segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sorrateiro

 


Há menos de um ano,

 ele surgiu —
feito segredo atravessando o quintal.

Não vinha só.
Um outro corpo ao lado:
irmão? mãe? sombra?
Eram dois mistérios
caminhando pelo forro,
saltando telhados,
costurando a vizinhança com passos leves.

Bastou uma porta entreaberta
para que o mundo mudasse de lugar.
Ele entrou assim —
de mansinho,
sorrateiro,
como quem não quer nada
e, no fundo, quer ficar.

Ficou… sem ficar.
Arisco e doce,
presença de vento:
às vezes noite inteira,
às vezes só manhã,
às vezes um relâmpago de tarde.

Dormiu na poltrona perto da porta
como se guardasse fronteiras invisíveis.
Sumia por horas, por dias —
mas sempre voltava,
como quem sabe
o caminho do afeto.

Tinha duas casas?
Ou dois pedaços de mundo
que o chamavam pelo mesmo silêncio?

Um dia, o outro não veio mais.
E ele, sozinho,
foi ficando.

Conquistou confiança
como quem planta ternura:
subiu no colo,
fez morada no abraço,
aconchego manso —

feito verso antigo de canção:
chegou sorrateiro,
como quem chega do nada,
e se instalou,
posseiro, delicado,
dentro do coração.

Até que, numa dessas andanças,
o mundo foi menos gentil.
Algo amargo cruzou seu caminho —
veneno? descuido? maldade?

Nunca saberemos.

Mas ele voltou.

Voltou para dizer adeus
no idioma breve dos miados,
nos olhos que pediam colo
pela última vez.

E partiu
como chegou:
sorrateiro.

Não teve nome —
não desses que cabem em papel.

Mas tinha um chamado
feito de carinho e repetição:

Tchu Tchu.

 

 Obrigada pela visita,

Cidália. 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Abril

 


Abril chegou com aquela pressa mansa de quem não avisa, mas acontece. Mês quatro no calendário, terceiro encontro do ano entre elas — um pequeno ritual que insiste em sobreviver às agendas apertadas, apesar de todas estarem aposentadas, aos compromissos que brotam sem pedir licença, às ausências inevitáveis. Dessa vez, eram cinco. Duas ficaram pelo caminho, engolidas pela rotina que, às vezes, parece maior do que a própria vontade de estar junto.

Era domingo, o último do mês. E havia algo de simbólico nisso, como se o tempo estivesse fechando mais um ciclo enquanto elas tentavam, à sua maneira, abrir um espaço dentro dele. Esperar por todas seria bonito, mas improvável. E a vida, elas já aprenderam, raramente se alinha perfeitamente.

O restaurante já havia sido escolhido dias antes — um lugar aconchegante, desses que acolhem sem perguntar muito, com mesas que parecem guardar histórias de outros encontros, outras risadas, outros silêncios compartilhados. Ao se sentarem, há sempre aquele instante inicial: um misto de reconhecimento e novidade, como se cada reencontro trouxesse versões ligeiramente diferentes de quem elas foram da última vez.

O cardápio repousa sobre a mesa, mas não é ele o protagonista. Ainda assim, cada uma escolhe seu prato com cuidado, como quem tenta agradar não só o paladar, mas também o momento. Antes mesmo da comida chegar, duas fotos são tiradas — quase um pacto silencioso de que aquele instante merece ser lembrado, mesmo sabendo que o mais importante jamais caberá em uma imagem.

A conversa começa tímida, como quem tateia o terreno, mas logo se expande. Assuntos cotidianos, histórias simples, pequenos dramas, alegrias miúdas. Risos surgem soltos, espontâneos, preenchendo os espaços que a ausência das outras não conseguiu ocupar completamente. O tempo parece desacelerar ali, entre uma frase e outra.

Então a comida chega.

Há uma pausa natural, quase respeitosa. Os talheres substituem as palavras por alguns minutos. Cada uma mergulha no próprio prato, mas não há silêncio — há presença. O tipo de presença que não precisa ser falada o tempo todo.

Logo, a conversa retorna, mais cheia, mais íntima. Um assunto puxa o outro, memórias surgem sem aviso, opiniões se cruzam, confidências aparecem nas entrelinhas. O prato vai ficando vazio, mas o encontro, paradoxalmente, parece cada vez mais cheio.

E o tempo… ah, o tempo não pede licença.

Quando percebem, o restaurante começa a dar sinais de despedida. Cadeiras sendo ajustadas, olhares discretos do proprietário, a rotina retomando seu curso. É hora de ir.

Mas ninguém quer que acabe assim, de forma abrupta. Então, como quem prolonga um abraço, elas caminham até a sorveteria ali perto. Um último gesto de resistência contra a pressa do mundo. Entre sabores escolhidos quase sem pensar, há ainda espaço para mais algumas risadas, mais algumas frases que poderiam ter sido ditas antes, mas que encontraram seu momento ali.

E então, finalmente, o encontro se dissolve.

Cada uma segue seu caminho, retornando à própria realidade — às responsabilidades, aos silêncios, às urgências que as aguardam. Mas algo fica. Fica na leveza do passo, na memória recente, na sensação discreta de pertencimento.

Porque, no fim, não é sobre quantas estavam presentes.

 

 


 A frase "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" é uma promessa de Jesus registrada em Mateus 18:20

 

 

GRATA PELA VISITA,

CIDÁLIA. 

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Monotonia

 




Ela pede a Jesus força e paciência,
enquanto, quase em segredo, sonha com algo que muita gente acharia sem graça:
um dia absolutamente monótono.

Um dia sem compromissos,
sem ligação urgente,
sem drama,
sem notícia inesperada batendo à porta.

Um dia sem emoção forte,
sem lágrimas repentinas,
sem correria de última hora.

Um dia em que o telefone permaneça quieto sobre a mesa,
em que a campainha não toque,
em que ninguém precise dela com urgência.

Ela sonha com um dia sem histórias para contar,
sem acontecimentos marcantes,
sem episódios que virem assunto no jantar.

Um dia simples, quase invisível,
repleto de uma paz silenciosa
que se espalhe pela casa como a luz suave da manhã entrando pela janela.

Um dia em que absolutamente nada renda uma boa crônica.

Um dia preguiçoso em que possa acordar a hora que quiser,
espreguiçar-se devagar,
tomar café sem pressa,
olhar o céu pela janela e perceber o tempo passar sem exigir nada.

Um dia em que ela possa fazer apenas o que der na telha:
folhear um livro antigo,
regar as plantas do quintal,
ou simplesmente sentar-se em silêncio,
deixando os pensamentos vagarem sem destino.

Um dia desconectado de tudo que possa lhe tirar o sossego.

Mas a realidade raramente respeita esse desejo.

Como a única filha que mora perto dos pais,
é sempre ela quem atende quando algo acontece.
É ela quem escuta primeiro o telefone tocar,
quem corre, quem resolve, quem tenta acalmar.

Há dias em que mal termina uma tarefa
e outra já aparece, pedindo urgência.

A convivência com a mãe nunca foi fácil.
Desde muito cedo aprenderam a se amar
misturando carinho com impaciência.

Com o passar dos anos,
o que antes era apenas diferença de temperamento
transformou-se em algo mais delicado.

A idade foi trazendo suas próprias teimosias,
seus esquecimentos,
suas fragilidades.

E, pouco a pouco,
a filha percebeu que o papel dentro daquela história também mudava.

A mulher que um dia segurou sua mão para atravessar a rua
agora precisava ser conduzida com cuidado.
A voz firme de antes,
agora muitas vezes se tornava frágil, confusa ou irritadiça.

Há dias bons, é verdade.
Dias em que conversam tranquilamente,
lembram histórias antigas
e até dão risada de alguma lembrança.

Mas há também os dias difíceis,
aqueles em que qualquer palavra vira motivo de desentendimento,
em que o cansaço pesa mais que a paciência.

Nesses momentos, ela respira fundo
e repete silenciosamente a oração que já se tornou hábito:

— Senhor, dai-me força… e um pouco mais de paciência.

Porque, no fundo, ela sabe
que a monotonia que tanto deseja
é um luxo raro na vida de quem cuida.

Ainda assim, continua sonhando com aquele dia simples.

Um dia comum,
tão tranquilo
que não mereça ser contado.

Um dia tão quieto
que não vire crônica.

Mas, ironicamente,
é justamente a falta desses dias
que continua enchendo suas páginas. 

 

Grata pela visita,

Cidália. 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Domingo de março

 

                                                             (foto copiada da internet)

Havia uma alegria silenciosa pairando sobre aquele domingo, o último do mês de março, que ainda nem tinha começado direito. Era o terceiro encontro do ano — e, como sempre, carregava consigo a expectativa de risadas fáceis, memórias revisitadas e novas histórias que, inevitavelmente, nasceriam à mesa.

Cada uma, à sua maneira, já havia se preparado. A roupa escolhida com um cuidado especial, o cabelo ajeitado, talvez um batom passado com a intenção de celebrar mais do que um simples almoço. Celebrar a amizade, o tempo, o fato de ainda estarem ali, juntas, apesar da vida — essa mesma vida que tantas vezes separa, atrasa, cansa.

Era domingo. Dia de pausa. Dia de encontro.

Mas a vida, às vezes, atravessa o caminho sem pedir licença.

Logo pela manhã, antes mesmo que o café terminasse de esfriar nas xícaras, chegou a mensagem. Não era uma mensagem qualquer. Era um áudio. E, no instante em que ouviram a voz da matriarca, algo já pareceu fora do lugar. Não havia o tom firme de sempre, nem a leveza habitual. Havia um peso — daqueles que não cabem nas palavras.

A voz vinha entrecortada, embargada por um choro que não pedia permissão para existir. A notícia caiu como um silêncio repentino: sua sobrinha havia falecido. Assim, de um instante para o outro, o domingo mudou de cor.

Não havia mais almoço. Não havia mais encontro.

Havia dor.

Ela iria ao velório. E isso bastava para que todas entendessem que aquele dia já não lhes pertencia mais. Sem precisar de muitas palavras, as seis amigas decidiram adiar. Não era apenas uma questão de respeito — era de sentimento. Porque, sem ela, nada seria igual. A cadeira vazia falaria mais alto que qualquer conversa.

A mesa no restaurante foi cancelada. Talvez alguém do outro lado da linha tenha achado que era só mais uma reserva desfeita. Mas não era. Era um encontro inteiro que deixava de existir. Era um pedaço da alegria que ficava suspenso no tempo, aguardando um outro dia, um outro mês, um outro momento que ainda não se sabia quando viria.

Porque há dias que simplesmente não são feitos para acontecer.

E, naquele domingo, o destino havia escrito outra história.

Cada uma seguiu o seu dia em silêncio, carregando um pouco da dor da outra, como só as verdadeiras amizades sabem fazer. Talvez tenham olhado para o relógio na hora em que estariam se encontrando. Talvez tenham imaginado a mesa posta, os pratos chegando, as gargalhadas ecoando. Talvez tenham sentido, juntas, a ausência que preenchia tudo.

A vida tem dessas interrupções bruscas, desses desvios inesperados. Ela nos lembra, sem delicadeza alguma, que nem sempre estamos no controle — e que, às vezes, o que nos resta é apenas acolher o que vem.

O encontro não aconteceu.

Mas a amizade, essa sim, permaneceu intacta. Talvez até mais forte. Porque, naquele dia, mesmo distantes, elas estiveram juntas — unidas não pela celebração, mas pela dor compartilhada.

E, no tempo certo, haverá outro domingo. Outra mesa. Outro encontro.

Mas aquele… aquele ficará para sempre guardado como o encontro que não aconteceu — e que, ainda assim, disse tanto.

 

 Obrigada pela visita,

Cidália.