domingo, 16 de julho de 2017

Vida às avessas VI (despedida)



Numa manhã chuvosa de outono, Sueli acordou as filhas com uma notícia triste. O avô querido das crianças tinha falecido. No velório, os tios que acolheram Ariana no passado apareceram, depois de tanto tempo sem visitar os pais. 

Aquele não era o momento para guardar ressentimentos. Sueli e Ariana trataram Jesuíno e a família educadamente.

- Meu irmão - disse dona Sueli - quero que saiba que sou muito grata a você e sua esposa por cuidarem da minha filha quando precisei de ajuda. Deus lhes pague. 

- Sentimos muito a sua falta, Ariana - disse a tia - principalmente da sua comida. Nesse momento, Jesuíno deu uma cotovelada na esposa e ela corrigiu. - quero dizer, sinto falta da sua companhia.

Mãe e filha se entreolharam e não responderam. Repararam que as gêmeas, filhas do casal, estavam acompanhadas por dois belos rapazes. Depois das apresentações souberam que elas estavam noivas de dois irmãos. Os rapazes tinham a diferença de três anos, um do outro, e eram de família rica.

Na hora de se despedir do avô, Ariana deixou as lágrimas, que haviam ficado presas durante muito tempo, rolarem abundantemente pelo rosto. Ela prometera a si, ainda quando menina, ao ter que render-se às humilhações na casa dos tios, que seria o último choro. Cumprira a promessa durante o tempo em que ficara com aquela família. Engolira o choro muitas vezes. Não precisava reprimi-lo agora.

Naquele momento de dor chorava pelo avô que não veria mais e não por ela. Isolou-se. Precisava ficar sozinha por algum tempo, por menor que fosse. Não queria o olhar de falsidade dos tios sobre ela. Nem pretendia chamar a atenção de alguém. Queria o silêncio como companhia. Queria pensar no avô, lembrar dos seus abraços e do seu cheiro.

Em meio à tristeza ninguém reparou nos olhares trocados pelo Jesuíno e sua esposa. Quando ele soube da morte do pai, comentou com a esposa que pretendia convencer os irmãos a venderem a casa dos pais. Assim cada um ficaria com uma parte do dinheiro. Ele levaria a mãe para sua casa, assim poderia cuidar da parte do dinheiro que caberia a ela.

- Ótima ideia, meu bem! Só que a sua mãe vai ficar no quartinho que era ocupado pela Ariana. Assim que as meninas casarem o quarto delas será transformado num quarto de hóspedes. 

- Não se preocupe querida, com o dinheiro que vamos pegar quero fazer uma reforma na casa. 

Assim que voltaram do funeral a família se reuniu na casa da matriarca e Jesuíno chamou os irmãos para uma conversa. Os netos levaram a avó para o quarto, ela precisava descansar.

As gêmeas, filhas do Jesuíno, voltaram para casa acompanhadas pelos respectivos noivos.

- O que vocês acham de vendermos esta casa? Posso levar a mamãe para morar comigo - disse o Jesuíno.

- Precisamos perguntar a opinião dela - falou Sueli - mas tenho certeza que ela vai preferir continuar morando aqui.

- Eu também penso que é a mamãe quem vai decidir o que fará de agora em diante - afirmou o Jurandir.

- Este não é o momento de decisões e vamos respeitar o luto - Jaime desabafou.

Iracema defendeu o marido:

- Jesuíno está preocupado com a mãe, ela não poderá ficar aqui sozinha.

Sueli olhou firme para o Jesuíno e sua esposa e falou:

- Vocês dois ficaram tanto tempo sem visitar o papai e a mamãe e agora estão preocupados? Ariana vai ficar aqui com ela e nos finais de semana eu e Elizandra viremos pra cá. Cuidaremos bem dela.

Diante daqueles argumentos, Iracema e Jesuíno se calaram, porém não esqueceriam o assunto.  Eles não pretendiam desistir sem tentar mais uma vez. Jesuíno precisava convencer sua mãe de qualquer jeito a morar com ele e sua família. Conversaria com ela a sós antes de ir embora. Tentaria fazer a cabeça dela. Precisava reconquistar a sua confiança. 

Jurandir, Jaime e Sueli perceberam o interesse do irmão. Ele só estava pensando no dinheiro e não no bem estar da mãe. O que ele e a esposa queriam era o controle da situação. 

Betina, esposa do Jurandir e Lourdes, esposa do Jaime, preferiram ficar neutras. As duas foram para a cozinha para fazer o jantar. Seria uma noite triste para a família, mas precisavam se alimentar.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e Ariana que havia dormido com a avó, a levou para dar uma volta no quintal. As duas caminharam lentamente durante horas, e vez por outra a vovó se abaixava para tirar uma erva daninha de alguma planta.

Após o almoço os tios, Jaime e Jurandir e suas famílias iriam embora. José Carlos também acompanhou de volta o tio Jurandir. Só voltaria quando tivesse uma folga na escola.

Jesuíno e sua esposa deixaram para viajar no outro dia. Sueli não seria empecilho para a conversa dele com a mãe.

O que esses dois estavam tramando? Convencerão a vovó a fazer o que eles querem?

Aguarde o próximo capítulo!

Grata pela visita, abraços!!

Cidália.

Seguem os links dos capítulos anteriores para quem se interessar pela história.



PS: Autor do desenho, Marcos Wagner.









domingo, 9 de julho de 2017

Vida às avessas V (a surpresa)



No capítulo anterior (http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-iv-…), dona Sueli pediu a atenção de todos:

- Estou muito feliz por ter a minha família de volta. Agradeço a vocês, meus irmãos, por terem cuidado dos meus filhos durante esse tempo. Assim que for possível quero agradecer pessoalmente o Jesuíno, também. Sei que meu pai agradeceu a ele, mas quem lhe deve o favor sou eu. Aos senhores, meus pais, só posso dizer que me ajudaram muito me acolhendo em sua casa. De agora em diante vou poder manter meus filhos comigo. Consegui um trabalho de zeladora numa escola aqui perto e vamos morar lá. 

Enquanto falava, dona Sueli direcionou seu olhar aos filhos e disse:

-Vocês poderão estudar lá meus filhos. E nos horários de folga me ajudarão.

A alegria foi geral. A família aplaudiu dona Sueli. Ariana perguntou se era na mesma escola onde eles haviam estudado antes de irem morar com os tios. A mãe respondeu que não. Era uma outra escola, maior.

Ariana não teve coragem de contar para a família que seus tios nem chegaram a comentar sobre a escola. Ela via suas primas saírem uniformizadas logo após o almoço e voltarem a tardinha. Sabia que elas tomavam o ônibus escolar, porque ouvira comentários. A escola ficava há cinco quilômetros de onde moravam. Seus tios não conversavam com ela, mas conversavam perto dela.  A casa dos tios era num bairro afastado. O bairro era novo e haviam poucos habitantes. Nem dava para ver a casa do vizinho mais próximo. Como ela não saía de casa, não via ninguém além dos parentes.

Por conta disso, Ariana ficou atrasada nos estudos. Teria que se esforçar para acompanhar seus irmãos. Na hora certa contaria à mãe. Não naquele momento de alegria, de felicidade para sua mãe e para todos.

Afinal a família estava reunida, mesmo que não tivessem uma casa para morar. Talvez, um dia, sua mãe conseguisse alugar uma casa para eles. O que importava, no momento, era que morando na escola não pagariam nenhuma conta e sua mãe ainda teria um salário.

No final daquele dia, Ariana ouviu um dos seus tios comentar com seu avô, enquanto fumavam na varanda, sobre o tio Jesuíno.

- Pai, a esposa do Jesuíno é uma mulher ruim. O senhor não vê que faz muito tempo que ele não aparece por aqui e nem dá notícias? E nem convida a gente para ir à casa dele. Não sei como ele ficou com a sobrinha durante esse tempo.

- Meu filho, não quero que fale nada perto da sua irmã e nem da sua avó. Pode comentar com seu irmão na volta, se quiser. O Jesuíno ficou com a minha neta, mas dispensou a empregada. A mulher dele, aquela minha nora desnaturada, colocou a menina para dar conta de todo o serviço da casa. Não a mandaram para a escola.

- A mana precisa saber disso meu pai.

- Já pensei nisso e quero contar antes dela se mudar, mas as crianças não precisam saber e nem sua avó. Ela não vai aguentar saber que seu tio foi dominado por aquela mulher. E vai sentir remorso por não ter ficado com a neta aqui em casa. Se dependesse dela as crianças teriam ficado aqui junto com a mãe. Mas, você vê como a casa é pequena, não tem espaço suficiente e o que ganho mal dá para sobrevivermos.

Ouvindo aquela conversa, Ariana pensou que, quando pudesse, queria ajudar seus avós. A casa era pequena, na noite passada ela dormiu com a mãe e nessa noite os irmãos também dormiriam no quarto, em colchões no chão. Seus tios, um dormiria no sofá e o outro no chão da sala.

Na segunda-feira de manhã, Ariana, os irmãos e a mãe foram para a escola. Levaram os poucos pertences que possuíam. Quem tinha mais coisas eram os irmãos, José Carlos e Elizandra que ganharam roupas e brinquedos dos tios. Tudo novo. Nada usado como ela tinha ganhado da tia e primas.

Na escola foram bem recebidos pela diretora, que explicou as tarefas que sua mãe precisava fazer. Ela e os irmãos ajudariam, após as aulas, na limpeza das salas de aula.

O que importava era que a família ficaria unida. Como estava acostumada com o trabalho, Ariana ajudaria a mãe nas tarefas maiores e deixaria para os irmãos mais novos, as mais simples, como varrer as salas e limpar as carteiras.

O anexo onde iriam morar era confortável, tinha dois quartos. As três mulheres ficariam juntas e o irmão ficaria sozinho num quarto menor. A sala, a cozinha e o banheiro tinham um bom tamanho. 

Para José Carlos e Elizandra tudo parecia maravilhoso. Logo se enturmaram. Ele no último ano do ensino regular e Elizandra no sexto ano. Fizeram muitos amigos.

Ariana parara no sétimo ano e como não pretendia abandonar a mãe para estudar, caso terminasse o último ano, seria melhor não frequentar a turma do irmão. Na verdade, sentiria vergonha por causa da idade. Ela sabia que era bobeira, porém não ouviu os apelos da mãe.

Era melhor ajudar com o trabalho e deixar apenas o serviço mais leve para os irmãos. Queria que eles tivessem mais tempo para o estudo. Confessou à mãe que seu tio não a colocara na escola. Não teve coragem de contar que ocupara o lugar da empregada, porém, pela reação dela desconfiara que seu avô já havia contado.

A escola era grande e sua mãe não daria conta de lavar todos os banheiros e demais dependências. No total eram poucos funcionários para cuidarem da limpeza. E seus irmãos não dariam conta do serviço.

Como Ariana sabia cozinhar bem, teve a ideia de fazer marmita para os professores. Assim teria o seu dinheiro. Ela queria comprar linhas e lãs para tricotar. Seria uma maneira para aumentar a renda da família.

Sueli estava orgulhosa da filha que se mostrara uma moça trabalhadeira. Não demonstrava cansaço. Era seu braço direito. Era elogiada por todos na escola, funcionários e professores.

No ano seguinte, José Carlos voltou para a casa do tio para continuar os estudos. Seu tio tinha uma boa situação financeira e o colocaria num colégio particular para fazer um curso técnico. Sua mãe queria o melhor para ele e para as meninas e aceitou de bom agrado a ajuda do irmão.

Elizandra gostava de bordar e costurar mais do que estudar. A máquina velha de costura da mãe era utilizada por ela nas horas livres. A mãe lhe ensinou a fazer vestidos e pijamas.

Ao completar dezoito anos, Ariana começou a ser chamada para substituir as professoras do ensino básico, como leiga. Sentia-se realizada ao ver que mesmo sem ter concluído os estudos era capaz de alfabetizar uma criança.

Sueli passava os finais de semana na casa de seus pais com as filhas. Nos feriados José Carlos se juntava à família. Seus tios e primos o acompanhavam. A casa pequena era aconchegante, apesar do pouco conforto. Os colchões eram espalhados pelo chão da sala.

Numa manhã chuvosa de outono, Sueli acordou as filhas com uma notícia triste. Despejou as palavras sem rodeios. Ariana abriu os olhos esperando que tudo não passasse de um pesadelo.


Você gostou da surpresa revelada pela mãe da Ariana no início deste texto?

Continua.

Não deixe de ler os outros capítulos acessando os links abaixo:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas.html

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ll.…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-lll…

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-iv-…


Obrigada pela visita!
                                    Abraços,
                                          Cidália.




PS: Ilustração feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner.






























domingo, 2 de julho de 2017

Vida às avessas IV (o reencontro)


A alegria invadiu o coração daquela mãe, ao abrir a porta e se deparar com aquela linda moça a sua frente. Em três anos de separação a menina desengonçada dera lugar a uma bela garota.

Mãe e filha se abraçaram por longos minutos, até que ouviram a voz do avô:

- Estamos com fome, guardaram a nossa janta?

Dona Sueli, agarrada à filha levou-a para a cozinha. Seu Joaquim as acompanhou.

- Cadê a minha velha? Não ficou me esperando?

- Papai, ela estava muito cansada e foi se deitar. Jantou mais cedo - disse Sueli.

- Quero ver a vovó, estou com saudades dela.

- Vamos jantar primeiro, depois vamos ver se ela está acordada, minha filha.

Ariana sentindo o aconchego da mãe, não queria mais nada. Aquele abraço carinhoso era suficiente para alimentar sua alma. Não queria desgrudar dela.

- Não se preocupe, minha filha, não vamos mais nos separar. Amanhã, quando seus irmãos chegarem contarei a novidade.

Aquelas palavras proferidas, com doçura, pela mãe que ela tanto amava deu-lhe um grande conforto. 

Sentaram- se e fizeram uma oração antes de jantarem. Mãe e filha tinham muito o que agradecer.

Após o jantar, Ariana seguiu o avô até o quarto para ver se a avó estava acordada. Jogou-se sobre ela quando a viu, sorridente, abrir os braços para recebê-la. Ficaram algum tempo abraçadas até que Sueli veio buscá-la.

- Hoje você vai dormir comigo, minha filha. Quero matar a saudade. Tomei a liberdade de ver suas coisas e não vi um pijama decente na sua trouxa. Tome banho e vista um pijama meu. É simples, feito de flanela, mas fui eu quem fiz.

Naquela noite, Ariana não queria falar mais nada. Queria apenas desfrutar da companhia da mãe. No dia seguinte teria que dividi-la com os irmãos. Não que fosse egoísta, mas precisava sentir o calor da sua querida mãe.

No dia seguinte, todos acordaram felizes. Ariana levantou cantarolando e foi para a cozinha fazer o café. Seus avós ajudaram a arrumar a mesa, enquanto a mãe se arrumava para esperar os outros filhos.

Um pouco antes do almoço. José Carlos e Elizandra chegaram, acompanhados pelos tios. Como moravam na mesma cidade, Jurandir e Jaime combinaram de viajar num carro só. Eles moravam há duas horas e meia dali. Como era um sábado, os dois irmãos dormiriam ali e voltariam no domingo.

A família reunida foi motivo de festa. Os avós prepararam um grande almoço. Com direito a sobremesa e tudo. A avó já havia matado dois frangos na véspera. Fez macarrão caseiro, a sua especialidade. A sobremesa era a preferida das crianças, pudim de leite.

José Carlos e Elizandra estavam muito bem vestidos. Pareciam filhos de gente rica. Os tios que os acolheram não eram ricos, mas ganhavam o suficiente para manter um bom padrão de vida.

Ariana descobriu através dos irmãos que eles visitaram a mãe algumas vezes durante aqueles três anos.

Ela abraçou os irmãos e quis saber o que eles tinham feito durante àqueles anos em que ficaram separados.  Os três tinham muito o que conversar e a mãe deixou-os a vontade. O almoço poderia esperar.

- O tio sempre foi muito legal comigo - falou o José Carlos - todo domingo ele me levava, junto com meus primos, para jogar bola num clube.

- Meus tios compraram roupas e sapatos novos para mim - comentou Elizandra - ganhei vários presentes de Natal.

- Durante a semana eu ia para a escola com meus primos - completou José Carlos.

- Eu também ia para a escola com meus primos - Elizandra disse eufórica – e você, Ariana, também estava indo à escola?

Por um momento, Ariana ficou sem saber o que responder. Não queria mentir, mas também não queria reclamar dos tios para seus irmãos. Talvez, um outro dia, contasse para sua mãe. Então, ela respondeu com outra pergunta.

- Como vocês moravam na mesma cidade, frequentavam a mesma escola?

- Eu ia numa escola particular com meus primos - José Carlos falou.

- E eu com meus primos estávamos numa escola municipal - disse Elizandra.

Que sorte tiveram seus irmãos, pensou Ariana. Foram acolhidos pelos tios bonzinhos. Se eles tivessem ido para onde ela foi não teriam aguentado.

Nisso, a mãe chamou-os para o almoço. Todos já estavam em volta da mesa.  Os três irmãos lavaram as mãos e sentaram-se.

Dona Sueli, levantou e pediu a atenção de todos.

Qual a surpresa que dona Sueli tem para revelar aos filhos?

Continua...

A você que está acompanhando a história, a minha gratidão! Espero que esteja gostando!!


Abraços,
Cidália.


PS: Desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.


domingo, 25 de junho de 2017

Vida às avessas lll (o retorno)



Durante o percurso até a rodoviária, a menina que teve a voz presa na garganta por muito tempo, disparou a falar com o avô:

- Vovô, estou feliz que tenha vindo me buscar. Eu estava pensando que ficaria naquela casa até completar a maioridade. Se isso acontecesse eu fugiria quando aparecesse uma oportunidade. Já estava pensando nisso. 

- Não fale besteira, menina. Nem comente isso com a sua mãe, ela estava desesperada para reaver vocês. Não se conformava por ter que ficar longe dos filhos, coitada.

- Se eu fugisse daquela casa, vovô, seria para ver a mamãe e meus irmãos. Como eles estão?

- Primeiro vim buscar você, Ariana, porque era a única de quem não tínhamos notícias. Seus irmãos estão próximos um do outro, morando na mesma cidade. Serão levados para casa amanhã.

- Por que só eu vim morar tão longe, vovô?

- Porque seu tio Jesuíno é o único que mora bem afastado da família. Estaremos em casa na hora da janta, se o ônibus não atrasar.

- O senhor deve estar cansado de vir e voltar no mesmo dia.

- Um pouco, mas vou descansar no ônibus. Na vinda, dormi durante toda a viagem. 

- Nem acredito que vou ver a mamãe, a vovó e meus irmãos.

- Será que você não vai sentir saudade da sua tia, minha menina?

- Que tia, vovô? Aquela mulher nunca me tratou como uma pessoa da família.

- Pensei em esperar seu tio chegar do serviço para ter uma conversa séria com ele. Na ida, passei na fábrica, mas só contei a ele que ia te levar embora. Ele estava trabalhando e eu estava com pressa. Mas, pretendo voltar outro dia, para lhe dar um puxão de orelha.

- Sabe de uma coisa, vovô? Não quero mais pensar naquelas pessoas. Se um dia eu encontrá-las, por acaso, apenas as cumprimentarei como cumprimentaria qualquer pessoa. Não pelo fato de me obrigarem a fazer o trabalho da casa, mas por me ignorarem.

A conversa entre os dois continuou mesmo depois que entraram no ônibus. Ariana passou tanto tempo falando consigo mesma que estava amando o fato do avô estar ali ouvindo-a e conversando com ela.

Quando percebia que ele estava cochilando iniciava outra conversa. Estava tão empolgada por estar voltando para sua família que não conseguia se conter. Como estavam seus irmãos? 

José Carlos era dois anos mais novo que ela e Elizandra, a caçula, estava com doze anos. Como sentia falta das brincadeiras no quintal e dos banhos no rio! Sua brincadeira predileta era jogar bola com o irmão. 

Será que durante esse tempo que seus irmãos passaram na casa dos tios foram bem tratados? Ela não via a hora de saber como tinham sobrevivido durante esse tempo sem a mãe. A caçula era muito apegada a ela. 

Numa das paradas do ônibus, Ariana olhou para o avô e viu que ele estava apreciando a paisagem. 

- Vovô, você está me ouvindo? 

- Sim, minha neta. Pode continuar falando. Não tenho todas as respostas, mas amanhã quando seus irmãos chegarem, saberemos.

- Estou muito curiosa para saber o que a mamãe tem para nos contar. Deve ser coisa boa se ela mandou nos buscar.

- Prometi a ela que não ia te contar nada. Tenha paciência, menina!

- Desculpe, meu avô, não vou perturbar mais o senhor. Sou grata por ter me tirado daquela casa.

Ao chegarem no ponto final da viagem, o avô pegou a neta pelo braço e caminharam, em silêncio, até chegarem em casa. Estava uma noite clara, noite de lua cheia. Nem sentiram os três quarteirões que andaram. 

Mil pensamentos povoavam a mente da Ariana. Três anos se passaram desde que vira a mãe pela última vez. Três anos de reclusão para ela. Três anos sem ter com quem conversar. Três anos de solidão, de sofrimento. Três anos que esperava esquecer, apagá-los da memória.

Assim que chegaram, Ariana olhou para a casa dos avós e suspirou! Sentiu uma paz tão grande que pensou que fosse morrer ali, naquele momento.

Depois de viver longe da sua família, das pessoas que amava, por três terríveis anos, Ariana precisava compensar o tempo perdido.

Ela perdera parte da infância e adolescência. Ficara atrasada na escola. Tornara-se uma ótima dona de casa, aprendera a cozinhar e a tricotar. Poderia ajudar a mãe a refazer a vida.

Nesse período em que ficou longe da família, Ariana percebeu que era uma moça forte, pois conseguiu suportar as humilhações que lhe foram impostas.

Durante esse tempo ela chorou, apenas, uma única vez.

Qual a surpresa que a vida tinha lhe reservado? Será que a mãe arrumara um marido?

Continua!

PS: Desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.

Sua visita é muito bem vinda, obrigada!

Volte sempre que estiver com vontade de ler.
Você encontrará aqui no blog vários textos reflexivos e contos baseados em histórias reais.


Uma semana abençoada!!

Cidália.


Seguem os links do capítulos anteriores:











domingo, 18 de junho de 2017

Vida às avessas ll (a chegada do avô)


Conforme o tempo ia passando aquela pobre menina fazia o impossível para se manter forte. Sentia muitas saudades da mãe e dos irmãos.

Todas as noites, antes de dormir, fazia sua oração pedindo a Deus que sua mãe viesse buscá-la. Tinha esperança de voltar a viver com a sua família.

Ali, naquela casa, Ariana não tinha com quem conversar. Desenvolveu o hábito de falar sozinha enquanto realizava suas tarefas.

Depois que aprendeu a cozinhar, seu serviço aumentou. Era ela quem cuidava de tudo. Era a primeira a acordar e a última a dormir. As palavras que proferia diariamente eram:

- Sim, senhora! - Sim, senhor!

Aos quatorze anos de idade, Ariana era responsável pela casa dos tios e ainda encontrava tempo para tricotar meias e cachecóis com restos de lã que a tia começou a lhe dar, depois que a viu, um dia, observando-a tricotar.

O primeiro Natal que passou longe da família foi muito triste para Ariana. Ela viu os tios e as primas saírem, bem vestidos, para irem à igreja. Naquela noite ela foi dormir cedo.

Na manhã seguinte viu a alegria das primas ao desembrulharem os presentes. Lindas bonecas.

- Ariana, o café está pronto? - perguntou a tia.

- Sim, senhora.

- O que você está esperando para arrumar a mesa? Não tem nada aqui pra você ficar olhando - falou uma das primas.

Ariana não respondeu a prima, abaixou a cabeça e foi para a cozinha. Ela não tinha folga e nem remuneração. Pagava a sua estadia com o trabalho. Vestia e calçava o que a tia lhe dava, aquilo que ela não queria mais. Roupas e calçados usados.  O que ela tinha de novo eram as meias e os cachecóis que fazia. pelo menos podia se agasalhar no inverno.

Ela gostaria de ter seu próprio dinheiro para comprar linhas e lãs para fazer outras coisas além de meias e cachecóis.

O tempo passava e a saudade aumentava. Queria perguntar ao tio se ele tinha notícias da sua mãe, porém não se atrevia a falar com ele. Desde que estava naquela casa, nunca havia recebido uma palavra ou gesto de carinho dele. O jeito era esperar. Tinha certeza de que assim que pudesse, sua mãe viria buscá-la.

Muitas vezes, quando perdia o sono, Ariana pensava no tio. Desde que chegara, nunca o ouviu falar sobre a mãe dele, sua avó ou sobre o avô que a trouxe para viver ali. Foi seu avô quem a levou, assim como levou seus irmãos para a casa de outros parentes.

Ao completar dezesseis anos, Ariana recebeu, certo dia, a visita do avô. Ela estava preparando o almoço quando ele apareceu.

- Menina, como você cresceu! Está uma bela moça. Sua mãe tem uma surpresa para você e seus irmãos.

Seu avô não reparou em suas vestimentas. Não viu que ela estava usando avental e um lenço na cabeça.

- Onde está sua tia? Sei que seu tio está trabalhando, já falei com ele.

- Ela deve estar na sala de costura, vovô, com as filhas. E a mamãe como está? Estou sentindo muita saudade dela e dos meus irmãos.

- Ela também sente saudades de vocês, mas espero que me entendam que não pudemos agir de outra maneira. Eu e sua avó não tínhamos condições de sustentar todos vocês.

- Eu entendo, vovô e sei que meus irmãos, também, entendem.

- Muitas vezes sua mãe quis visitar vocês para saber como estavam passando, porém a falta do dinheiro a impediu de viajar. Ela trabalhou todo esse tempo fazendo compotas e bolos para juntar algum trocado. Por isso estou aqui hoje, ela me deu o dinheiro para a sua passagem e a de seus irmãos. Eu não pago a passagem por causa da idade.

- O dinheiro não vai fazer falta para ela, vovô?

- Não vou falar mais nada, mocinha, senão vou estragar a surpresa da sua mãe. Vou falar com a sua tia. Depois do almoço nós vamos embora. Enquanto converso com ela, vá arrumar as suas coisas.

Ariana terminou o almoço, arrumou a mesa e foi para seu quartinho. Estava transbordando de alegria. Sentiu vontade de pular e cantar. Ela ia rever sua mãe e seus irmãos. Deus ouviu as suas preces.

Seu avô foi procurar pela nora. Chegando ao quarto de costura a viu ensinando as filhas um novo ponto de crochê.

- Como vão vocês, Iracema e minhas netas queridas?

- Estamos bem e o senhor? Que bons ventos o trazem sem nenhum aviso prévio? - a nora perguntou, levantando-se para cumprimentá-lo.

- Olá vovô, que saudades! - as gêmeas o abraçaram.

- Vim buscar a Ariana, já passei na fábrica e falei com o Jesuíno.

- E quem é que vai cuidar da comida e da casa? Não posso ficar sem ninguém, a casa é grande e preciso de ajuda.

- Coloque as meninas para te ajudar. A Ariana já ficou tempo demais longe da família. Pelo que pude ver, a pobre menina ficou no lugar da empregada. Ela até poderia ajudar, mas não assumir a responsabilidade da casa. Vou conversar com o Jesuíno, ele deveria ter tratado melhor a sobrinha.

- O que foi que essa mal agradecida foi falar para o senhor? Ela não tem nada do que reclamar, tem que dar graças a Deus pelo nosso acolhimento.

- Ela não precisou falar nada, eu vi com meus próprios olhos. Quando entrei na cozinha pensei que fosse encontrar a Clotilde.

- Pelo menos agora ela será mais útil, poderá ajudar a mãe. - Iracema proferiu a frase encaminhando-se à cozinha. As gêmeas e o avô a seguiram.

Sentaram-se à mesa e se serviram. Iracema não esperou pela sobrinha. A comida estava muito boa. 

Quando Ariana voltou para a cozinha sem o avental e o lenço na cabeça, a tia perguntou:

- Você não vai deixar a cozinha arrumada antes de ir embora?

- Venha almoçar menina, sente-se ao meu lado - disse o avô - sua tia e suas primas vão cuidar da cozinha hoje.

Iracema não se atreveu a responder o sogro. Sentiu vontade de respondê-lo, porém preferiu ficar calada. O jeito seria pedir ao marido, no final do dia, que chamasse a Clotilde de volta.

Cabisbaixa, Ariana se sentou ao lado do avô. Durante o tempo que permaneceu naquela casa foi a primeira vez que sentou à mesa com aquela família. 

Após o almoço silencioso, Ariana pediu licença e foi pegar suas coisas. Voltou com uma pequena trouxa. O avô a esperava na sala. Despediram-se e foram embora. Tinham uma pequena caminhada até a rodoviária.

Continua...

Acompanhe a história da Ariana acessando o link abaixo para ler a primeira parte deste conto:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas.html


PS: Mais um desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.

Sua visita me deixa muito feliz, obrigada!

Uma semana abençoada a você e sua família!!

Abraços,

Cidália





segunda-feira, 5 de junho de 2017

Vida às avessas (o sacrifício)




Aos treze anos de idade, Ariana viu seu mundo desmoronar. A família composta por cinco pessoas se desfez depois da morte do seu pai. Sua mãe ficou sem renda, pois os negócios eram feitos de boca, não havia documento assinado. Seu pai era comerciante. 

Cada filho foi morar na casa de um parente e sua mãe voltou para a casa de seus pais. Era uma época difícil. Os avós não tinham condições de ajudar a filha e os netos. Sua mãe não teve opção. Era para o bem de todos.

Ao chegar na casa dos tios onde ficaria, Ariana assumiu o lugar da empregada doméstica que foi dispensada no dia seguinte. Antes de partir, a empregada teve que mostrar à menina seus deveres.

Para a menina a mudança de vida foi drástica. Teve que deixar a infância para trás de uma hora para outra e aprender os ofícios domésticos. Limpar o chão era o pior dos serviços. Ela não era tratada como sobrinha e sim como uma serviçal.

Nem nas horas de folga ela podia brincar com as primas. Não a aceitavam por perto. Quanto às roupas, usava àquelas que eram dispensadas pelas meninas. Não importava que ficassem apertadas.

- Vai procurar o que fazer sua inútil – dizia a tia quando a via pelos cantos olhando as gêmeas brincando.

Muitas vezes ela pensava em contar ao tio, irmão da sua mãe, sobre o modo como era tratada pela tia e primas.

Porém, certo dia ouviu uma conversa entre o casal.
- Não sei porque você se ofereceu para cuidar dessa menina, Jesuíno. A nossa despesa aumentou, você não notou?

- Mas, querida, você dispensou a Clotilde e a menina Ariana é que está fazendo o serviço da casa.

- A Clotilde cozinhava  e essa menina não sabe cozinhar. Sou eu quem faço a comida agora. Ela ajuda descascando os legumes, é só o que sabe fazer na cozinha, além de comer muito.

- Por que você não a ensina a cozinhar? Está na hora dela aprender. Minha irmã deu moleza para os filhos. 

- A partir de amanhã vou ensiná-la. Já estou cansada de ir para a cozinha. 

Ariana, ouvindo aquela conversa, correu para o quarto dos fundos onde dormia e jogou-se na cama chorando.  

Naquela noite dormiu sem janta, ninguém sentiu a sua falta. Ela comia depois que todos jantavam. O que sobrava. Não se sentava à mesa com a família.

Provavelmente, naquela noite a família foi para a sala e nem viu que ela não foi tirar a mesa. Ela só era lembrada quando precisavam dos seus serviços.

- Ariana, faça isso! - Ariana, faça aquilo! - Ariana, você já fez o que te pedi? - Se apresse menina! 

Na manhã seguinte, Ariana acordou bem cedo, com muita fome, e foi para a cozinha. Precisava se conformar com a sua situação. Não tinha a quem recorrer. Levantou a cabeça, recolheu a louça da mesa, lavou e limpou o chão.

Assim que encontrasse sua mãe contaria a ela o que estava passando. Esperava que seus irmãos tivessem tido mais sorte que ela.

Sentia muita falta do seu pai. Se ele ainda estivesse vivo ela poderia estar em casa com seus irmãos. Ela não teria que se sujeitar àquela vida. Ao mesmo tempo sentia raiva dele. Culpava-o pelo modo que estava vivendo. Se ele não tivesse deixado sua mãe sem recursos nada daquilo teria acontecido. Infelizmente, porém, o armazém do seu pai faliu após a sua morte.

Quando sua tia a viu pondo a mesa para o café, de olhar cabisbaixo, chamou a sua atenção.

- Menina, por que amanheceu com essa cara emburrada? Você tem que agradecer ao seu tio. Se ele não a trouxesse pra cá, o que seria da sua mãe? Trate de fazer o serviço direito. A partir de hoje vou te ensinar a cozinhar. 

Naquele momento, Ariana sentiu vontade de responder, mas, apenas concordou com a cabeça sem levantar os olhos para ela. Queria ter coragem para responder que preferia estar morando debaixo da ponte com sua mãe e seus irmãos.

Ali, naquela casa, ela se sentia desprezada. Só lembravam dela na hora de pedir que fizesse algum trabalho. As primas não a chamavam para brincar e nem repartiam com ela algo diferente que estivessem comendo. Seu tio sempre trazia um doce para as filhas quando chegava do trabalho.

E assim, Ariana começou a aprender a cozinhar o arroz, o feijão, a fazer massas e bolos, entre outras comidas.

A tia estava satisfeita, a menina aprendia rápido e em poucos meses assumiria a cozinha. Seria um descanso para ela. 

O dia para Ariana começava muito cedo. Ela precisava dar conta de todos os afazeres domésticos. Fazia tudo em silêncio. Só falava quando os tios perguntavam alguma coisa em relação à casa.

Sentia saudades dos irmãos e das brincadeiras. Os brinquedos eram poucos, mas eles tinham muita imaginação e criatividade. Ela e os dois irmãos ajudavam a mãe nas tarefas simples como arrumar as camas, varrer a casa e lavar a louça. Sobrava muito tempo para as brincadeiras.

Suas poucas vestes estavam se acabando. Se aparecia um rasgo ela mesma costurava na mão para não incomodar a tia. 

Aos domingos, enquanto os tios iam à missa ela ficava em casa. Para passar o tempo pegava as agulhas de tricô da tia e com sobras de linhas que recolhia do lixo, tentava fazer alguma coisa. Procurava deixar sempre as agulhas no mesmo lugar, na sala de costura, para a tia não brigar com ela. Assim como fazia com a agulha e linha que usava para remendar a sua roupa.

Com o passar do tempo, os vestidos das gêmeas foram ficando pequenos para ela que, sendo dois anos mais velha, estava se desenvolvendo muito rápido.

- De agora em diante vou reformar meus vestidos para você, menina. Àqueles que estão encostados no guarda roupa. Você está comendo demais, por isso as roupas das suas primas não te servem mais.

A pobre Ariana sentia-se como a gata borralheira. Não tinha nenhum direito, apenas deveres. Sua vida estava às avessas!



Continua


Obrigada a todos pela visita!!

Beijos

Cidália.


PS: o desenho foi feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.





segunda-feira, 29 de maio de 2017

Palavras


                       
   


Muitas ideias se misturam na cabeça dela, porém nenhuma inspiração para um conto. 

Lembranças de filmes assistidos e de livros lidos. Somente fragmentos. 

Ela pensa nas histórias inacabadas e nas sugestões que recebeu. Onde estão as palavras que darão continuidade a esses personagens?

Estarão no fundo, bem lá no fundo da sua mente, num cantinho trancafiado? 

Muitas vezes o silêncio inspirador não lhe dá asas para a imaginação. Ela fica entorpecida. 

- Onde estão as palavras? - se pergunta mais uma vez. 

O dia amanheceu ensolarado e lá fora, na cidade grande, diversos sons são ouvidos. Automóveis, aviões, sirenes, alarmes disparados. Ela apura os ouvidos. Do décimo segundo andar tenta distinguir alguns sons. 

Enquanto despertava, agarrada à sua neta, ouvia o canto dos pássaros. 
- Bem te vi! - Bem te vi! - Bem te vi!

Mas, conforme as horas vão passando, o canto dos pássaros se perde entre o barulho do dia. A cada momento um novo som. 

Ela olha pela janela, ouve ao longe, algumas vozes misturadas com o latido de cachorros. Um motor é acionado. Parece o barulho de uma serra elétrica. 
A cidade não pára. Enquanto algumas pessoas dormem, outras trabalham ou apenas se divertem na calada da noite. Assim é a vida na cidade grande.

O sol entra pela janela iluminando a sala. 

As palavras começam a surgir de uma forma inusitada. 

De repente, o cheiro de comida entra pelas narinas. O horário do almoço se aproxima. Ela espera a chegada da neta que havia saído.

Até aquele momento ela ainda não conseguiu organizar seus pensamentos. 

Nenhum personagem surge. 

As histórias continuam inacabadas.

Qual o tipo de leitura que os leitores preferem? Uma trama comovente, um suspense ou fantasia?

Ela pensa no seu gosto literário.  Gosta de romances e dramas, mistério e suspense.

Com a chegada da neta ela esquece as palavras e a envolve num abraço. O carinho recebido a distrai. 

A tarde se anuncia. 

Cadê as palavras? 

Ela precisa terminar algumas histórias e pensar em outras.

Na ausência das palavras ela se torna repetitiva. 

O melhor a fazer é esperar que novas palavras surjam e que o repertório seja ampliado.

E assim, em breve, novas histórias e novos textos reflexivos serão postados.

Um abraço carinhoso em agradecimento pela visita!

Cidália.





domingo, 21 de maio de 2017

O ninho


Segunda, a tarde, lá estava meu marido limpando o quintal e cuidando do jardim, quando se deparou com um ninho em uma pequena árvore. Ele o tirou para jogar fora.

Eu estava tirando a roupa do varal e ele me chamou para mostrar a perfeição.
- Olha que obra prima – disse ele.
- A natureza é fantástica – respondi.
- Parece que está vazio – ele comentou colocando a mão na entrada do ninho.
- Será que não tem um ovinho aí dentro? – perguntei curiosa.
- Não.
- Olha, tem uma pena! – exclamei surpresa.

Então, ele colocou a mão mais no fundo e vimos o filhote encolhido, escondido. Mas que depressa, meu marido ajeitou o ninho e colocou-o no mesmo lugar onde o havia encontrado.

- Logo a mãe virá cuidar dele, é um filhote de corruíra.
- Que gracinha! – falei admirada com tamanha magnitude.

Pensei nas maravilhas criadas por Deus. A mamãe passarinha faz o ninho para abrigar seu filhotinho até que ele esteja pronto para voar e se virar sozinho. Ela o protege dos predadores.



Enquanto isso, em algum lugar, uma criança está sendo abandonada a sua própria sorte! Por inúmeros motivos ou por motivo nenhum. Não cabe a mim tal julgamento, é apenas uma comparação.

No dia seguinte um casal de passarinhos sentou no varal e de longe meu marido ficou observando a cena. Um de cada vez visitou o ninho, provavelmente para levar comida ao filhote.

Depois que eles foram embora, lá foi meu marido, muito curioso olhar o ninho novamente. Eu queria tirar uma foto. E a surpresa foi grande, pois lá dentro estavam dois filhotes e não apenas um como achamos que fosse no dia anterior.

Talvez, na primeira vez tenhamos enxergado mal ou um deles estivesse muito bem escondido. Uma dúvida surgiu quanto aos pais, não eram corruíras como havíamos pensado. Que pássaros eram aqueles?

Existem muitos tipos, mas uma hora dessas descobriremos que passarinhos são esses que fizeram seu ninho numa pequena árvore do nosso jardim.





Não me canso de admirar a natureza e pensar nas maravilhas criadas por Deus! Na beleza dos pássaros e borboletas que voam sobre as flores! Flores de cores alegres! Folhagens exuberantes!

Mais uma surpresa nos aguardava no sábado! Curiosos, eu e meu marido fomos olhar o ninho e lá estavam três lindos filhotes nos observando. Provavelmente estavam escondidos no fundo, pois o ninho tem uma boa profundidade.

Em breve os filhotes sairão do aconchego do seu lar e estarão entre os outros pássaros sobrevoando as árvores e flores do jardim. E serão eles a fazer um novo ninho para abrigar seus filhotes. O ciclo continuará!

Poderão nos acordar com seu canto majestoso e nos presentear com a sua beleza como fazem seus pais. Voarão de galho em galho entre as árvores para se alimentar de seus frutos. Desfrutarão de sua liberdade!

Para encerrar este texto vou deixar um poema que encontrei entre meus achados. Numa folha amarelada pelo tempo a letra de uma adolescente que o copiou sem anotar o nome do autor.

LIBERDADE

Quem me dera ser livre
e poder correr entre os campos
sem hora marcada para voltar.
Dormir sob as árvores,
tomar banho num riacho,
comer somente frutas,
andar descalça sobre a relva,
e apreciar o por do sol.
Cantarolar baixinho para a lua,
sonhar de olhos abertos
e esquecer o amanhã.
Colher flores silvestres,
acompanhada apenas pelo silêncio.
                           (autor desconhecido)

Em breve novos contos, aguardem. 

Grata pela visita!

Abraços,
Cidália.









sábado, 13 de maio de 2017

Singela homenagem



Uma singela homenagem às mães, que devem ser lembradas todos os dias e não apenas no segundo domingo de maio.
Que o carinho e o amor sejam sentimentos presentes no seu dia a dia!
Que as bênçãos se multipliquem na vida de todas as MÃES!!
Feliz DIA!!

MÃE (DESNECESSÁRIA)
                                                                                Márcia Neder

A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo.

Várias  vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha. Até agora. Agora, quando minha filha de 18 anos começa a dar vôos-solo.

Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos.
Uma batalha hercúlea, confesso.

Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara.
Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também.

A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical.
A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.
Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.

Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo.

O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.

Pai e mãe - solidários - criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.

"Dê a quem você ama :
Asas para voar...
Raízes para voltar...
Motivos para ficar..."
                  (Dalai Lama)

Eu não poderia deixar de falar sobre a minha mãe  que partiu há muito tempo deixando um enorme vazio no meu coração.
Para ela os filhos não deveriam sair debaixo das asas da mãe, onde estariam sempre protegidos.
Maenga do céu era o termo mais usado por ela quando sentia pena de um dos membros da família por menor que fosse o motivo.

Também sinto saudades da minha sogra, uma mulher de fibra, trabalhadeira, que me ensinou, entre algumas coisas a fazer pão.
Quando ela vinha em casa, uma vez por mês, a cozinha ficava por conta dela. Ela era mestre para fazer sonho, cuca alemã, massa de pão de ló, tortas, capeletti, pães, etc.
Ela, apesar de ser um pouco mais velha que minha mãe, tinha a mente mais aberta. Três de seus cinco filhos sempre moraram fora, bem longe dela.

E neste exato momento em que estou escrevendo, sentada, no jardim de casa, ouço a homenagem que os alunos da escola de educação infantil, que tem na proximidade, estão fazendo para suas mães.
Muitas lembranças me vieram à mente!
Minha mãe não participava dessas homenagens, mas se alegrava com os mimos, cartões feitos na escola que meu pai guardava num baú junto com suas coisas de valor.


Obrigada pela visita!

Um abraço especial às MÃES!

Cidália.
MÃE
Que ao dar a benção da vida, entregou a sua...
Que ao lutar por seus filhos, esqueceu-se de si mesma...

Que ao desejar o sucesso deles, abandonou seus anseios...
Que ao vibrar com suas vitórias, esqueceu seu próprio mérito...
Que ao receber injustiças, respondeu com seu amor...

E que, ao relembrar o passado, só tem um pedido:

DEUS, PROTEJA MEUS FILHOS, POR TODA A VIDA!

Para você mãe, um mais que merecido:




http://contosdacabana.blogspot.com.br/2016/05/perfis-de-maes.html?spref=fb





domingo, 7 de maio de 2017

Deserdada

                                                          Desenho: Marcos Wagner


Lígia, uma menina tímida e retraída, sentia-se muito solitária. Na escola não tinha amigos. Sentava-se na primeira carteira e como era a melhor aluna da classe, era a primeira a terminar as tarefas.

Enquanto esperava os demais terminarem a lição, sonhava de olhos abertos. Imaginava-se num palco, cantando para milhares de pessoas.

Aos dezessete anos começou a cantar na igreja onde seu pai era o pastor. Nesses momentos em que a música invadia sua alma, ela não sentia solidão. As pessoas gostavam de ouvir a sua voz e isso lhe trazia conforto.

Seus irmãos eram fãs e perdiam horas assistindo seus ensaios. Eles não eram de muita conversa com  a irmã mais velha porque ela não lhes dava atenção, mas sempre a rodeavam.
Quando descobriu que sentia atração por outras meninas, o desespero tomou conta dela. Sabia que se revelasse seus sentimentos não seria aceita, nem pelos pais e nem pela comunidade. Seria apedrejada.

Continuou sufocando seus sentimentos e só sentia-se livre quando estava cantando para os fiéis, na igreja.

Seus pais pensavam que ela não tinha namorado por causa da timidez. E ela estava sempre na escola ou na igreja. Não saía com amigos. Para os colegas da escola ela era antipática, pois conversava apenas o essencial com alguns deles, quando precisavam se agrupar, para fazerem determinados trabalhos.

Ao completar dezoito anos, seus pais encontraram cartas de amor que ela tinha escrito para outra menina, colega da faculdade, e recebeu ameaças de seu pai.

Tanto sua mãe quanto seu pai ficaram horrorizados com a descoberta de que a filha tinha uma namorada e cortaram o relacionamento com ela.

- A partir de hoje você não será mais nossa filha - disse o pai - eu e sua mãe queremos que saia de casa e que cuide da sua vida bem longe de nós.

- E a faculdade? Vocês vão me ajudar até que eu consiga bancá-la sozinha?

- Tranque a matrícula, faça o que achar melhor, mas não conte conosco – disse a mãe.

- Você pode ficar com o carro que foi presente e o dinheiro da poupança que foi presente de seus avós - o pai falou, sem olhar para a filha.

- Por favor, arrume suas coisas e saia antes que seus irmãos cheguem da escola, não queremos que eles saibam sobre a sua vida - a mãe foi rude.

- O que vocês vão dizer a eles, quando perguntarem onde estou? Vão mentir?

- O que diremos a eles não é da sua conta. Contaremos apenas o necessário quando perguntarem por você - o pai já estava perdendo a paciência.

Lígia foi para o quarto sem derramar uma lágrima sequer, arrumou suas coisas e pegou seu violão, o companheiro de todas as horas. Colocou a mala no bagageiro e o violão no banco do carona. Verificou o combustível e deu partida no carro. Seguiu em frente com um aperto no coração. Gostaria de ter se despedido de seus irmãos. Mesmo não sendo muito ligada a eles, amava-os. No fundo, talvez sentisse ciúme deles.

Luiz e Leda, eram gêmeos e tinham quatro anos a menos que ela. Desde que eles nasceram, Lígia sentiu-se rejeitada pelos pais. A atenção era toda para os bebês.

O dinheiro que ela tinha, na conta, teria que ser economizado até que arrumasse um trabalho.

Conseguiu emprego no restaurante, onde fazia suas refeições, numa cidade próxima. Alugou um quarto num pensionato.

Nos finais de semana se apresentava em bares e lanchonetes. Com o apoio da namorada, sentia-se mais confiante e enquanto dedilhava as cordas do seu violão a timidez não a incomodava tanto.

Seis meses depois, já familiarizada com a nova rotina, voltou para a faculdade. Sabia que precisava pensar no futuro, não poderia viver de sonhos. A música continuaria sendo um maravilhoso passatempo.

Ela estudava durante o dia e trabalhava a noite.  Começou a manter contato com os irmãos através das redes sociais. Soube que seus pais nem queriam ouvir o seu nome. Era como ela tivesse uma doença contagiosa.

A família da namorada era muito diferente da sua. Eram pessoas legais. Aceitaram a escolha da filha numa boa. Recebiam a Lígia com alegria. Eles moravam na mesma cidade que a família da Lígia, porém num bairro distante.

Com esforço e dedicação, Lígia conseguiu terminar a faculdade. Se formou nutricionista e continuou no restaurante, onde foi promovida a gerente. Assim que possível pretendia abrir seu consultório.

Porém, a nutricionista que prestava serviços ao restaurante foi embora para outra cidade e Lígia assumiu seu lugar.

A música continuou fazendo parte da sua vida e nos dias de folga ela se apresentava com a banda formada pela namorada, em festas de casamentos e aniversários.

A esperança de fazer sucesso como cantora ainda existia. Quem sabe sua estrela ainda brilharia?
Quanto aos pais perdera a esperança de uma reconciliação. Eles não compareceram na sua formatura.

Seus irmãos foram contra a vontade dos pais. Lígia ficou feliz por ter o amor e o carinho deles, num momento marcante da sua vida.
Ela sentia falta dos pais, mas não podia fazer nada se eles não aceitavam a sua escolha.

Será que seus pais voltariam atrás, um dia, e se aproximariam dela?

Obrigada pela visita!

Beijos,
Cidália.

PS: não deixe de acompanhar o blog e de segui-lo.


     http://contosdacabana.blogspot.com.br/









segunda-feira, 1 de maio de 2017

Esse tal de Facebook!

                                                                           Desenho: Marcos Wagner  

Estava eu voltando  da capital no último ônibus daquele dia. O ônibus estava lotado. Alguns passageiros em pé, enquanto procuravam seus assentos. Sentei num dos bancos a direita do motorista. Na minha frente estava uma senhora que, mais tarde soube, era uma religiosa da mesma igreja onde eu frequento.

Depois que o ônibus saiu da rodoviária parou numa agência onde entrou um rapaz e sentou-se no último banco. Ele entrou com uma lata de cerveja na mão. Parecia bem extrovertido pela maneira como cumprimentou o motorista.

O ônibus saiu e as luzes foram apagadas. O livro que eu pretendia ler permaneceu fechado na minha mão. Preferi pensar na minha neta; fazia poucas horas que eu a havia deixado, mas já estava com saudades.

Lá pelas tantas, o rapaz do fundo veio para a frente e sentou-se ao lado da senhora religiosa. Nessa altura, aquele banco já estava desocupado.
- Parece que você está muito feliz meu jovem – ela falou vendo a euforia do rapaz.
- E estou mesmo muito feliz, graças a esse tal de Facebook. Uma ex namorada me encontrou depois de dez anos. Estou indo encontrá-la.
- Não entendo dessas modernidades. Do que você está falando?
- Ah, me desculpa, senhora. Esse tal de Facebook é uma rede social onde podemos encontrar as pessoas e conversar com elas.
- Entendi. Então, sua ex namorada encontrou-o através dessa rede social depois de muitos anos!

Aquele converse na minha frente despertou a minha atenção. Fiquei curiosa com a história do rapaz.

- Há dez anos eu morava com a minha avó na mesma cidade  que ela, a Soninha. Meu pai ficou viúvo, casou novamente e eu fui rejeitado pela minha madrasta. Daí ele me levou para a casa dos meus avós.
- Geralmente a madrasta cuida bem dos filhos do marido.
- No meu caso, a minha madrasta não me aceitou. Eu tinha dez anos quando isso aconteceu. Conheci a Soninha na escola e fomos muito amigos. Aos quinze anos começamos a namorar. Como já disse ela morava nas proximidades. 
- Hum, que interessante, meu rapaz!

A senhora religiosa já estava íntima do moço, pareciam velhos conhecidos.

- Namoramos durante dois anos, estávamos apaixonados, mas daí meus avós se mudaram. Foram morar com o meu pai que tinha ficado viúvo e estava sofrendo para cuidar do filho e do trabalho. 
- Você tem um irmão que também contou com a ajuda dos seus avós?
- Tenho. E esse, meu pai não levou para meus avós, preferiu que eles vendessem a casa deles e fossem para a cidade grande. Tive que deixar a Soninha com a promessa de voltar. Ela chorou muito, mas acabou entendendo a minha situação. Chegando na cidade grande passei por umas fases difíceis, adaptação na escola, desentendimento com o meu pai e falta de amigos.
- Nossa, imagino o que você passou! Mas você não podia falar com a Soninha por telefone?
- Naquela época não tínhamos celular  e como estávamos sempre juntos nunca trocamos o número de telefone. 
- Poderia ter escrito uma carta para ela. 
- Nunca fui bom com esse negócio de cartas. E nem dei meu endereço para que ela me escrevesse.
- Daí ia ficar difícil mesmo. Talvez o que vocês sentiam na época fosse apenas fogo de palha. Se fosse amor teriam dado um jeito de se falarem.

Aquela história estava bem interessante e eu já estava torcendo para dar tempo do rapaz contá-la na íntegra.

- Meu pai arrumou um emprego para mim na lanchonete onde ele era o gerente. Dali em diante eu dividia o tempo entre o trabalho e o estudo. As coisas começaram a melhorar entre eu e meu pai. Me envolvi com a filha de uma garçonete e me tornei pai aos dezenove anos. Ela tinha dezesseis. 
- Rapaz, sua vida parece uma novela – disse a religiosa.
- Parei de estudar e tive que trabalhar em mais de um emprego para ajudar a criar minha filha. Levei as duas para casa do meu pai. Meu avô faleceu e a minha avó se distraía ajudando a cuidar da criança e do meu irmão. 
- Sua avó é uma Santa.
- Foi uma mulher muito boa. Três anos depois ela foi se encontrar com meu avô. 
- E seu pai não casou mais?
- Não e eu acabei ficando solteiro também. Faz pouco tempo que minha mulher se apaixonou por outro e foi embora com a minha filha. O outro era mais velho e bem de vida. 
- Ela agiu por interesse, então. 
- Depois que isso aconteceu abri uma conta nesse tal de Facebook e uma moça me adicionou dizendo que era a Soninha. 
- Imagino a sua alegria por ela tê-lo encontrado.
- Fiquei admirado por ela se lembrar de mim e dizer que mora no mesmo endereço. Disse que casou e teve um filho. Hoje está separada e trabalha num salão de beleza. Ficou uma mulher muito bonita pelo que vi na foto.

O ônibus estava quase chegando na cidade onde o moço ficaria e eu estava agoniada para saber o final daquela história.

- Ela está te esperando a essa hora? Já é quase meia noite!  - falou a senhora.
- Aproveitei a minha folga e vim vê-la. Espero que a chama entre nós reacenda.

O rapaz falante chegou ao seu destino, assim como muitos passageiros e se despediu da senhora antes de descer.

- Obrigada por me ouvir dona, eu estava precisando desabafar.
- Boa sorte meu jovem (desculpa, nem perguntei seu nome), que Deus te proteja, boa sorte! 
- José Eduardo – respondeu ele ao descer do ônibus- obrigado, amém!

Eu e a religiosa continuamos a viagem. Fiquei olhando aquele rapaz e imaginando qual seria o desfecho da sua história. Comentei com a senhora e ela disse que era a primeira vez que tinha ouvido uma história como aquela. Talvez nunca tenha dado atenção para o passageiro ao seu lado.

Pensei em quantas histórias como essa existem por aí. Reencontros graças a esse tal de Facebook!


Sua visita me deixa muito feliz!
Obrigada!!
Beijos,
Cidália.