segunda-feira, 30 de maio de 2022

Novela


Tudo começou com uma denúncia anônima.

Em seguida uma notificação, pelo correio, de multa se o prazo não fosse cumprido.

Ele ficou desesperado quando soube que um temporal havia derrubado o muro em frente a sua casa.

As providências precisariam ser tomadas dentro do tempo que constava na notificação.

O homem de 77 anos, morando na capital, pegou um ônibus, carregando na mala algumas roupas de verão.

O calor de janeiro estava insuportável.

Ao chegar no endereço da sua antiga residência foi logo providenciando pedreiro e comprando o material.

Afinal, o prazo dado precisava ser respeitado.

Porém, ele se deparou com um empecilho.

Aí começou a novela do poste.

Foram muitas idas à prefeitura e ao escritório da Elektro.

Um dos vizinhos o acompanhou para conversar com o prefeito.

Alguns vereadores visitaram o local.

O tempo foi passando e nada.

Ninguém resolvia nada.

Chegou o mês de fevereiro e ele passou o aniversário longe da família.

Dormindo num colchão no chão, comendo de marmitex, tomando banho na água fria, sem rádio ou televisão.

O pedreiro foi adiantando o serviço.

Um certo dia, passou um rapaz que havia trabalhado no setor da Defesa Civil e o aconselhou a parar com a obra.

Era preciso esperar que a Elektro resolvesse a questão do poste.

Fotos foram tiradas.

Era necessário que ele contratasse um engenheiro para fazer a planta do muro.

Seria outro tipo de bloco.

O pedreiro desmanchou o que havia começado.

O jeito era esperar.

Talvez fosse um teste de paciência para aquele homem de 78 anos que sempre foi apressado.

Ele vê o tempo passar sem olhar o calendário. Não tem nenhum.

Os dias vão passando.

Sai janeiro, chega fevereiro, vem março, abril.

Todos os dias os capítulos são iguais, monótonos.

Nenhuma novidade para alegrar a vida daquele senhor de 78 anos.

A nora se comunica com a Elektro através da ouvidoria.

Datas foram marcadas e não respeitadas.

Enfim, chega o mês de maio com boas notícias.

O poste é retirado. Um novo poste é colocado em outro lugar.

O sorriso do homem vai de orelha a orelha.

Fim da primeira temporada da novela.

Uma nova temporada começa com o caminhão que foi contratado para carregar o barro. A máquina fez a parte dela, porém o caminhão quebrou após uma hora e meia de trabalho.

A filha e o marido ajudam à distância no que podem.

É preciso ter paciência.

Depois de esperar tanto tempo pela mudança do poste ele aprendeu a ser paciente.

Quatro meses se passaram desde a notificação da prefeitura e ele, enfim, reconhece que se não tivesse sido tão precipitado no início da saga, não teria tido um enorme prejuízo material.

“Quem tem pressa come cru”, que frase mais verdadeira.

De nada adianta a lamentação. O que se espera é que ele se torne menos ansioso, que resolva as coisas sem pressa.

Tudo acontece na hora certa.

 Obrigada pela visita, 

Cidália.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Razão

 


 

Um encontro ao acaso com duas conhecidas e uma conversa rápida com direito a troca de abraços.

As duas irmãs contam que após a viuvez os filhos queriam mantê-las solteiras. Muito ciúme envolvido.

Ambas falaram da solidão.

Falaram do quanto se dedicaram aos companheiros, do quanto fizeram por eles enquanto estavam vivos.

Uma delas comentou sobre o conselho que recebeu de um pastor para não perder a autoridade diante dos filhos.

Os filhos certamente preocupam-se com os pais quando um deles fica viúvo. Porém, se o pretendente da mãe ou do pai for uma pessoa do bem, a preocupação não tem fundamento.

A preocupação maior deve ser com a felicidade daquela (e) que perdeu seu companheiro (a).

Existem pessoas que foram tolhidas pelos filhos e se sentem sozinhos, solitários, sem alguém para conversar ou mesmo para uma discussão.

As irmãs contaram que depois de algum tempo resolveram contrariar os filhos.

Escolheram o direito de ser feliz.

Escolheram descobrir por conta própria se tomaram a decisão certa.

Alguns dos filhos se redimiram.

Mas, afinal, quem é que tem a razão quando se trata de um relacionamento amoroso?

As duas só vão saber experimentando uma nova realidade, vivendo um novo amor, se aventurando a cada dia.

Para elas, os companheiros são pessoas de boa índole, honestos.

Só o tempo dirá de quem é a razão.

Se as irmãs se arrependerem no futuro por algum motivo, pelo menos terão tido a oportunidade de conhecer uma nova vida.

Ao menos elas tiveram coragem de arriscar.

Talvez a preocupação dos filhos seja pelo fato de ouvirem muitas notícias ruins e a intenção seja a de proteger a mãe.

Os filhos saem em busca do amor sem a certeza de que viverá um conto de fadas. Não ouvem a opinião dos pais.

Por que os pais deverão ouvi-los?

Após o abraço de despedida as duas irmãs seguiram seu caminho sorridentes e felizes, com a certeza de que fizeram a escolha certa.

Elas sabem que o futuro é incerto, mas o que importa são os bons momentos que estão vivendo.

Agora elas têm com quem trocar ideias.

Agora seus dias são mais alegres.

Agora elas não sentem mais o peso da solidão.

Assim é a vida.

Algumas pessoas se acostumam em viver sozinhas. Se bastam. Não precisam de ninguém para preencher suas vidas.

Outras pessoas detestam a solidão. Querem dividir a vida com alguém.

Não tem como saber quem está ou não com a razão.

Ninguém sabe de nada, ninguém tem direito de opinar sobra nada, ninguém é dono da verdade.

O bom da vida é viver essa incerteza.

 

 

A mente humana é como o pêndulo de um relógio que flutua entre a razão e a emoção. Nossa capacidade de tolerar, solidarizar-nos, doar-nos, divertir, criar, intuir, sonhar é uma das maravilhas que surgem desse complexo movimento. O amor é seu melhor fruto. Cuidado com os desvios desse pêndulo.

Augusto Cury

 

Obrigada pela visita, 

Cidália.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Em sintonia

 

Como os dias passam rapidamente quando a companhia é boa!

Observar a mamãe beija-flor alimentando os filhotes sobre um fio enquanto se balança vagarosamente numa rede ou ouvir os causos que surgem durante as longas conversas fazem parte do descanso mental.

Subir numa escada para colher jabuticaba ou raquetear os mosquitos, tudo é motivo de alegria.

As refeições são regadas de mais "causos" e risadas.

O chá de capim limão antes de dormir não pode faltar.

As caminhadas sem pressa, apenas observando a paisagem e as casas silenciosas nas noites de outono.

A imaginação fértil da sobrinha enquanto alguém abre a porta e sai na área da frente.

Será que a pessoa vai ver aqueles dois casais e pensar que são ladroes estudando o terreno para cometerem o assalto na calada da madrugada? A manchete no jornal no dia seguinte: assaltos são cometidos durante a noite e os suspeitos foram vistos nos arredores.

Na caminhada de volta mais uma parada para observar o comércio da pequena cidade.

A conversa no final da noite na rede vai noite adentro.

O tio tem muitas histórias para contar. Muitas já foram repetidas algumas vezes, porém a sobrinha não se incomoda. Ela ouve como se tivesse ouvindo-as pela primeira vez. Para seu namorado algumas histórias são inéditas.

O moço conta sobre suas peraltices da infância. Entre todas as traquinagens cometidas pelo rapaz, uma fica na memória da tia.

A mãe fazia a compra mensal e apesar de avisar os filhos, o menino de oito e a irmã de três anos comiam as guloseimas em poucos dias. Uma manhã quando a mãe havia saído, o menino e sua irmã pularam a janela da casa vizinha que estava silenciosa para procurar as guloseimas. Comeram o que acharam e ao ouvir um barulho, do dono da casa que estava chegando, o jeito era pular pela janela rapidamente. O pior era que teriam que sair por outra janela, um pouco mais alta do que aquela que usaram para entrar. O menino usando da sua esperteza fez com a que a irmã pequenina pulasse na frente e fosse buscar um colchãozinho para amortecer a sua queda. A menina pulou e mesmo sentindo uma dorzinha na perna obedeceu o irmão.

Mas, como todas as peraltices do menino eram descobertas, essa também foi, pois a vidraça havia sido quebrada por ele.

Segundo o rapaz a irmã ria quando ele apanhava, então ele se vingava se aproveitando da ingenuidade dela. E ele apanhou muito durante a sua infância.

Ouvindo-o contar as suas façanhas era possível entender porque as surras eram constantes.

E assim, com as horas preenchidas pelas lembranças ou simplesmente deitados na rede para ouvir o canto dos pássaros os dias voaram.

É chegada a hora de voltar para a cidade grande.

Um abraço apertado, emocionado e a promessa do até breve.

No dia seguinte o café da manhã já não é igual aos dias anteriores.

 

Obrigada pela visita,

Cidália.