segunda-feira, 25 de maio de 2026

Desencontros

 

As coisas nem sempre saem do jeito que queremos.
Apesar de estarem aposentadas, algumas ainda têm responsabilidades, trabalhos voluntários ou compromissos inadiáveis. Escolher uma data que seja boa para todas não é uma tarefa simples.

No começo parecia fácil. Bastava sugerir um restaurante, escolher um dia qualquer e confirmar presença no grupo. Mas os dias foram ficando apertados, as agendas ganharam novos compromissos e o tempo, que antes parecia abundante, passou a escapar pelas frestas da rotina.

Duas tinham compromisso naquele dia. Outra não respondeu a mensagem. Havia também quem simplesmente estivesse cansada demais para sair de casa depois de uma semana cheia de pequenas obrigações invisíveis aos olhos dos outros. Nos dias seguintes uma delas já tinha se comprometido com a igreja.

A impressão que fica é que aquelas que estão mais disponíveis acabam insistindo em cumprir um objetivo proposto no ano anterior: um encontro por mês. Uma meta criada no entusiasmo do momento, quando todas estavam emocionadas com a ideia de não deixar a amizade se perder com o passar do tempo.

Naquele dia parecia simples. Entre risadas, sobremesas e lembranças antigas, alguém sugeriu:
— Precisamos nos encontrar mais vezes.

Todas concordaram imediatamente, como se a boa vontade fosse suficiente para vencer as dificuldades da vida adulta. E talvez, naquele instante, realmente acreditassem nisso.

Mas a vida não costuma obedecer aos nossos combinados.

— Não é preciso fazer um encontro por mês — disse uma delas, em uma das intermináveis tentativas de marcar um almoço.

Houve um breve silêncio depois da mensagem. Não um silêncio de raiva, mas daqueles que obrigam cada pessoa a pensar um pouco sobre si mesma. Porque, no fundo, ninguém queria decepcionar ninguém. O problema é que vontade e disponibilidade raramente caminham juntas.

Algumas começaram a interpretar as ausências como desinteresse. Outras se sentiram pressionadas pelas insistências. Sem perceber, uma coisa que deveria ser leve começou a ganhar o peso das obrigações.

Talvez o erro tenha sido transformar afeto em meta.

Amizades não funcionam como reuniões de trabalho nem precisam cumprir calendário. Existem pessoas que passam meses sem se ver e continuam se querendo bem da mesma forma. O carinho verdadeiro não desaparece porque alguém faltou a um almoço ou respondeu tarde uma mensagem.

O que, a princípio, parecia algo grandioso tornou-se um desafio. O que parece importante para uma pessoa nem sempre tem o mesmo significado para a outra — e tudo bem.

Com o tempo, cada uma foi entendendo que envelhecer também é aprender a respeitar os próprios limites e os limites dos outros. Há dias em que a companhia faz falta. Em outros, o silêncio da própria casa parece suficiente.

Nada deve ser imposto; as vontades precisam ser respeitadas. Cada um deve fazer o que quer, e quando quiser, sem cobranças disfarçadas de preocupação.

Porque encontros marcados podem até falhar. Datas podem nunca coincidir. Sempre haverá alguém impossibilitado, atrasado ou cansado demais.

Mas amizade de verdade talvez não dependa tanto da presença constante.
Às vezes ela permanece justamente nos desencontros.

 

 

Obrigada pela visita,

Cidália.

 

PS: Sinta-se à vontade para manifestar a sua opinião. 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sorrateiro

 


Há menos de um ano,

 ele surgiu —
feito segredo atravessando o quintal.

Não vinha só.
Um outro corpo ao lado:
irmão? mãe? sombra?
Eram dois mistérios
caminhando pelo forro,
saltando telhados,
costurando a vizinhança com passos leves.

Bastou uma porta entreaberta
para que o mundo mudasse de lugar.
Ele entrou assim —
de mansinho,
sorrateiro,
como quem não quer nada
e, no fundo, quer ficar.

Ficou… sem ficar.
Arisco e doce,
presença de vento:
às vezes noite inteira,
às vezes só manhã,
às vezes um relâmpago de tarde.

Dormiu na poltrona perto da porta
como se guardasse fronteiras invisíveis.
Sumia por horas, por dias —
mas sempre voltava,
como quem sabe
o caminho do afeto.

Tinha duas casas?
Ou dois pedaços de mundo
que o chamavam pelo mesmo silêncio?

Um dia, o outro não veio mais.
E ele, sozinho,
foi ficando.

Conquistou confiança
como quem planta ternura:
subiu no colo,
fez morada no abraço,
aconchego manso —

feito verso antigo de canção:
chegou sorrateiro,
como quem chega do nada,
e se instalou,
posseiro, delicado,
dentro do coração.

Até que, numa dessas andanças,
o mundo foi menos gentil.
Algo amargo cruzou seu caminho —
veneno? descuido? maldade?

Nunca saberemos.

Mas ele voltou.

Voltou para dizer adeus
no idioma breve dos miados,
nos olhos que pediam colo
pela última vez.

E partiu
como chegou:
sorrateiro.

Não teve nome —
não desses que cabem em papel.

Mas tinha um chamado
feito de carinho e repetição:

Tchu Tchu.

 

 Obrigada pela visita,

Cidália. 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Abril

 


Abril chegou com aquela pressa mansa de quem não avisa, mas acontece. Mês quatro no calendário, terceiro encontro do ano entre elas — um pequeno ritual que insiste em sobreviver às agendas apertadas, apesar de todas estarem aposentadas, aos compromissos que brotam sem pedir licença, às ausências inevitáveis. Dessa vez, eram cinco. Duas ficaram pelo caminho, engolidas pela rotina que, às vezes, parece maior do que a própria vontade de estar junto.

Era domingo, o último do mês. E havia algo de simbólico nisso, como se o tempo estivesse fechando mais um ciclo enquanto elas tentavam, à sua maneira, abrir um espaço dentro dele. Esperar por todas seria bonito, mas improvável. E a vida, elas já aprenderam, raramente se alinha perfeitamente.

O restaurante já havia sido escolhido dias antes — um lugar aconchegante, desses que acolhem sem perguntar muito, com mesas que parecem guardar histórias de outros encontros, outras risadas, outros silêncios compartilhados. Ao se sentarem, há sempre aquele instante inicial: um misto de reconhecimento e novidade, como se cada reencontro trouxesse versões ligeiramente diferentes de quem elas foram da última vez.

O cardápio repousa sobre a mesa, mas não é ele o protagonista. Ainda assim, cada uma escolhe seu prato com cuidado, como quem tenta agradar não só o paladar, mas também o momento. Antes mesmo da comida chegar, duas fotos são tiradas — quase um pacto silencioso de que aquele instante merece ser lembrado, mesmo sabendo que o mais importante jamais caberá em uma imagem.

A conversa começa tímida, como quem tateia o terreno, mas logo se expande. Assuntos cotidianos, histórias simples, pequenos dramas, alegrias miúdas. Risos surgem soltos, espontâneos, preenchendo os espaços que a ausência das outras não conseguiu ocupar completamente. O tempo parece desacelerar ali, entre uma frase e outra.

Então a comida chega.

Há uma pausa natural, quase respeitosa. Os talheres substituem as palavras por alguns minutos. Cada uma mergulha no próprio prato, mas não há silêncio — há presença. O tipo de presença que não precisa ser falada o tempo todo.

Logo, a conversa retorna, mais cheia, mais íntima. Um assunto puxa o outro, memórias surgem sem aviso, opiniões se cruzam, confidências aparecem nas entrelinhas. O prato vai ficando vazio, mas o encontro, paradoxalmente, parece cada vez mais cheio.

E o tempo… ah, o tempo não pede licença.

Quando percebem, o restaurante começa a dar sinais de despedida. Cadeiras sendo ajustadas, olhares discretos do proprietário, a rotina retomando seu curso. É hora de ir.

Mas ninguém quer que acabe assim, de forma abrupta. Então, como quem prolonga um abraço, elas caminham até a sorveteria ali perto. Um último gesto de resistência contra a pressa do mundo. Entre sabores escolhidos quase sem pensar, há ainda espaço para mais algumas risadas, mais algumas frases que poderiam ter sido ditas antes, mas que encontraram seu momento ali.

E então, finalmente, o encontro se dissolve.

Cada uma segue seu caminho, retornando à própria realidade — às responsabilidades, aos silêncios, às urgências que as aguardam. Mas algo fica. Fica na leveza do passo, na memória recente, na sensação discreta de pertencimento.

Porque, no fim, não é sobre quantas estavam presentes.

 

 


 A frase "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" é uma promessa de Jesus registrada em Mateus 18:20

 

 

GRATA PELA VISITA,

CIDÁLIA.