quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Coincidência

 



Ela caminhava ao lado do marido por uma das áreas de um hospital quando, de repente, algo inesperado interrompeu o curso habitual daquele dia. Em meio à movimentação de pessoas, passos apressados e pensamentos que talvez estivessem voltados às preocupações daquele lugar, seus olhos encontraram um rosto conhecido.

Por um instante, o tempo pareceu hesitar.

Vinha em sentido contrário uma mulher que caminhava devagar, acompanhada de uma moça. Havia algo naquele rosto que despertava lembranças guardadas em algum cantinho da memória. E então, como uma fotografia antiga que de repente ganha vida, a recordação se fez nítida, era uma amiga dos tempos do magistério!

Quantos anos haviam passado desde aqueles dias de juventude, quando os sonhos eram tantos e o futuro parecia oferecer infinitas possibilidades? Quantas histórias haviam sido escritas desde então? Quantos caminhos diferentes cada uma havia percorrido?

Sem precisar de muitas palavras, o reconhecimento aconteceu. Os olhos se iluminaram, os sorrisos se abriram e os braços se encontraram em um abraço que parecia querer recuperar, em poucos segundos, quase meio século de distância.

Era mais do que um simples encontro. Era o reencontro de duas histórias que, um dia, haviam caminhado lado a lado.

Ali, naquele ambiente hospitalar, onde tantas vezes os pensamentos se voltam para a fragilidade da vida, o passado veio ao presente para oferecer um instante de alegria, ternura e surpresa.

O tempo, porém, era breve. Havia compromissos, havia caminhos a seguir. Ainda assim, aproveitaram aqueles preciosos minutos para falar de algumas das antigas colegas, relembrar nomes, buscar notícias e, quem sabe, imaginar onde estariam as demais amigas que um dia compartilharam a mesma sala de aula, os mesmos aprendizados e os mesmos sonhos.

E como não registrar aquele momento?

Uma coincidência tão bonita merecia ficar guardada. Afinal, a vida nem sempre nos concede a oportunidade de reencontrar alguém que fez parte de uma fase tão significativa da nossa história. Por isso, uma fotografia se tornou necessária, uma maneira de dizer ao tempo que, apesar de tudo o que passou, certas lembranças continuam vivas.

Quarenta e seis anos haviam se passado desde a formatura do magistério. Quarenta e seis anos de vidas transformadas, famílias constituídas, alegrias celebradas, dificuldades enfrentadas e tantas experiências que cada uma poderia contar.

Durante todo esse tempo, houve apenas um encontro entre os antigos formandos. E, mesmo naquela ocasião, nem todos puderam estar presentes.

Quanta vida cabe em quarenta e seis anos! Quantas histórias ficaram por contar, quantos abraços deixaram de acontecer, quantas saudades permaneceram à espera de uma oportunidade!

Talvez seja justamente isso que torne aquele encontro tão especial. Ele não foi planejado, não aconteceu em uma festa de confraternização nem em uma reunião organizada para celebrar o passado. Aconteceu por acaso, em um corredor de hospital, quando duas mulheres que compartilharam uma parte da juventude se reconheceram em meio à multidão.

A vida tem dessas delicadezas. Quando menos esperamos, ela abre uma pequena janela para o passado e nos permite espiar, por alguns instantes, quem fomos e de onde viemos.

E, naquele abraço, não estavam apenas duas mulheres que se reencontravam depois de tantos anos. Estavam também as jovens que um dia sonharam juntas, as estudantes que se preparavam para ensinar, as amigas que talvez nem imaginassem quanto tempo passaria até que seus caminhos voltassem a se cruzar.

O encontro foi breve, mas há momentos que não precisam de muito tempo para se tornarem inesquecíveis.

Naquele dia, entre os corredores de um hospital, o destino reuniu duas antigas amigas e mostrou que a memória afetiva não conhece distâncias nem calendários. Os anos podem mudar os rostos, embranquecer os cabelos e transformar os caminhos, mas não apagam aquilo que foi vivido com carinho.

E assim, em meio à rotina de um dia qualquer, um abraço devolveu à vida um pedacinho de uma história que nunca deixou de existir.

Porque algumas amizades não precisam estar presentes todos os dias para continuarem fazendo parte de nós. Basta um reencontro, um olhar reconhecido e um abraço sincero para descobrirmos que, apesar dos quarenta e seis anos, há laços que o tempo não desfaz.

Um abraço que atravessou o tempo!

Grata pela visita,

Cidália.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Longevidade

 


Chegar aos noventa e cinco anos é, por si só, uma história. Chegar a essa idade lúcido, independente e ágil é um privilégio que poucos alcançam. E, quando a família conta que ele não tem nenhuma comorbidade, a pergunta parece inevitável: qual será o segredo de tanta longevidade?

Talvez esteja nas coisas simples.

No leite batido com paçoquinha, no bolo e naquele café bem doce que ele aprecia. Talvez esteja no cuidado com suas plantinhas, que ainda fazem parte de seus dias, ou na disciplina silenciosa de suas orações, todas as quartas-feiras, sempre no mesmo horário: 18h30.

Aos noventa e cinco, ele mora sozinho, sob os olhos atentos e carinhosos da família. E conserva também suas pequenas vaidades. Para uma fotografia, gosta de colocar o chapéu e os óculos. É como se dissesse, sem precisar de palavras: “Hoje é dia de guardar mais uma lembrança.”

Mas talvez o que realmente prolongue uma vida seja aquilo que o coração insiste em conservar.

A alegria que ele sente quando recebe a visita dos familiares é bonita de ver. Os olhos se iluminam. Às vezes, a emoção chega antes das palavras, especialmente depois de muito tempo sem vê-los. É como se, naquele instante, a saudade encontrasse finalmente um abraço.

E, quando começa a contar suas histórias, o tempo parece voltar.

As lembranças da infância são suas preferidas. Ele fala de um menino de apenas doze anos que, certo dia, saiu de casa com a barriga vazia em busca de trabalho. Uma criança caminhando pelas ruas, procurando alguém que se compadecesse de sua situação, que lhe oferecesse um pedaço de pão e, quem sabe, uma oportunidade de trabalhar para ajudar a si mesmo e à sua família.

É difícil imaginar tanta responsabilidade sobre os ombros de uma criança.

Mas a vida, às vezes, não pergunta se estamos preparados.

Ele enfrentou uma infância sofrida, conheceu cedo as dificuldades e aprendeu, ainda menino, que era preciso seguir em frente. E seguiu. Com coragem, garra e sabedoria, atravessou os dias difíceis, construiu sua história e chegou até aqui.

Hoje, aos noventa e cinco anos, talvez seu maior segredo não esteja no que come ou no que faz. Talvez esteja na capacidade de continuar encontrando beleza nas pequenas coisas: cuidar de uma planta, fazer uma oração, saborear um café doce, colocar o chapéu para uma fotografia e abrir um sorriso diante da chegada de alguém querido.

Há vidas que parecem livros.

E a dele é um livro escrito com trabalho, fé, resistência, saudade e amor.

Noventa e cinco anos depois daquele menino que caminhava com fome em busca de uma oportunidade, permanece o homem que venceu muitas tempestades e ainda tem histórias para contar.

E talvez seja justamente isso que a longevidade nos ensina: não é apenas viver muitos anos.

É chegar até eles carregando memórias, afetos e motivos para agradecer.

E, enquanto houver uma história para contar, uma planta para cuidar, uma oração para fazer e um familiar para abraçar, ainda haverá vida florescendo.

 Obrigada pela visita,

Cidália.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Olhar de menina

 



Ela nasceu diferente. Não diferente como quem está fora do mundo, mas como quem encontrou uma maneira muito própria de estar nele.

Uma síndrome rara veio acompanhando seus passos pela vida. Ela não fala, mas isso nunca significou que não tivesse o que dizer. Seus olhos observam, atentos, tudo o que acontece ao redor. Ela entende as conversas, percebe as pessoas, reconhece os gestos e, à sua maneira, participa de tudo.

É uma menina curiosa. Gosta de assistir a vídeos e tem um carinho especial pela turma do Cocoricó. Também gosta de nadar, talvez porque, dentro d’água, encontre uma liberdade que dispensa palavras.

E como toda adolescente que se preze, tem suas vontades bem definidas. É teimosa, às vezes. Quando quer uma coisa, sabe deixar isso bastante claro. Afinal, adolescência é adolescência, com ou sem palavras.

Desde pequena, tem uma amiga que permanece ao seu lado. Uma dessas amizades que atravessam os anos e que não precisam de grandes explicações. Ela também tem uma característica bonita: apega-se às pessoas que a tratam bem. Talvez porque reconheça, com uma sensibilidade que nem sempre percebemos, quando existe carinho verdadeiro.

Ao seu redor, há pais dedicados e cuidadosos, que aprenderam a conhecer seus sinais, seus desejos, seus limites e suas conquistas. Há também profissionais que a acompanham diariamente, ajudando-a a realizar atividades e, principalmente, a conquistar sua independência.

Ela gosta de reunir e ter por perto os avós nem que seja numa chamada de vídeo nas horas das refeições.

Mas existe alguém que ocupa um lugar muito especial nessa história, a sua babá.

Ela não é apenas a pessoa que cuida. É aquela que sabe o que a menina gosta, conhece suas manias, entende seus silêncios e reconhece seus pequenos gestos. Sabe quando é hora de ajudar e quando é importante deixá-la tentar sozinha. Trata-a com carinho, mas também com respeito, porque cuidar de alguém é muito mais do que fazer por ela, é acreditar naquilo que ela pode fazer.

Talvez essa menina tenha ensinado a todos ao seu redor uma coisa que a vida, às vezes, insiste em nos fazer esquecer: comunicação não acontece apenas através das palavras.

Há conversas feitas com olhares. Há pedidos feitos com gestos. Há carinho em um sorriso, confiança em uma mão estendida e afeto na presença de quem permanece.

Ela não fala.

Mas observa.

Entende.

Escolhe.                            


Gosta.

Reclama.

Se apega.

Nada.

Assiste aos seus vídeos.

E segue crescendo, cercada por pessoas que aprenderam a enxergar além do silêncio.

No fim, talvez a grande história não seja sobre uma menina que nasceu com uma síndrome rara.

Talvez seja sobre uma menina que, todos os dias, encontra seu jeito de dizer ao mundo: “Eu estou aqui. Eu sinto. Eu entendo. Eu tenho vontades. E também tenho muito a viver.”

E isso, por si só, já é uma história linda.


Obrigada pela visita,

Cidália.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Mães

 



De vez em quando, algumas perguntas sem resposta ficam rondando os pensamentos. Não chegam fazendo barulho. Apenas se acomodam, silenciosas, e insistem em permanecer.

Uma delas me acompanha há algum tempo: por que a mãe atípica é chamada de guerreira?

Mãe é mãe. Antes de qualquer rótulo, existe uma mulher que cuida, que se preocupa, que ama, que se cansa, que muitas vezes chora escondido e, ainda assim, no dia seguinte, levanta-se e segue.

Todas as mães têm muito em comum, principalmente aquelas que trabalham fora. Mas isso não significa que as mães que permanecem em casa não trabalhem. Cuidar de uma casa, administrar uma rotina e acompanhar os filhos também é trabalho e, muitas vezes, um trabalho invisível, sem salário, sem férias e sem hora para terminar.

Há o almoço para preparar, a roupa para lavar, a casa para organizar, as compras no supermercado e na quitanda, o filho para levar à escola e depois buscar. Há consultas, compromissos, tarefas, imprevistos. Há uma lista que parece nunca chegar ao fim.

E então pensamos na mãe de um filho atípico.

Se ela também trabalha fora, sua rotina pode se tornar ainda mais exaustiva. São horários que precisam se encaixar, consultas que precisam ser conciliadas, necessidades específicas que exigem atenção e, muitas vezes, uma preocupação constante com aquilo que o amanhã poderá trazer.

Essa mãe precisa de apoio.

Do companheiro, quando existe. Da família, dos amigos, da escola, da sociedade. Precisa de uma rede que não apenas admire sua força, mas que também esteja disposta a dividir o peso.

E quando ela é uma mãe solo?

Talvez a palavra “desdobrar-se” ainda seja pequena para explicar o que acontece. Ela precisa encontrar braços onde não há braços, tempo onde não há tempo, forças onde, muitas vezes, só existe cansaço.

Por isso, fico pensando: será mesmo necessário chamá-la de guerreira?

A palavra parece bonita, mas carrega um peso. Porque, quando dizemos que uma mãe é guerreira, corremos o risco de romantizar a sobrecarga. Como se ela precisasse ser forte o tempo todo. Como se não pudesse fraquejar. Como se fosse natural enfrentar tudo sozinha.

Talvez não devêssemos esperar que mães sejam guerreiras.

Talvez devêssemos simplesmente reconhecê-las como mulheres.

Mulheres admiráveis, sim. Mulheres que fazem o possível e, muitas vezes, até o impossível. Mulheres que amam, cuidam, trabalham, se cansam, recomeçam e seguem adiante.

Mas mulheres que também precisam de colo, descanso, compreensão e ajuda.

Porque, no fim das contas, mães não deveriam precisar vestir uma armadura para serem reconhecidas. Deveriam poder apenas ser mães, humanas, imperfeitas, cansadas, amorosas e, acima de tudo, acompanhadas.

 

Obrigada pela visita,

Cidália