domingo, 12 de novembro de 2017

A Patinha Feia


Shirlei se sentia a menina mais feia do mundo. Não precisava que lhe dissessem o quanto era sem graça. Ela reconhecia a sua feiura. Deixara de se importar com a sua aparência há muito tempo. Tinha coisas mais importantes para ela se preocupar.

Era alta demais, muito magra, desengonçada, tinha os dentes tortos, usava óculos fundo de garrafa e seus cabelos eram horríveis, viviam presos num rabo de cavalo.

Desde a pré escola era chamada por diversos apelidos.

Nenhuma criança queria brincar com ela. Quando ela se aproximava as outras crianças saíam de perto. Ela, então, se encolhia num canto qualquer até ser notada por uma das professoras.

E essas cenas se sucederam quando ela foi para o ensino regular.

Os trabalhos em grupo eram a pior parte. Ninguém a queria em seu grupo.

Os apelidos foram se tornando mais ferinos.

 ⁃ Sua girafa piolhenta!

 ⁃ Perna de pau, quatro olhos, cabelo pixaim e outros que ela nem gosta de lembrar.

Suas roupas eram surradas, sua família vivia com o dinheiro contado e com a ajuda da Assistência Social. Shirlei tinha que cuidar dos irmãos mais novos, enquanto sua mãe dormia para se recuperar do trabalho noturno.

Ela não gostava quando lhe perguntavam sobre o trabalho da mãe, nem quando era cobrada pela ausência da progenitora nas reuniões de pais e mestres.

Jamais conhecera seu pai e cada irmão tinha um pai diferente. Sua mãe não vivia muito tempo com o mesmo marido. Shirlei preferia se manter alheia à rotina de vida dela.

Comida não faltava para ela e os irmãos. A casa onde moravam era simples e pequena. O aluguel era barato, dizia a mãe. 

Os irmãos menores, dois meninos e uma menina eram responsabilidade de Shirlei.

Era ela quem levava os irmãos menores para a creche e para a escola. Cuidava deles com carinho. 

Limpava a casa, lavava a roupa e cozinhava desde os doze anos de idade.

Chegava sempre atrasada na sala de aula. Alguns professores eram compreensíveis, outros não. Shirlei ficava sem jeito, pedia desculpa pelo atraso e explicava o motivo.

Os colegas riam dela. Sentia os olhares enviesados sobre si e ouvia os cochichos quando passava por eles.

Com o tempo ela criou uma espécie de couraça e deixou de se importar com os apelidos e comentários maldosos que ouvia.

Fazia os trabalhos escolares sozinha até o dia em que chegou na sala de aula uma nova aluna.

Essa menina sentou-se ao seu lado. Foi simpatia à primeira vista.  De ambas as partes. Dali em diante, as duas se tornaram amigas inseparáveis. Faziam os trabalhos escolares juntas.

Shirlei era aluna estudiosa e aplicada. Valorizava seu material escolar que era comprado com sacrifício com o pouco dinheiro que a família tinha.

Na formatura do nono ano, Shirlei preferiu não participar. Sabia que a mãe não poderia arcar com as despesas.

Liana, sua amiga, também não participou. Estava de mudança para uma outra cidade.

No ensino médio, Shirlei, ainda se sentia a patinha feia da turma. A Shirlei com i no final do nome, erro do escrivão, segundo a mãe.

Porém, a sua inteligência causava inveja aos outros alunos. A sua inteligência a enaltecia perante à turma.

Edu, o carinha mais bonito da classe, o mais cobiçado pela maioria das meninas, começou a prestar atenção na Shirlei.

Ele reparou que ela parecia sem graça, sem gosto para se vestir, mas muito inteligente. As melhores notas eram as dela. Em todas as disciplinas. Em todos os trabalhos apresentados.

Quando ela precisava expor algum trabalho, agia com naturalidade. Não demonstrava nervosismo. 

Shirlei tinha um sonho e pretendia realizá-lo. Queria ajudar sua mãe e seus irmãos no futuro. Para isso, precisava estudar muito. Sabia que precisava ganhar uma bolsa para fazer a faculdade.

Tudo o que ela mais queria era seguir por um caminho diferente da mãe, não desejava para a si aquela profissão.

Há tempos atrás quando estava no sexto ano, ouviu algumas meninas comentarem no banheiro da escola sobre o trabalho da sua mãe e ficou envergonhada.

Os olhares do Edu foram notados pela Shirlei. Ela percebeu, também, que as outras alunas estavam  enciumadas. 

Numa certa manhã, ao chegar na escola, Shirlei foi abordada pelo Edu no portão de entrada.

- Olá, estou com dificuldade na aula de matemática, você pode me ajudar? - o rapaz foi direto ao assunto.

- Oi, você quer a minha ajuda? Tem certeza? - Shirlei ficou admirada com aquele pedido.

- Se você puder me ajudar, eu pago por umas aulas particulares. Podemos marcar na sua casa, se você preferir.

- Não tenho tempo livre, ajudo a cuidar dos meus irmãos e da casa enquanto minha mãe trabalha. Apesar de notar a expressão no rosto do rapaz, preferiu continuar mentindo. Como ia falar para ele que a mãe dormia durante o dia para trabalhar a noite?

- E se eu me sentar ao seu lado nas aulas livres? 

- Se você quiser, tudo bem.

- Combinado.

A partir daquele dia, Edu passou a se sentar ao lado da Shirlei nas aulas livres, sem se incomodar com os falatórios. Suas notas melhoraram consideravelmente. 

Os dois se tornaram bons amigos. Apenas na escola. Um não frequentava a casa do outro. Não por falta de convite por parte do Edu. Shirlei não tinha tempo livre e nem coragem para retribuir o convite.

Quando o dia terminava ela estava cansada e dormia cedo. Às vezes não conseguia nem ler um dos livros que pegava emprestado na biblioteca da escola.

Sua mãe saía no final da tarde e só voltava de madrugada ou na metade da manhã. Quando acordava, tomava banho, comia alguma coisa e passava um tempo em frente ao espelho se arrumando. Ela dizia para os filhos que era gerente num bar.

Shirlei seguia sua vida cuidando dos irmãos, estudando muito e mantendo sua amizade com Edu na escola.

Edu não ligava para a falta de beleza exterior da Shirlei. Ela tinha qualidades que a tornavam uma moça linda.

Cada vez que ele a encontrava, no portão de entrada da escola, imaginava que chegaria o dia em que ela o olharia com outros olhos.

Não deixe de ler o desfecho deste conto na próxima semana!

Grata pela visita,

Cidália.











domingo, 5 de novembro de 2017

Fora de cena




Ela se recolheu à sua inércia. Cansou de lutar pelos seus direitos. Os fios de cabelos brancos agora tomaram conta da sua cabeleira. Já não sente mais saudades dos cabelos pintados e escovados.

Suas unhas, antes sempre pintadas, são apenas cortadas quando estão muito compridas. A vaidade se distanciou de tal maneira que ela não se importa mais.

Ela já foi linda de bonita, como diz a personagem de uma novela. Hoje é somente uma sombra da mulher que foi um dia. 

Veste a roupa que lhe dão, come a comida que lhe servem. 

O dia passa sem nenhuma novidade. A rotina é a mesma dos últimos anos. As rugas aumentam a olhos vistos. A pele flácida não a incomoda mais.

Ela perdeu a vontade de viver. Perdeu a alegria que a contagiava. Não reclama. Entregou os pontos, como no ditado popular.

A cortina se fechou. Ela nem lembra da última cena em que representou uma mulher feliz. Qual foi a última vez em que teve a família reunida? Foi há muito tempo! A imagem está se apagando da sua memória.

Seu palco agora é a sala onde passa o dia deitada no sofá vendo TV.

Quem se importa com a vida que ela está levando? Muitos dirão que ela é responsável pela escolha que fez. 

Será que se ela quisesse poderia mudar aquela situação? Se ela decidisse se impor, teria novamente as rédeas em suas mãos?

Por onde anda aquela mulher decidida, dona de si, inteligente e batalhadora? Será que ela não gostaria de voltar àqueles tempos? Por onde andarão os diplomas que conquistou ao longo da vida?

Ah, se ela tivesse disposição para ir ao salão de beleza e dar uma repaginada na sua vida! Sua auto estima, certamente, agradeceria!

Ela poderia fazer uma viagem para conhecer novas pessoas e novos lugares. Talvez conhecesse alguém interessante, que se preocupasse com ela. Mesmo que isso não acontecesse, só o fato de querer passear, comprar algo que a agradasse, seria o suficiente para tirá-la daquela monotonia em que estava confinada.

Aos olhos de muitos ela estava vivendo em cárcere privado. Na sua opinião, talvez tivesse se acostumado à comodidade. Do jeito que estava vivendo ela não precisava se preocupar com as contas, com os assaltos ou com qualquer coisa que fosse.

Nem mesmo a situação do país lhe interessava mais. Para ela tanto fazia a água correr para cima ou para baixo. (mais um ditado popular)

Qual o cardápio do dia? O que fazer primeiro, lavar a louça ou a roupa? Essas pequenas preocupações do dia a dia já não faziam parte da sua rotina.  Lavar, passar ou cozinhar eram verbos que deixaram de ser conjugados há muito tempo. Assim como outros verbos, comuns no cotidiano das mulheres.

Quanto ao espelho que um dia foi um item que não podia faltar na bolsa ou no banheiro, hoje nem lembra da sua utilidade.

O que ele vai lhe mostrar? A pessoa que se tornou, uma flor murcha que perdeu a sua vivacidade e a sua beleza. Um zero a esquerda que não tem mais voz ativa. Alguém que se deixou dominar, que perdeu sua autonomia e a vontade de reagir.

O espelho não faz parte desta nova etapa da sua vida. Assim como o sol ou a alegria. Neste seu novo universo ela busca refúgio no aconchego do seu quarto ou no sofá da sala.

E assim os dias vão passando numa lentidão que a assusta. E lá deitada no sofá assistindo os mesmos programas de sempre, o dia se torna noite.

Ela não se queixa, não reclama. De que adiantaria? Sabe que ninguém a ouve!


Um abraço!
Cidália.

PS: Obrigada pela visita!!










quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O AMOR (reflexão)


Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som do gongo ou como o barulho de um sino.
Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter fé, a ponto de tirar as montanhas do seu lugar, mas, se não tivesse amor, eu não seria nada.
Poderia ter tudo o que tenho e até mesmo entregar o meu corpo para ser queimado, mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada.
Quem ama é muito paciente e bondoso.
Quem ama não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso.
Quem ama não é grosseiro, nem egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas.
Quem ama não fica alegre quando alguém faz alguma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo.
Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.
O amor é eterno.
Existem mensagens espirituais, mas durarão pouco.
Existe o dom de falar em línguas estranhas, mas acabará logo.
Existe o conhecimento, mas terminará também.
Pois, os nossos dons de conhecimento e as nossas mensagens espirituais são imperfeitos.
Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança e pensava como criança.
Agora que sou adulto, parei de agir como criança.
O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado.
Mas, depois veremos face a face.
Tudo o quanto sei agora é obscuro e confuso.
Mas, depois verei tudo com clareza.
Tão claramente como Deus está vendo agora mesmo o interior do meu coração.
Agora, portanto, permanecem três coisas:
A fé, a esperança e o amor.
Porém, a maior delas é o amor.
(Coríntios 13)

Num dia de faxina, numa caixa entre muitos guardados, encontrei esse poema que recebi em junho de 2006, de um amigo que não se encontra mais entre nós.

É uma bela reflexão sobre o amor, esse sentimento tão sublime, que ultimamente se encontra desaparecido entre muitas pessoas.

O que está acontecendo com o ser humano?

Se ligamos a TV o que vemos nos assusta de tal maneira que daqui a pouco teremos medo de sair de casa. Se bem, que segundo uma amiga, temos medo de que nos aconteça algo na rua, mas corremos riscos, também, dentro de casa. 

Estamos à mercê da própria sorte?

Então, pensamos: seja o que Deus quiser!

Que Deus nos proteja!

Obrigada pela visita ❤
💋💋💋
Cidália

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Aniversário do Blog



O blog completa o segundo ano e mais uma vez peço desculpas por não realizar nenhum sorteio para comemorarmos a data.

Não me faltou vontade, caríssimos leitores, mas sim iniciativa. Pensei: como fazer o sorteio? O que posso sortear?

Vejo tantos blogueiros realizando sorteios. Participei de muitos e até fui contemplada num deles. Cheguei a pensar em pedir sugestões a alguns blogueiros e depois desisti por não querer incomodá-los. 

Saibam que tive a intenção de realizar um sorteio.

Durante esses dois anos interagi com tantos blogueiros que perdi a conta. Nessas interações alcancei o número de 1191 curtidas na fan page e 681 seguidores no blog. De vez em quando interajo com o Instagram, o Twitter e o Google +.

Por aconselhamento de alguns blogueiros comecei a escrever no Wattpad, porém não com muita frequência.

Participo de vários grupos no Facebook e fui convidada para ser mediadora num deles. No começo fiquei preocupada com a minha função, mas o administrador me deu o suporte necessário.

Nesses dois anos recebi muitos comentários sinceros e motivadores. Sou agradecida por todo o apoio.

Tenho uma fã que me acompanha desde o início, que me incentiva e elogia tudo o que escrevo. Ela é a minha irmã. Já me inspirei nela para escrever alguns contos. Ela é uma bisa que vive conectada e que adora ler. Eu comecei a gostar de ler fotonovelas por causa dela. Um dia, meu pai me pegou com uma revista na mão, a pegou e rasgou. Ele não gostava que eu as lesse. 

Outro dia, uma parente, esposa de um primo, me disse que lê tudo o que eu escrevo e que gosta muito. Fiquei muito feliz!

Espero que as ideias continuem aflorando à minha mente para que eu mantenha o blog por muitos anos.

Encontrei um passatempo viciante. Um passatempo que me leva a interagir com muitas pessoas. Sigo muitos blogs bacanas, de pessoas que são ótimos profissionais. 

"Conheci" alguns escritores, autores incríveis que divulgam seu trabalho através dos blogs.

Sim, manter um blog parece fácil. Só parece! Responsabilidade, compromisso e dedicação não podem faltar.

A cada um de vocês, que já leu um ou mais, dos meus contos, meu carinho especial!

Um abraço e o desejo de uma semana abençoada a todos!

Aos blogueiros e escritores desejo muito sucesso!

Cidália.





domingo, 8 de outubro de 2017

O Valor de Um Olhar



Sabemos que há várias formas de nos comunicar e que um olhar diz mais do que mil palavras. Já ouvi dizer que quando uma pessoa desvia o olhar, ela não é confiável. Olho no olho! Alguns compositores fizeram músicas se referindo ao olhar.

Mas, qual o sentido deste texto, pode perguntar o leitor?

Como na semana que vem comemora-se o dia da criança pensei em escrever algo sobre a minha neta.

Há quatro anos nasceu uma bela menina, pequenina, de olhos pretos. Cabelos? Eram alguns fios ralinhos. Muito esperada e amada pelos pais e avós. Primeira neta de ambos os lados.

Conforme o tempo foi passando notava-se que o desenvolvimento era lento. Sabemos que cada criança tem o seu tempo.  Não se deve comparar as crianças. O ritmo de uma criança é diferente da outra.

Então, o jeito era esperar que ela começasse a engatinhar, sentar, andar e falar. A espera estava se tornando preocupante.

“A nossa caminhada com a Maitê começou antes de ela ter um ano de idade, quando os sinais de atraso de desenvolvimento começaram a aparecer. Desde então ela faz fisioterapia, fonoaudióloga, natação e logo a colocamos na escola. Com  um ano ela não sentava sozinha, o ritmo dela é mais lento, mas ela sempre mostrou respostas positivas aos estímulos. (Trecho do depoimento da mãe escrito no blog, A Jornada da Passarinha).”

No mês em que a Maitê ia completar três anos foi realizado um exame para saber qual era a síndrome que ela tinha. Algumas suposições haviam sido descartadas. Ao tomar conhecimento do diagnóstico, através do meu filho, fiquei desnorteada.

Sem saber o que falar para minha nora, enviei a ela uma mensagem que falava sobre crianças especiais que encontrei no Facebook.

Quando eu ouviria a voz da minha neta me chamando de vovó? Isso não importava, eu só pensava nas nossas trocas de olhares que diziam tudo.

“Quanto amor cabe na troca de um olhar?”

A cada dia, mesmo distante, eu acompanho seus passos, ou melhor seu voo, através de fotos, vídeos e facetime (finais de semana). A cada dia me sinto mais apaixonada por esta linda loirinha.

Como é grande o meu amor por você
Letras
Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você
E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você
Nem mesmo o céu nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Nada é maior que o meu amor
Nem mais bonito
Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você
Nunca se esqueça, nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você
Mas como é grande o meu amor por você
Compositores: Roberto Carlos
Letra de Como é grande o meu amor por você © EMI Music Publishing

Portadora de uma síndrome rara, a minha neta já teve um grande avanço. Ela é uma menina inteligente, esperta, gosta de música, dança e de livros, entre outras coisas. Gosta de brincar com os avós e outras crianças.





Quando estamos juntas brincamos bastante e na hora dela dormir me deito ao seu lado e nos abraçamos até ela pegar no sono.

 “Eu não mudaria você para o mundo… Mas mudaria o mundo para você.” (depoimento da mãe retirado do blog, A Jornada da Passarinha)

Para àqueles que quiserem saber mais sobre a Síndrome de keefstra segue o link:

http://ajornadadapassarinha.com/


Grata pela visita!

Cidália





sábado, 30 de setembro de 2017

Vida às avessas (parte final)



Ao receber a carta do filho,  dona Josefa chorou muito. Porém, não foi um choro de tristeza, foi um choro de agradecimento. Não pelo dinheiro que ele estava devolvendo. Claro que o dinheiro seria útil na sua velhice, para os medicamentos e para seu conforto.

Porém, o agradecimento era pelo fato do filho reconhecer seus erros e pedir perdão. Pena que ele precisou perder a esposa e parte de uma perna para perceber que a ganância, o egoísmo e o orgulho eram sentimentos destrutivos.

Ariana, prestes a se casar com o amor da sua vida, voltou a estudar. Queria ser professora efetiva e não somente uma substituta. Ela queria voltar para a escola que deu abrigo à sua família, como educadora. Queria dar mais atenção às crianças, se dedicar à carreira com amor.

Geraldo se tornou um ótimo comerciante. Transformou o bar num armazém de secos e molhados. Comprou uma bela casa perto do tio. Uma casa espaçosa, pois ele e Ariana pretendiam ter uns quatro filhos.

Num almoço de domingo onde Sueli convidou toda a família, os irmãos Jaime e Jurandir, juntamente com José Carlos, resolveram buscar o tio Jesuíno para que ele ficasse um tempo com a mãe.

O motivo que os levou a tomar tal decisão foi o que o tio escreveu no final da carta endereçada à mãe.

“Agora estou bem. Quase não vejo minhas filhas e meus genros, mas tenho a dona Pérola que cuida bem de mim. Pena que ela não gosta de conversar, então converso comigo mesmo. Sou um bom ouvinte. Com a ajuda das muletas posso caminhar pelo quintal. Cheguei à conclusão de que estou sentindo o mesmo que a senhora e Ariana sentiram na minha casa. Mereço passar por isso.”

E lá foram os três homens buscar o Jesuíno para que ele ficasse na casa da irmã e pudesse se reconciliar com toda a família. Afinal, todo mundo merece uma segunda chance.

Em breve Elizandra e Noel teriam um bebê. Estavam morando numa casa alugada e juntando dinheiro para comprar um lote e construir uma moradia. Noel era um rapaz trabalhador e Elizandra tinha uma boa clientela; era uma ótima costureira.

Jesuíno recebeu os irmãos e o sobrinho com alegria. O motivo da felicidade foi ver que os irmãos não guardaram ressentimento pelo que ele fez com a mãe. Aceitou o convite sem pensar duas vezes e dispensou a dona Pérola.

José Carlos não segurou a língua quando viu o quarto nos fundos onde o tio vivia.

- Tio, nesta casa tão grande, não tinha um quarto melhor para o senhor ficar?

- Não me incomodo com essas coisas, meu filho. Pra mim este quarto é suficiente.

- Meu quarto também é pequeno, o senhor vai ficar lá e ver que é muito mais confortável que este.

- Não deixe sua prima ouvir isso, ela vai ficar ofendida. Pelo menos ela me trouxe pra cá, a irmã disse que não me queria na casa dela.

- Nossa, tio! Não se preocupe, o senhor será bem vindo na casa da mamãe. A vovó está muito feliz.

Depois dessa conversa os homens resolveram dormir no hotel e viajar na manhã seguinte de volta para casa. Passariam cedo para pegar o Jesuíno.

Quando os quatro chegaram na casa da Sueli, toda a família estava reunida esperando por eles. A mesa foi colocada no quintal para o almoço. Noel e Geraldo foram responsáveis pelo churrasco.

Jesuíno foi recebido com alegria e chorou ao abraçar a mãe e pedir perdão mais uma vez, agora pessoalmente. Dona Josefa o apertou em seus braços e ele se sustentou sobre a única perna para não cair.

Ao abraçar Ariana, o tio que lhe causou sofrimento, foi gentil e amoroso. Aquele homem que estava ali, naquele momento, parecia muito diferente do Jesuíno de outrora. A moça apresentou seu noivo a ele que o tratou cordialmente.

Dali em diante o passado seria enterrado. A família seguiria a sua rotina com mais um integrante. Geraldo convidou-o para trabalhar com ele no armazém. Precisava contratar um funcionário e Jesuíno era a pessoa perfeita. Poderia ser o caixa, assim trabalharia sentado.

O casamento da Ariana aconteceu no civil e no religioso. Ela foi a noiva mais feliz dos últimos tempos. A festa foi presente da avó Josefa. A lua de mel do casal seria no Caribe. Presente dos pais do Geraldo. Uma viagem  inesquecível para os pombinhos.

As gêmeas, filhas do Jesuíno, foram convidadas e ao verem o pai acharam que ele estava muito bem ali. Não o chamaram para voltar com elas. Não queriam ter trabalho com ele. 

A família desfrutou de mais uma data memorável e ainda teriam outras datas para comemorar. O nascimento do filho da Elizandra, a formatura do José Carlos que, depois do curso técnico, quis fazer direito e a formatura da Ariana.

Sueli e dona Josefa continuaram ajudando Elizandra com a costura. Antes do neto nascer, Sueli levou a mãe para ficar uma semana numa cidade praiana. As duas queriam se divertir um pouco.

Dona Josefa tinha esperança de que a filha conhecesse alguém que a fizesse feliz. Mal sabia ela que Sueli havia prometido a si, depois de perder o marido, que  não dividiria a sua vida com mais ninguém.

Jesuíno se tornou o braço direito do Geraldo no armazém. O trabalho lhe deu ânimo para viver e assim ele podia colaborar com a despesa da casa. Seu plano para o futuro era chamar a dona Pérola para morar com ele. Estava pensando em alugar uma casa perto da irmã.

Quem sabe a dona Pérola aceitaria uma proposta de casamento? Durante o tempo que ela cuidou dele, Jesuíno notou a sua beleza interior. Descobriu, por acaso, que ela era viúva e morava sozinha.

O amor venceu todas as barreiras enfrentadas pela família da Ariana e curou todas as feridas.


FIM

A você que acompanhou esta história ou apenas leu alguns trechos, meu agradecimento especial!

Ao meu sobrinho desenhista, Marcos Wagner, que colaborou comigo com as ilustrações meu eterno carinho!

Beijos,
Cidália.



Se você sentir curiosidade de ler os capítulos anteriores, basta acessar este link:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ret…








domingo, 24 de setembro de 2017

Vida às avessas (retrospectiva)


Peço desculpas aos leitores que estão acompanhando a história desta família, mas deixarei o capítulo final para o próximo sábado (dia 30). Não postarei no domingo como sempre, porque quero encerrá-la este mês. 

O motivo da decisão foi dar, àqueles que leram esporadicamente um ou outro trecho, uma oportunidade para que conheçam a história, se quiserem, é claro!

Os comentários são importantíssimos para mim, que gosto muito de escrever. Por isso, conto com a opinião daqueles que gostam de ler e interagir.

Tenho a sorte de poder contar com a ajuda de meu sobrinho desenhista que está sempre pronto para atender meus pedidos.

Mais uma vez quero agradecer a todos que deixaram comentários motivadores e elogios a mim e ao meu sobrinho. Uma palavra de incentivo ajuda a melhorar a auto estima de qualquer pessoa.

Abaixo, vou deixar os links na sequencia aos interessados.


http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-ll.…

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http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas-xv-…


Uma semana abençoada a todos,

Cidália