o canto dos pássaros. Precisava tomar uma atitude e queria refletir.

Ariana saiu com a irmã para tomar um sorvete e ao passar pela praça viu o Geraldo acompanhado de uma bela moça. Era uma moça esbelta e chique. Parecia um pouco mais velha que ele. Eles estavam de mãos dadas e agiam como namorados. 

Bem feito para ela, pensou. Quem mandou agir como uma boba no dia em que ele lhe deu uma cantada? Àquela moça que o acompanhava parecia muito diferente dela.

- Por que você olha tanto para aquele casal, mana? - perguntou Elizandra.

- Não te contei antes porque a mamãe disse que aquele moço é sobrinho do seu Manoel que logrou o papai. Ele me parou no dia que eu ia passando por aqui e se apresentou. Eu não lhe dei atenção. Comentei com a mamãe e ela disse que nem queria ouvir falar sobre ele por causa do tio. 

- Poxa, mana, que pena! Ele é muito bonito. Mas, se ele tinha se interessado por você poderia ter insistido mais.

Ariana ficou com o coração partido e não percebeu a olhada que o Geraldo lhe deu ao se cruzarem. Daquele dia em diante deixaria de sonhar com ele. Seguiria sua vida ao lado da mãe e da avó. Provavelmente sua irmã seria a próxima a se casar.

Naquela noite quando Noel, o noivo da irmã, chegou para jantar na sua casa, foi logo despejando as informações. Parecia que ele tinha lido a mente da futura cunhada.

- Oi, boa noite! Vocês não imaginam o quê uma mulher pode fazer com um homem.

- Do que você está falando, querido? - quis saber Elizandra - eu fiz alguma coisa com você?

- Não estou falando de você, meu amor. Estou falando do sobrinho do seu Manoel.

- Desculpe meu rapaz, mas não quero ouvir esse nome - pronunciou dona Sueli.

-Ah, mamãe, deixe que ele conte o que ficou sabendo. Estamos curiosas - Elizandra não se aguentava de tanta curiosidade.

- Fale de uma vez, então, rapaz - Sueli abriu uma exceção por conta do pedido da filha.

- Parece que o moço estava apaixonado por alguém, mas numa noite de bebedeira acabou se envolvendo com uma moça rica e ela engravidou. Agora ele não tem coragem de abandoná-la, por causa do bebê, foi o que ouvi no trabalho.

- Nossa, coitado desse rapaz - Elizandra deu uma piscada para a irmã - então ele é gente boa, não puxou o tio.

Avó e neta sentem-se desiludidas por motivos semelhantes mesmo sem uma saber o que está acontecendo com a outra.

Dona Josefa, por causa do comportamento e atitudes do filho e da nora.  

E Ariana por ter encontrado o rapaz, por quem suspirava em seus devaneios, com outra moça.

Qual será o destino destas duas mulheres que têm muito em comum?

Não deixe de ler o próximo capítulo!


Sua visita me deixa muito feliz.

Obrigada!

Cidália.

PS: Meu agradecimento especial ao meu sobrinho, Marcos Wagner, por mais uma ilustração!









domingo, 6 de agosto de 2017

Vida às avessas IX (ganância)



Dona Josefa tinha pouca leitura, mal sabia assinar seu nome, mas como tinha plena confiança no filho, não se preocupava com os detalhes. Ela não precisou do consentimento dos filhos para vender a propriedade. Sua idade ainda lhe permitia que fosse responsável pelos seus atos.

O dinheiro recebido pela venda da propriedade foi dividido igualmente entre os filhos e a parte que lhe coube, dona Josefa pediu ao Jesuíno que abrisse uma conta no Banco para ela. Depois que as gêmeas se casassem ela pretendia voltar para sua cidade e morar com a Sueli. 

-Sabe, Jesuíno, sei que vai ser difícil a Sueli comprar uma casa com a parte do dinheiro dela. Se eu for morar com ela posso ajudá-la. 

-Não se preocupe com a Sueli, mamãe. Com o dinheiro que ela recebeu poderá dar a entrada numa casinha e vai pagando as prestações.

-Coitada da Sueli, é a única que não tem onde morar. Mora de favor numa escola! Ainda teve que arrumar lugar para guardar as minhas coisas quando desocupou a minha casa.

-Nem era tanta coisa, mamãe. A senhora só pediu que ela guardasse as coisas de valor, o restante mandou que doasse.

Na escola, Sueli e as filhas tiveram que guardar as coisas de dona Josefa no quarto do José Carlos. Ele usava pouco aquele quarto. Só visitava a família nos feriados prolongados.

Ariana seguia a sua rotina, ajudava a mãe, fornecia marmitas e lecionava como leiga. Ainda tinha esperança de reencontrar o Geraldo. Sempre que passava pela praça olhava para o bar do tio dele.

Elizandra começou a namorar com o filho de uma professora, um rapaz bom e trabalhador. Ele era dois anos mais velho que ela. Trabalhava durante o dia como frentista e estudava a noite. Pretendia ser professor de matemática.

Na casa de Jesuíno as coisas começaram a mudar. Iracema e as filhas se afastaram da dona Josefa. Davam-lhe o mínimo de atenção. As três saíam sempre, com a desculpa de comprar alguma peça para os enxovais ou simplesmente para dar uma volta.

Quando dona Josefa perguntava ao filho sobre a reforma do quarto ele desconversava, pois não tinha intenção de gastar a sua parte do dinheiro.  

Se um dos filhos ligava para saber dela, Jesuíno dizia que estava tudo bem e mal deixava a mãe conversar. E se um deles sugeria uma visita, Jesuíno era grosseiro com os irmãos.

-Mamãe está muito bem aqui, não se preocupe. Não temos quarto de hóspedes e o hotel fica longe. 

Ao se aproximarem da data do casamento das gêmeas, Jesuíno e sua esposa pediram dinheiro emprestado à dona Josefa.

-A senhora não precisa desse dinheiro e nós estamos precisando nesse momento.

-Você recebeu a sua parte, o que fez com o dinheiro, Jesuíno?

-Paguei umas dívidas que estavam atrasadas e agora temos que oferecer uma festa de casamento para as meninas.

-Estão contando com a minha parte para a festa? Não está certo isso! Se você não pode pagar uma festa para suas filhas, elas que casem sem festa.

-Vou pagar a senhora, se faz tanta questão desse dinheiro. Mas, aqui em casa a senhora não tem nenhuma despesa e ainda tem a pensão do papai.

-A pensão é uma mixaria, meu filho, mal dá para os medicamentos.

-Não precisa me emprestar tudo, só uma parte. Assim que eu puder pagarei a senhora. Meus irmãos não precisam ficar sabendo.

-Se é assim, vou te emprestar. 

Jesuíno com sua lábia, tinha o poder de convencer a mãe. Ele era muito esperto. A sua parte do dinheiro estava aplicada. Ele queria era sugar a sua progenitora. Sabia que se ela fosse embora ia acabar dando o dinheiro para a Sueli.

Dona Josefa emprestou o dinheiro a ele e não teve coragem de contar aos outros filhos. Não queria que eles pensassem mal do Jesuíno. No fundo sabia que os irmãos não gostavam muito dele e da sua esposa, a achavam antipática e orgulhosa.

O tempo foi passando lentamente para algumas pessoas e muito rápido para outras. 

Ariana estava com muita saudade da avó e não conseguia falar com ela. Cada vez que ligava, uma das primas ou a tia dizia que a avó estava descansando. 

Com Sueli ou os irmãos acontecia a mesma coisa. Mesmo que ligassem em horários diferentes, a desculpa era de que a avó estava descansando e não podia atender, mas que ela estava bem de saúde.

Chegou o dia do casamento das gêmeas. Os noivos acharam melhor casarem no mesmo dia e dividirem a festa. Optaram por uma festa íntima, num dos clubes da cidade. Apenas a família e os amigos mais chegados foram convidados. Resolveram investir na lua de mel. Um casal iria para a França e o outro para Cancun.

Dona Josefa vestiu a sua melhor roupa  e quando saiu do quarto encontrou a casa vazia.

Será que esqueceram a pobre mulher?

Não deixe de acompanhar a história no próximo domingo!

Grata pela visita!
Abraços,
Cidália.






domingo, 30 de julho de 2017

Vida às avessas Vlll (encontro e desencontro)



Nos primeiros dias, Iracema agradou a sogra e estava ao seu lado fazendo-lhe companhia. Trocavam receitas, faziam tricô e costuravam. Quando um dos filhos ligava, Iracema ficava atenta à conversa.
Ao completar uma semana que dona Josefa estava ali, Jesuíno voltou a tocar no assunto da venda da propriedade.

- Mãe, a senhora poderá ajudar a Sueli se concordar com a venda. Queremos que fique aqui conosco pelo tempo que quiser. Vamos reformar seu quarto.

- Já estou sentindo saudade da minha casinha, meu filho. Sueli e as meninas poderão morar comigo.

- Tenho certeza de que a mana vai preferir ter a sua própria casa. E aqui a senhora será muito útil, poderá ajudar a fazer o enxoval das gêmeas. Depois quando cansar poderá ficar com a Sueli na casa nova.

Numa das conversas as netas manifestaram o desejo de que queriam que a avó bordasse seus enxovais. Uma delas a abraçou (a pedido da mãe) e falou:

- Nós também somos suas netas e amamos a senhora vovó. Queremos que fique perto de nós.

Dona Josefa que no fundo era mais apegada aos filhos da Sueli, sentiu um pouco de remorso. Gostava de todos os netos, era apenas questão de afinidade.

- Vou pensar sobre o assunto. O que seus irmãos acham, você já conversou com eles, Jesuíno?

- Já, minha mãe e eles disseram que quem decide é a senhora.

Ariana estava sentindo saudade da avó. No final de semana seguinte à sua viagem, ela foi cuidar dos animais. Dispensou a companhia da mãe e da irmã. Achou que a mãe ficaria triste ao ver a casa vazia sem os pais.

Ao passar pela praça, Ariana notou que um rapaz a observava. Ela não o conhecia, era a primeira vez que o encontrava. Provavelmente era alguém que estava de passagem por ali. Continuou andando sem olhar para trás. Será que ele continuava observando-a?

Quando retornou da casa da avó, no final da tarde, viu que o tal rapaz estava em frente ao bar do Seu Maneco, o comerciante que logrou a sua mãe. Ele devia ao seu pai uma grande soma em dinheiro e com a morte dele, não pagou. Seu pai confiava nas pessoas e não tinha nenhum documento assinado.

O rapaz abordou-a e puxou assunto:

- Boa tarde, senhorita, posso acompanhá-la?

- Desculpe, eu não o conheço.

- Sou o Geraldo, sobrinho do dono do bar, trabalho com vendas. Qual a sua graça?

- Estou com pressa, até logo!

- Não vai me dizer seu nome, moça bonita?

- Adeus - Ariana abaixou a cabeça e seguiu adiante. Acelerou os passos para se afastar o mais rápido possível daquele moço encantador. Jamais fora abordada por algum rapaz e ficou sem ação, naquele momento.

Assim que chegou em casa ficou sabendo que a mãe telefonara para casa do seu tio Jesuíno e recebera a notícia de que a vovó ficaria por lá mais algum tempo. Ela estava pensando em vender a propriedade. Talvez nem voltasse para retirar suas coisas. A própria Sueli poderia encaixotar tudo, que o Jesuíno iria buscar.

- Mãe, o tio Jaime e o tio Jurandir já sabem dessa novidade?

- Se eles ligaram pra lá já devem estar sabendo. Não consigo acreditar que a mamãe vai se desfazer da casa onde viveu a vida inteira com o papai.

- Tio Jesuíno a convenceu. Sabe-se lá como, mas ele e aquela mulher conseguiram conquistar a vovó.

- Bom, se é a vontade dela não podemos fazer nada, minha filha.

- Mamãe, você conhece o sobrinho do seu Maneco?

- Nem quero ouvir esse nome, menina. Por causa dele que perdemos tudo o que tínhamos.

Ariana nem se atreveu a continuar a conversa. Naquela noite, deitou para dormir, pensando naquele moço alto, moreno e de olhos acinzentados.  Sua voz ainda ecoava em seus ouvidos. Mas ela não poderia contrariar sua mãe.

A rotina do seu dia a dia a enchia de alegria. Morar na escola tinha suas vantagens. Ela tinha acesso à biblioteca nas horas livres. Podia viajar através das leituras. Ali, sentia a presença do avô querido que a incentivara a ler.

Sua irmã estava se saindo muito bem na costura. Ela e a mãe tinham algumas freguesas. Faziam as encomendas durante a noite e nos finais de semana. Quando alguma freguesa via os trabalhos de tricô feito pela Ariana, acabava comprando alguma peça.

Sueli e as filhas levavam a vida tranquilamente. Ariana nunca mais viu o Geraldo. Chegou a pensar em perguntar ao tio dele, mas desistiu. Sua mãe ficaria triste se soubesse. O moço bonito se tornou um sonho impossível.

Na casa de Jesuíno tudo estava acontecendo conforme seus planos. Ele arrumou comprador para a propriedade da mãe e como os documentos já estavam em seu poder, foi tudo rápido.


Jesuíno foi persistente e convenceu a mãe a fazer o que ele queria, mas será que dona Josefa fez a coisa certa?

E Ariana encontrará, algum dia, aquele jovem atraente que mexeu com a sua cabeça?

Não deixe de acompanhar o próximo capítulo!

Obrigada pela visita!!
Abraços!
Cidália.

PS: desenho feito por Marcos Wagner.











domingo, 23 de julho de 2017

Vida às avessas Vll (insistência)




No dia seguinte, após o café, Iracema convidou Sueli e as filhas para darem uma volta. Alegou que queria comprar uma lembrancinha para as meninas. 

- Não sei quando vamos nos ver novamente e quero comprar algo para suas filhas, Sueli. 

- As meninas agradecem e eu também, mas neste momento preferimos ficar com a mamãe - disse Sueli.

- Jesuíno fará companhia a ela, assim eles conversam um pouco - Iracema insistiu.

Ariana não queria deixar a avó sozinha com aqueles dois, porém a vó se intrometeu na conversa.

- Podem ir com a Iracema, sei me cuidar sozinha e quero aproveitar a companhia do Jesuíno. Sabe Deus quando ele voltará aqui novamente!

Sueli concordou em acompanhar a cunhada e levou as filhas, afinal seu irmão tinha o direito de ficar um pouco com a mãe.

As duas mulheres foram caminhando devagar, trocando algumas receitas, enquanto Ariana e a irmã se afastaram a passos largos. Para afugentar as lágrimas que insistiam em cair, quando pensava no avô, Ariana puxava assunto. 

- Elizandra, o que você achou dos noivos das primas? 

- Você acha que a vovó vai querer vender a casa?

- Será que a vovó vai morar na casa do tio Jesuíno?

As duas irmãs chegaram à praça e esperaram a mãe e a tia.

Enquanto isso, Jesuíno tentava convencer a mãe a vender a propriedade e ir embora com ele.

- Vai ser melhor para a senhora, mãe. Não precisará se preocupar com nada. Terá uma vida de rainha lá em casa.

- Meu filho, quero ficar aqui e cuidar das coisas que seu pai gostava. Ariana vai me fazer companhia.

- Mãe, ela tem seu trabalho na escola, a senhora já pensou nisso? E se a senhora concordar em vender esta propriedade poderá ajudar a Sueli a comprar uma casa. Ela não poderá viver na escola para sempre. 

- Isso é verdade, Jesuíno. Daqui uns anos Sueli não vai aguentar o batente, mas daí ela poderá vir morar aqui. Até lá as filhas estarão casadas.

- Se a senhora não quer se desfazer deste lugar, vamos somente ficar uns dias lá em casa.

- Bom, para ficar uns dias eu posso ir. Não quero dar trabalho para Ariana, ela é uma moça e precisa viver a vida dela. Só tem uma coisa, quem vai cuidar das galinhas?

- Se a senhora for com a gente, deixamos pra ir embora amanhã. A tarde vou conversar com seu Zé, seu vizinho mais próximo e pedir que ele venha cuidar dos bichos. Deixo dinheiro para a alimentação deles.

Tanto fez o Jesuíno que conseguiu convencer a mãe. Dona Josefa, chegou à conclusão de que talvez fosse bom passar um tempo longe dali. Ela precisava se acostumar a viver sem o seu "velho".

Quando as mulheres retornaram, encontraram dona Josefa arrumando sua mala. Jesuíno trocou um olhar com a esposa, como se dissesse - ponto para nós, vencemos a primeira batalha.

Iracema sabia que seu marido não desistiria de convencer a mãe a vender a propriedade. Muito em breve ele conquistaria seu objetivo.

Sueli e as filhas ficaram sem ação diante daquela notícia. Sabiam que nada do que falassem faria dona Josefa mudar de opinião. Jesuíno explicou que a mãe iria, apenas, passar uns dias para descansar. Ela precisava de novos ares.

Como havia prometido, Jesuíno procurou o vizinho e o pagou para cuidar dos animais. A noite, ligou para os irmãos e deu a notícia de que levaria a mãe com ele. Seus irmãos nem tiveram tempo de questioná-lo. 

Ariana se ofereceu para acompanhar a avó, mesmo sabendo que seria terrível retornar àquela casa. No entanto dona Josefa estava irredutível.  Sua nora e as filhas lhe fariam companhia de ali em diante por algum tempo.

Jesuíno conseguirá, mais uma vez, o que almeja? Os irmãos tentarão atrapalhar seus planos?

Continua...

Seguem os links dos capítulos anteriores para quem se interessar em acompanhar a história:








Muito obrigada pela visita, seu comentário é muito importante para mim!


Abraços,
Cidália.













domingo, 16 de julho de 2017

Vida às avessas VI (despedida)



Numa manhã chuvosa de outono, Sueli acordou as filhas com uma notícia triste. O avô querido das crianças tinha falecido. No velório, os tios que acolheram Ariana no passado apareceram, depois de tanto tempo sem visitar os pais. 

Aquele não era o momento para guardar ressentimentos. Sueli e Ariana trataram Jesuíno e a família educadamente.

- Meu irmão - disse dona Sueli - quero que saiba que sou muito grata a você e sua esposa por cuidarem da minha filha quando precisei de ajuda. Deus lhes pague. 

- Sentimos muito a sua falta, Ariana - disse a tia - principalmente da sua comida. Nesse momento, Jesuíno deu uma cotovelada na esposa e ela corrigiu. - quero dizer, sinto falta da sua companhia.

Mãe e filha se entreolharam e não responderam. Repararam que as gêmeas, filhas do casal, estavam acompanhadas por dois belos rapazes. Depois das apresentações souberam que elas estavam noivas de dois irmãos. Os rapazes tinham a diferença de três anos, um do outro, e eram de família rica.

Na hora de se despedir do avô, Ariana deixou as lágrimas, que haviam ficado presas durante muito tempo, rolarem abundantemente pelo rosto. Ela prometera a si, ainda quando menina, ao ter que render-se às humilhações na casa dos tios, que seria o último choro. Cumprira a promessa durante o tempo em que ficara com aquela família. Engolira o choro muitas vezes. Não precisava reprimi-lo agora.

Naquele momento de dor chorava pelo avô que não veria mais e não por ela. Isolou-se. Precisava ficar sozinha por algum tempo, por menor que fosse. Não queria o olhar de falsidade dos tios sobre ela. Nem pretendia chamar a atenção de alguém. Queria o silêncio como companhia. Queria pensar no avô, lembrar dos seus abraços e do seu cheiro.

Em meio à tristeza ninguém reparou nos olhares trocados pelo Jesuíno e sua esposa. Quando ele soube da morte do pai, comentou com a esposa que pretendia convencer os irmãos a venderem a casa dos pais. Assim cada um ficaria com uma parte do dinheiro. Ele levaria a mãe para sua casa, assim poderia cuidar da parte do dinheiro que caberia a ela.

- Ótima ideia, meu bem! Só que a sua mãe vai ficar no quartinho que era ocupado pela Ariana. Assim que as meninas casarem o quarto delas será transformado num quarto de hóspedes. 

- Não se preocupe querida, com o dinheiro que vamos pegar quero fazer uma reforma na casa. 

Assim que voltaram do funeral a família se reuniu na casa da matriarca e Jesuíno chamou os irmãos para uma conversa. Os netos levaram a avó para o quarto, ela precisava descansar.

As gêmeas, filhas do Jesuíno, voltaram para casa acompanhadas pelos respectivos noivos.

- O que vocês acham de vendermos esta casa? Posso levar a mamãe para morar comigo - disse o Jesuíno.

- Precisamos perguntar a opinião dela - falou Sueli - mas tenho certeza que ela vai preferir continuar morando aqui.

- Eu também penso que é a mamãe quem vai decidir o que fará de agora em diante - afirmou o Jurandir.

- Este não é o momento de decisões e vamos respeitar o luto - Jaime desabafou.

Iracema defendeu o marido:

- Jesuíno está preocupado com a mãe, ela não poderá ficar aqui sozinha.

Sueli olhou firme para o Jesuíno e sua esposa e falou:

- Vocês dois ficaram tanto tempo sem visitar o papai e a mamãe e agora estão preocupados? Ariana vai ficar aqui com ela e nos finais de semana eu e Elizandra viremos pra cá. Cuidaremos bem dela.

Diante daqueles argumentos, Iracema e Jesuíno se calaram, porém não esqueceriam o assunto.  Eles não pretendiam desistir sem tentar mais uma vez. Jesuíno precisava convencer sua mãe de qualquer jeito a morar com ele e sua família. Conversaria com ela a sós antes de ir embora. Tentaria fazer a cabeça dela. Precisava reconquistar a sua confiança. 

Jurandir, Jaime e Sueli perceberam o interesse do irmão. Ele só estava pensando no dinheiro e não no bem estar da mãe. O que ele e a esposa queriam era o controle da situação. 

Betina, esposa do Jurandir e Lourdes, esposa do Jaime, preferiram ficar neutras. As duas foram para a cozinha para fazer o jantar. Seria uma noite triste para a família, mas precisavam se alimentar.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e Ariana que havia dormido com a avó, a levou para dar uma volta no quintal. As duas caminharam lentamente durante horas, e vez por outra a vovó se abaixava para tirar uma erva daninha de alguma planta.

Após o almoço os tios, Jaime e Jurandir e suas famílias iriam embora. José Carlos também acompanhou de volta o tio Jurandir. Só voltaria quando tivesse uma folga na escola.

Jesuíno e sua esposa deixaram para viajar no outro dia. Sueli não seria empecilho para a conversa dele com a mãe.

O que esses dois estavam tramando? Convencerão a vovó a fazer o que eles querem?

Aguarde o próximo capítulo!

Grata pela visita, abraços!!

Cidália.

Seguem os links dos capítulos anteriores para quem se interessar pela história.



PS: Autor do desenho, Marcos Wagner.









domingo, 9 de julho de 2017

Vida às avessas V (a surpresa)



No capítulo anterior (http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-iv-…), dona Sueli pediu a atenção de todos:

- Estou muito feliz por ter a minha família de volta. Agradeço a vocês, meus irmãos, por terem cuidado dos meus filhos durante esse tempo. Assim que for possível quero agradecer pessoalmente o Jesuíno, também. Sei que meu pai agradeceu a ele, mas quem lhe deve o favor sou eu. Aos senhores, meus pais, só posso dizer que me ajudaram muito me acolhendo em sua casa. De agora em diante vou poder manter meus filhos comigo. Consegui um trabalho de zeladora numa escola aqui perto e vamos morar lá. 

Enquanto falava, dona Sueli direcionou seu olhar aos filhos e disse:

-Vocês poderão estudar lá meus filhos. E nos horários de folga me ajudarão.

A alegria foi geral. A família aplaudiu dona Sueli. Ariana perguntou se era na mesma escola onde eles haviam estudado antes de irem morar com os tios. A mãe respondeu que não. Era uma outra escola, maior.

Ariana não teve coragem de contar para a família que seus tios nem chegaram a comentar sobre a escola. Ela via suas primas saírem uniformizadas logo após o almoço e voltarem a tardinha. Sabia que elas tomavam o ônibus escolar, porque ouvira comentários. A escola ficava há cinco quilômetros de onde moravam. Seus tios não conversavam com ela, mas conversavam perto dela.  A casa dos tios era num bairro afastado. O bairro era novo e haviam poucos habitantes. Nem dava para ver a casa do vizinho mais próximo. Como ela não saía de casa, não via ninguém além dos parentes.

Por conta disso, Ariana ficou atrasada nos estudos. Teria que se esforçar para acompanhar seus irmãos. Na hora certa contaria à mãe. Não naquele momento de alegria, de felicidade para sua mãe e para todos.

Afinal a família estava reunida, mesmo que não tivessem uma casa para morar. Talvez, um dia, sua mãe conseguisse alugar uma casa para eles. O que importava, no momento, era que morando na escola não pagariam nenhuma conta e sua mãe ainda teria um salário.

No final daquele dia, Ariana ouviu um dos seus tios comentar com seu avô, enquanto fumavam na varanda, sobre o tio Jesuíno.

- Pai, a esposa do Jesuíno é uma mulher ruim. O senhor não vê que faz muito tempo que ele não aparece por aqui e nem dá notícias? E nem convida a gente para ir à casa dele. Não sei como ele ficou com a sobrinha durante esse tempo.

- Meu filho, não quero que fale nada perto da sua irmã e nem da sua avó. Pode comentar com seu irmão na volta, se quiser. O Jesuíno ficou com a minha neta, mas dispensou a empregada. A mulher dele, aquela minha nora desnaturada, colocou a menina para dar conta de todo o serviço da casa. Não a mandaram para a escola.

- A mana precisa saber disso meu pai.

- Já pensei nisso e quero contar antes dela se mudar, mas as crianças não precisam saber e nem sua avó. Ela não vai aguentar saber que seu tio foi dominado por aquela mulher. E vai sentir remorso por não ter ficado com a neta aqui em casa. Se dependesse dela as crianças teriam ficado aqui junto com a mãe. Mas, você vê como a casa é pequena, não tem espaço suficiente e o que ganho mal dá para sobrevivermos.

Ouvindo aquela conversa, Ariana pensou que, quando pudesse, queria ajudar seus avós. A casa era pequena, na noite passada ela dormiu com a mãe e nessa noite os irmãos também dormiriam no quarto, em colchões no chão. Seus tios, um dormiria no sofá e o outro no chão da sala.

Na segunda-feira de manhã, Ariana, os irmãos e a mãe foram para a escola. Levaram os poucos pertences que possuíam. Quem tinha mais coisas eram os irmãos, José Carlos e Elizandra que ganharam roupas e brinquedos dos tios. Tudo novo. Nada usado como ela tinha ganhado da tia e primas.

Na escola foram bem recebidos pela diretora, que explicou as tarefas que sua mãe precisava fazer. Ela e os irmãos ajudariam, após as aulas, na limpeza das salas de aula.

O que importava era que a família ficaria unida. Como estava acostumada com o trabalho, Ariana ajudaria a mãe nas tarefas maiores e deixaria para os irmãos mais novos, as mais simples, como varrer as salas e limpar as carteiras.

O anexo onde iriam morar era confortável, tinha dois quartos. As três mulheres ficariam juntas e o irmão ficaria sozinho num quarto menor. A sala, a cozinha e o banheiro tinham um bom tamanho. 

Para José Carlos e Elizandra tudo parecia maravilhoso. Logo se enturmaram. Ele no último ano do ensino regular e Elizandra no sexto ano. Fizeram muitos amigos.

Ariana parara no sétimo ano e como não pretendia abandonar a mãe para estudar, caso terminasse o último ano, seria melhor não frequentar a turma do irmão. Na verdade, sentiria vergonha por causa da idade. Ela sabia que era bobeira, porém não ouviu os apelos da mãe.

Era melhor ajudar com o trabalho e deixar apenas o serviço mais leve para os irmãos. Queria que eles tivessem mais tempo para o estudo. Confessou à mãe que seu tio não a colocara na escola. Não teve coragem de contar que ocupara o lugar da empregada, porém, pela reação dela desconfiara que seu avô já havia contado.

A escola era grande e sua mãe não daria conta de lavar todos os banheiros e demais dependências. No total eram poucos funcionários para cuidarem da limpeza. E seus irmãos não dariam conta do serviço.

Como Ariana sabia cozinhar bem, teve a ideia de fazer marmita para os professores. Assim teria o seu dinheiro. Ela queria comprar linhas e lãs para tricotar. Seria uma maneira para aumentar a renda da família.

Sueli estava orgulhosa da filha que se mostrara uma moça trabalhadeira. Não demonstrava cansaço. Era seu braço direito. Era elogiada por todos na escola, funcionários e professores.

No ano seguinte, José Carlos voltou para a casa do tio para continuar os estudos. Seu tio tinha uma boa situação financeira e o colocaria num colégio particular para fazer um curso técnico. Sua mãe queria o melhor para ele e para as meninas e aceitou de bom agrado a ajuda do irmão.

Elizandra gostava de bordar e costurar mais do que estudar. A máquina velha de costura da mãe era utilizada por ela nas horas livres. A mãe lhe ensinou a fazer vestidos e pijamas.

Ao completar dezoito anos, Ariana começou a ser chamada para substituir as professoras do ensino básico, como leiga. Sentia-se realizada ao ver que mesmo sem ter concluído os estudos era capaz de alfabetizar uma criança.

Sueli passava os finais de semana na casa de seus pais com as filhas. Nos feriados José Carlos se juntava à família. Seus tios e primos o acompanhavam. A casa pequena era aconchegante, apesar do pouco conforto. Os colchões eram espalhados pelo chão da sala.

Numa manhã chuvosa de outono, Sueli acordou as filhas com uma notícia triste. Despejou as palavras sem rodeios. Ariana abriu os olhos esperando que tudo não passasse de um pesadelo.


Você gostou da surpresa revelada pela mãe da Ariana no início deste texto?

Continua.

Não deixe de ler os outros capítulos acessando os links abaixo:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas.html

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ll.…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-lll…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-iv-…


Obrigada pela visita!
                                    Abraços,
                                          Cidália.




PS: Ilustração feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner.