Abril
chegou com aquela pressa mansa de quem não avisa, mas acontece. Mês quatro no
calendário, terceiro encontro do ano entre elas — um pequeno ritual que insiste
em sobreviver às agendas apertadas, apesar de todas estarem aposentadas, aos compromissos que brotam sem pedir
licença, às ausências inevitáveis. Dessa vez, eram cinco. Duas ficaram pelo
caminho, engolidas pela rotina que, às vezes, parece maior do que a própria
vontade de estar junto.
Era domingo, o último do mês. E havia
algo de simbólico nisso, como se o tempo estivesse fechando mais um ciclo
enquanto elas tentavam, à sua maneira, abrir um espaço dentro dele. Esperar por
todas seria bonito, mas improvável. E a vida, elas já aprenderam, raramente se
alinha perfeitamente.
O restaurante já havia sido escolhido
dias antes — um lugar aconchegante, desses que acolhem sem perguntar muito, com
mesas que parecem guardar histórias de outros encontros, outras risadas, outros
silêncios compartilhados. Ao se sentarem, há sempre aquele instante inicial: um
misto de reconhecimento e novidade, como se cada reencontro trouxesse versões
ligeiramente diferentes de quem elas foram da última vez.
O cardápio repousa sobre a mesa, mas não
é ele o protagonista. Ainda assim, cada uma escolhe seu prato com cuidado, como
quem tenta agradar não só o paladar, mas também o momento. Antes mesmo da
comida chegar, duas fotos são tiradas — quase um pacto silencioso de que aquele
instante merece ser lembrado, mesmo sabendo que o mais importante jamais caberá
em uma imagem.
A conversa começa tímida, como quem
tateia o terreno, mas logo se expande. Assuntos cotidianos, histórias simples,
pequenos dramas, alegrias miúdas. Risos surgem soltos, espontâneos, preenchendo
os espaços que a ausência das outras não conseguiu ocupar completamente. O
tempo parece desacelerar ali, entre uma frase e outra.
Então a comida chega.
Há uma pausa natural, quase respeitosa.
Os talheres substituem as palavras por alguns minutos. Cada uma mergulha no
próprio prato, mas não há silêncio — há presença. O tipo de presença que não
precisa ser falada o tempo todo.
Logo, a conversa retorna, mais cheia,
mais íntima. Um assunto puxa o outro, memórias surgem sem aviso, opiniões se
cruzam, confidências aparecem nas entrelinhas. O prato vai ficando vazio, mas o
encontro, paradoxalmente, parece cada vez mais cheio.
E o tempo… ah, o tempo não pede licença.
Quando percebem, o restaurante começa a
dar sinais de despedida. Cadeiras sendo ajustadas, olhares discretos do proprietário, a rotina retomando seu curso. É hora de ir.
Mas ninguém quer que acabe assim, de
forma abrupta. Então, como quem prolonga um abraço, elas caminham até a
sorveteria ali perto. Um último gesto de resistência contra a pressa do mundo.
Entre sabores escolhidos quase sem pensar, há ainda espaço para mais algumas
risadas, mais algumas frases que poderiam ter sido ditas antes, mas que
encontraram seu momento ali.
E então, finalmente, o encontro se
dissolve.
Cada uma segue seu caminho, retornando à
própria realidade — às responsabilidades, aos silêncios, às urgências que as
aguardam. Mas algo fica. Fica na leveza do passo, na memória recente, na
sensação discreta de pertencimento.
Porque, no fim, não é sobre quantas
estavam presentes.
A frase "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" é uma promessa de Jesus registrada em Mateus 18:20.
GRATA PELA VISITA,
CIDÁLIA.