Ela nasceu diferente. Não diferente
como quem está fora do mundo, mas como quem encontrou uma maneira muito própria
de estar nele.
Uma síndrome rara veio acompanhando
seus passos pela vida. Ela não fala, mas isso nunca significou que
não tivesse o que dizer. Seus olhos observam, atentos, tudo o que acontece ao
redor. Ela entende as conversas, percebe as pessoas, reconhece os gestos e, à
sua maneira, participa de tudo.
É uma menina curiosa. Gosta de
assistir a vídeos e tem um carinho especial pela turma do Cocoricó.
Também gosta de nadar, talvez porque, dentro d’água, encontre uma liberdade
que dispensa palavras.
E como toda adolescente que se preze,
tem suas vontades bem definidas. É teimosa, às vezes. Quando quer uma coisa,
sabe deixar isso bastante claro. Afinal, adolescência é adolescência, com ou
sem palavras.
Desde pequena, tem uma amiga que
permanece ao seu lado. Uma dessas amizades que atravessam os anos e que não
precisam de grandes explicações. Ela também tem uma característica bonita:
apega-se às pessoas que a tratam bem. Talvez porque reconheça, com uma
sensibilidade que nem sempre percebemos, quando existe carinho verdadeiro.
Ao seu redor, há pais dedicados e
cuidadosos, que aprenderam a conhecer seus sinais, seus desejos, seus limites e
suas conquistas. Há também profissionais que a acompanham diariamente,
ajudando-a a realizar atividades e, principalmente, a conquistar sua independência.
Ela gosta de reunir e ter por perto os
avós nem que seja numa chamada de vídeo nas horas das refeições.
Mas existe alguém que ocupa um lugar
muito especial nessa história, a sua babá.
Ela não é apenas a pessoa que cuida. É
aquela que sabe o que a menina gosta, conhece suas manias, entende seus
silêncios e reconhece seus pequenos gestos. Sabe quando é hora de ajudar e
quando é importante deixá-la tentar sozinha. Trata-a com carinho, mas também
com respeito, porque cuidar de alguém é muito mais do que fazer por ela, é
acreditar naquilo que ela pode fazer.
Talvez essa menina tenha ensinado a
todos ao seu redor uma coisa que a vida, às vezes, insiste em nos fazer
esquecer: comunicação não acontece apenas através das palavras.
Há conversas feitas com olhares. Há
pedidos feitos com gestos. Há carinho em um sorriso, confiança em uma mão
estendida e afeto na presença de quem permanece.
Ela não fala.
Mas observa.
Entende.
Escolhe.
Gosta.
Reclama.
Se apega.
Nada.
Assiste aos seus vídeos.
E segue crescendo, cercada por pessoas
que aprenderam a enxergar além do silêncio.
No fim, talvez a grande história não
seja sobre uma menina que nasceu com uma síndrome rara.
Talvez seja sobre uma menina que,
todos os dias, encontra seu jeito de dizer ao mundo: “Eu estou aqui. Eu
sinto. Eu entendo. Eu tenho vontades. E também tenho muito a viver.”
E isso, por si só, já é uma história
linda.
Obrigada pela visita,
Cidália.











