domingo, 18 de fevereiro de 2018

Arrependimento



Como muitos jovens nunca fui de ouvir os conselhos dos meus pais ou dos meus irmãos mais velhos. Filho caçula, mimado e muito amado pela família, eu sempre tive tudo ao meu alcance. A diferença entre eu e meu irmão do meio, Zequinha, era de dez anos. Nossa irmã, Isabel, a primogênita estava noiva quando nasci. Antes do Zequinha nascer, minha mãe tinha perdido dois bebês. A diferença entre os dois, Isabel e Zequinha era de nove anos.

Por mais que fizessem por mim, nada me satisfazia. Ser paparicado pelos irmãos só piorava meu ego. Eu não gostava de ser tratado como neném.

Aquela vida rotineira cheia de regras não me agradava. Eu detestava ser o melhor aluno, o filho exemplar. A insatisfação era a minha companheira constante. 

- Onde você vai?

- A que horas você pretende voltar?

- Com quem você vai?

- Vê se não demora meu filho!

- Se quiser esperar eu te levo.

- Acho melhor você ficar em casa.

- Por que seus amigos não vêm aqui?

Consegui ser um ótimo filho durante a infância, agradando sempre meus pais, devido às encheções. Minha paciência tinha limites e depois dos meus ouvidos ficarem cansados, eu acabava desistindo  de sair de casa.

Porém, na adolescência meu comportamento começou a mudar. Ou, melhor, a revolta que estava instalada no meu âmago, começou a aflorar.

Volta e meia eu estava de saco cheio, irritadiço e respondia meus pais, meus professores. Não aceitava conselho de ninguém.

- Pô, mãe, por que não posso sair sozinho? Cansei de ser motivo de chacota, de ser chamado de filhinho da mamãe.

Se um dos meus irmãos mais velhos chamava a minha atenção eu respondia à altura.

- Cuide da sua vida, você não é meu pai.

- O papai está trabalhando e quando souber que você está respondendo a mamãe vai te deixar de castigo por um bom tempo.

- A mamãe não é dedo duro, ele só vai ficar sabendo se você e a Isabel forem fofocar.

- A Isabel tem os filhos dela para cuidar, não tem tempo para ficar se preocupando com você, moleque.

Quando um professor olhava feio para mim eu logo questionava.

- O que foi que eu fiz desta vez?

Comecei a me enturmar com uns alunos da pá virada como eram chamados pelos educadores. A partir daí, aprendi a fumar. O dinheiro que eu levava para comprar lanche era usado para comprar cigarros. 

Quando tinha aula vaga pulávamos o muro no fundo da escola para matar o restante das aulas. Ouvir o blá blá de certos professores não era interessante para nós. 

Nessas saídas, começamos a aprontar. Pequenos furtos eram cometidos pela minha turma. No início, coisas sem importância, só pelo fato de zoação mesmo.

Mais tarde, quando meus pais deixaram de me dar o dinheiro para o lanche porque descobriram (numa reunião de pais) que eu estava matando aula e quiseram me castigar, os furtos foram se tornando maiores.

Eu e meus novos amigos precisávamos de dinheiro para comprar o cigarro e logo em seguida, a droga. Quanto maior a dependência, maior o furto.

Éramos espertos e sempre conseguíamos nos safar. Não deixávamos rastros.

E por muito tempo tudo correu bem. Haviam desconfianças, mas nenhuma prova.

Afinal, existiam outros menores infratores na cidade.

Em casa a minha rebeldia foi aumentando, mas mesmo assim minha mãe me defendia. Ela achava que minhas atitudes eram infantis e logo eu mudaria.

- Será que não é melhor colocar esse menino na escola particular? - Meu pai perguntou, um dia, para minha mãe.

- Isso é só uma fase, logo vai passar. – Ela dizia para meu pai e meus irmãos.

Arrumei uma namorada para disfarçar. Sem saber ela ajudava a encobrir minhas escapadas.

Era uma moça bonita, estudiosa e muito simpática. Conquistou a minha mãe logo de cara. Foi muito fácil mentir tanto para uma como para outra.

- Mãe, vou levar a minha gata para dar um passeio.

- Amor, essa noite não vou poder te encontrar porque preciso estudar para a prova de amanhã.

As duas eram ingênuas e acreditavam em mim. Eu saía e aprontava com meus “amigos”. No dia seguinte, ouvia os comentários sobre determinado furto e fingia surpresa em casa e na escola. 

Para mantermos a aparência combinei com a turma de nos separarmos na escola.  Na sala de aula, sentamos bem distantes uns dos outros. Mal nos cumprimentávamos e nos trabalhos em grupos mantínhamos distância. Nossa performance era tão boa que os educadores acreditaram. Até fingi ser um bom aluno, atencioso e participativo.

- Estou gostando de ver que você criou juízo meu filho. A namorada fez bem a você.

- Hoje nós vamos ao cinema e depois vamos comer uma pizza.

- Pode trazê-la aqui em casa quando quiser, você só a trouxe umas duas vezes aqui, nem tivemos tempo de conversar sozinhas.

Ah, se a pobre mulher imaginasse o que se passava pela cabeça do filho!

Tudo o que ele não queria era que sua mãe ficasse a sós com sua namorada. Ele a conhecia muito bem e sabia que ela encheria a moça de perguntas. Nada poderia colocar em risco suas atividades noturnas.


Continua...


PS: ilustração feita pelo meu sobrinho Marcos Wagner.


Grata pela visita e comentário!


Cidália.















domingo, 11 de fevereiro de 2018

Saudosismo

                                                         

Ouvindo os clássicos do carnaval numa rádio da SKY, bateu uma enorme saudade da época em que as marchinhas faziam a alegria daqueles que gostavam da folia. Uma folia onde as pessoas improvisavam suas fantasias e se divertiam até de madrugada.

Uma época em que não havia preocupação com assaltos e roubos. Claro que rolavam “coisas” entre alguns foliões, mas discretamente. Certamente a droga e a bebida estavam presentes em algumas rodinhas, como sempre, em qualquer balada.

Porém, à turminha animada só interessavam as músicas e as paqueras. Bons tempos ao som de “Olha a cabeleireira do Zezé”; “Mamãe eu quero, mamãe eu quero”; “Estrela Dalva no céu desponta”; “Bandeira branca amor eu peço paz”; etc.

Um pedaço de pano e um saco de linhagem viravam belas fantasias. Na falta do dinheiro a criatividade era colocada em prática.

Até mesmo quem não sabia dançar, quando pisava no salão pulava carnaval acompanhando o ritmo da música.

Quatro noites de folia, quatro noites de muita alegria. 

Tem pessoas que dizem que o que passou, passou. Que temos que viver o presente. Sim, mas o que seria de nós se não tivéssemos as lembranças? Afinal, recordar é viver! Ainda mais quando os momentos foram bons e marcantes.

Nada contra a evolução, há muito samba enredo bom! Quem não gosta de samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé. Mais um trecho de música que veio à minha mente.

Muitas pessoas preferem aproveitar o feriado para curtir uma praia ou ficar em casa para descansar da correria diária.

Se você não conhece as marchinhas carnavalescas deixarei algumas letras para que conheça.

                                                                  ALLAH-LÁ-Ô (Haroldo Lobo-Nássara, 1940)

Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara


Viemos do Egito

E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah! allah! allah, meu bom allah!
Mande água pra ioiô
Mande água pra iaiá

Allah! meu bom allah  


AURORA (Mário Lago - Roberto Roberti - 1940)

Se você fosse sincera 
Ô ô ô ô Aurora
Veja só que bom que era 
Ô ô ô ô Aurora


Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô Aurora


ABRE ALAS (Chiquinha Gonzaga, 1899)


Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar



Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Rosa de ouro é que vai ganhar


 Ô BALANCÊ (Braguinha-Alberto Ribeiro, 1936)


Ô balancê balancê
Quero dançar com você
Entra na roda morena pra ver
Ô balancê balancê



Quando por mim você passa
Fingindo que não me vê
Meu coração quase se despedaça
No balancê balancê



Você foi minha cartilha
Você foi meu ABC
E por isso eu sou a maior maravilha
No balancê balancê



Eu levo a vida pensando
Pensando só em você
E o tempo passa e eu vou me acabando
No balancê balancê


MAMÃE EU QUERO (Jararaca-Vicente Paiva, 1936)


Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebe não chorar



Dorme filhinho do meu coração
Pega a mamadeira e vem entrá pro meu cordão
Eu tenho uma irmã que se chama Ana
De piscar o olho já ficou sem a pestana



Olho as pequenas mas daquele jeito
Tenho muita pena não ser criança de peito
Eu tenho uma irmã que é fenomenal
Ela é da bossa e o marido é um boçal


PS: letras copiadas do site https://www.suapesquisa.com/carnaval/marchinhas_carnaval.htm

Sinta-se à vontade para dar a sua opinião sobre o assunto.

Abraços, 

Cidália.






domingo, 28 de janeiro de 2018

Vulgo Grace




Inspirado num caso real, Vulgo Grace conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, na Toronto do século XIX. Com uma narrativa repleta de sutilezas que revelam um pouco da personalidade e do passado da personagem, estimulando o leitor a formar sua própria opinião sobre ela, Atwood guarda as respostas definitivas para o fim. Afinal, o que teria levado Grace Marks a cometer o crime? Ou será que ela estaria sendo vitima de uma injustiça?

Em 1843, Grace Marks, uma empregada doméstica de 16 anos, foi julgada no Canadá pelo assassinato de Thomas Kinnear, seu patrão, e Nancy Montgomery, governanta da casa e amante de Thomas. O julgamento sensacionalista chegou às manchetes de todo o mundo, e o júri a declarou culpada. A opinião pública, no entanto, permaneceu ferozmente dividida em relação a Grace: ela era uma mulher desprezada que descontou sua ira em duas vítimas inocentes, ou era também uma vítima, envolvida involuntariamente em um crime?
Alegando não ter nenhuma memória do que aconteceu, Grace passou seus anos seguintes em uma variedade de prisões e asilos, onde era exposta como uma atração bizarra. Apesar da pouca escolaridade, seus relatos redigidos pelo próprio punho e seu comportamento nas instituições que a abrigaram impressionaram personalidades respeitáveis, como clérigos, médicos e políticos, que trabalharam incansavelmente a seu favor, elaborando petições para sua libertação, procurando opinião clínica para dar suporte ao caso.
Em seu esforço para descobrir a verdade, o dr. Simon Jordan, um jovem médico estudioso de doenças mentais, faz visitas constantes à jovem prisioneira e, em um misto de simpatia e incredulidade, utiliza as ferramentas então rudimentares da psicologia para chegar cada vez mais perto do que realmente aconteceu.


"Às vezes eu sussurro a palavra para mim mesma: Assassina. Assassina. Assassina. Ela produz um som farfalhante, como uma saia de tafetá pelo assoalho." (Grace Marks)

Grace Marks: Mulher insana, femme fatale ou vítima das circunstâncias? Em torno da história real de uma das mulheres mais enigmáticas do século XIX, Margaret Atwood cria um extraordinário conto de crueldade, sexualidade e mistério.

"Brilhante. Tão íntimo que parece escrito sobre a pele." - Hilary Mantel

"Um romance sombrio e fascinante." - Time

"Vilã ou vítima, Grace é uma companhia intrigante." - People


Não sou resenhista, porém senti vontade de escrever alguma coisa sobre essa magnífica obra que ganhei de presente da minha neta no meu aniversário.
Eu já havia visto a capa da série na Netflix e lido uma resenha sobre o livro. Adicionei a série na minha lista para assistir este mês.
Quando ganhei o livro e vi a capa fiquei muito feliz. Resolvi, então, ler antes de ver a série. Só tive tempo de iniciar a leitura na sexta-feira, dia 20 e terminei dia 24 de manhã. Todas as horas livres nesses dias passei acompanhando a narrativa. Se eu não tivesse o serviço da casa para fazer teria lido as quinhentas e poucas páginas em menos tempo.
Uma leitura composta de passagens tristes e comoventes.
Foi através dessa trama impressionante que conheci a escrita da autora e parei para refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que viveram no século XIX.

Bom, o próximo passo será assistir a série para fazer a comparação. Espero gostar tanto quanto o livro.

Se você já leu o livro deixe a sua opinião e se não leu ainda, anote a dica, pois valerá a pena!

Obrigada pela visita!

Cidália.




domingo, 21 de janeiro de 2018

Desconectados


Um dia como outro qualquer, mas, com uma pequena diferença. O sinal dos celulares estava mudo e a internet não conectou.

A dona de casa foi para a cozinha, mas volta e meia dava uma olhada no celular. Ela esperava ver a neta pelo Skype. Cozinhou, fez uma sobremesa, limpou a casa, lavou a louça e foi ver as flores do jardim. Encontrou, no fundo de uma gaveta, um livro que não havia lido.

Os jovens ficam irritados como se os pais tivessem culpa pela falta da internet. Como iriam se comunicar com seus amigos se estavam sem acesso à rede? O jeito foi sair para conversar com os amigos e arrumar um outro passatempo.

A vovó que usa o whatsapp para se comunicar com a família anda para lá e para cá sem ter notícias de ninguém.

O vovô que gosta de ver vídeos no YouTube, foi tirar uma soneca na rede após o almoço.

Os bisbilhoteiros de plantão ficam sem saber o que está acontecendo na cidade, uma vez que não podem acessar o Facebook.

O mundo não gira em torno da internet, apesar da maioria das pessoas depender dela para trabalhar. Porém, domingo é dia de lazer, de descanso, de ficar com a família.

Lá fora os pássaros cantam alegremente, as borboletas coloridas sobrevoam as flores e crianças felizes redescobrem algumas brincadeiras.

A vovó liga a televisão à procura de um filme para assistir, enquanto aguarda seu programa favorito. O vovô assiste um jogo de futebol, na TV da salinha, para se distrair.

Bom, nesse domingo, as comidas não foram fotografadas, as confissões não foram feitas e as selfies ficaram para o dia seguinte.

O telefone fixo foi redescoberto.

- Alô, tudo bem, comadre?

- Nossa, comadre, aconteceu alguma coisa? Quanto tempo você não me liga?

- Olha só quem fala! Você também não me liga! Pensei que tivesse esquecido meu número, comadre.

- Comadre, eu te mando mensagem todos os dias no ZAP ZAP.

- E eu te respondo e compartilho as mensagens que gosto mais, comadre.

E as duas comadres ficaram horas falando pelo telefone fixo que jazia empoeirado no canto da sala.

Não havia novidade para ser contada ou ouvida. Tudo o que uma contava, a outra dizia que já tinha visto na rede social.

No dia seguinte, o povo que passou o domingo sem internet estava alheio aos acontecimentos do dia anterior na pequena cidade.

Ao sair para a rua o vovô voltou com as notícias fresquinhas.

Entretanto, uma família que foi passar o final de semana na praia não teve tempo de sentir saudade do celular. A família usou-o apenas para fotografar os momentos de alegria. E foram muitos!!

As crianças brincaram na areia e jogaram bola.

Alguns adultos acompanharam as crianças e entraram na água, além de fazerem caminhadas.

Não faltaram o churrasco, a cerveja e a música. As comadres até dançaram um forró.

Porém, assim que a família retornou, a primeira coisa que cada um dos membros fez foi acessar a internet para postar as fotos.

Conclusão: por mais que uma pessoa diga que consegue "viver" sem a internet, assim que tem acesso a ela não resiste às olhadinhas nas redes sociais.




Sua visita me deixa muito feliz, obrigada!

Abraços,
Cidália.


PS: Responderei todos os comentários, apesar da demora.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Belezas da minha terra!

Pensando nestes versos retirados do texto (Canção do exílio, do autor Gonçalves Dias),

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá",

quis mostrar um pouco das belezas naturais de uma cidade do interior do estado de São Paulo que tem mais ou menos 28 mil habitantes. 

É a cidade onde nasci (em casa); minha mãe teve a ajuda de uma parteira. Foi aqui que cresci e casei. Na década de 90 passou de Distrito a Município. 

Para passar um dia agradável com a família nada melhor do que uma bela cachoeira. Além do riozinho de águas claras e cristalinas tem os quiosques para fazer um churrasquinho ou um piquenique.

Ainda tem, um parquinho para as crianças e um campo de futebol para os meninos.

Se estiver fazendo muito calor, dá para nadar ou mergulhar, para se refrescar.

Andando um pouco mais podemos visitar o museu e a cachoeira do Lamarca. 

Quem curte a natureza pode se aventurar até o pé da serra, onde vai encontrar lindas paisagens para fotografar.

Nada como tirar uns dias para descansar e aproveitar a tranquilidade do lugar.

Se a pessoa não quiser encarar a água gelada, pode apenas apreciar e se encantar com a beleza da natureza.

Há necessidade do uso de repelente, porque, tem muito borrachudo e outros bichinhos que incomodam. Mas, não a ponto de tirar o prazer de um dia tranquilo e feliz!













Obrigada pela visita!

Feliz 2018!!

Cidália.



                                                                                                               

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Aniver x depoimento





Alegria, muita alegria e sobretudo, gratidão! Poder completar mais um ano de vida, é uma grande dádiva.

Estou entrando na semana do meu aniversário. Na terça, 26, estarei assoprando mais uma velinha, se Deus quiser. (PS: não haverá bolo)

Por um triz não fui chamada de Natalina ou Natália. Bem que eu preferia ser Natália. Por muitos anos detestei meu nome. Gostaria que meu nome fosse mais comum.

Minha avó paterna me chamava de Dalica. Um dos meus sobrinhos me chamava de Dália. Mas, até por Cidade fui chamada uma vez. Meu pai me chamava carinhosamente de Girgo, confesso que não tenho ideia de onde surgiu esse apelido.

Por falar em apelidos, fui muito zoada na infância. Rimavam meu nome com sandália. Como eu achava feio meu nome!

Meu nome não foi escolhido pela minha mãe ou pelo meu pai. Nem pelos meus irmãos. Quem o escolheu foi uma vizinha da minha família.

Segundo as informações que me passaram, essa vizinha era fã de uma cantora portuguesa da época.

Depois da adolescência conheci outras com o mesmo nome, uma portuguesa (irmã do dono de uma padaria), uma enfermeira e anos depois, uma outra senhora, cliente de uma loja de roupas que eu tinha conta.

Com a chegada da internet, descobri outras mulheres com o mesmo nome. Descobri que em Portugal o nome é comum.

A ironia que vejo na origem da escolha do meu nome, é que tenho um enorme complexo de voz. Meu nome que foi em homenagem a uma cantora portuguesa!

Como, Cidália, complexo de voz? Sim, talvez tudo tenha começado na infância. Meus irmãos cantavam muito bem. Um dia meu pai me ouviu cantando um trecho da música, Menino da Porteira e falou:

- Girgo, você não tem voz para cantar como seus irmãos.

Hoje, imagino que ele falou sem maldade. Não pensou que aquela frase dita por ele naquele momento, quem sabe, de brincadeira, fosse ficar enraizada na minha memória.

No magistério, numa aula prática, de música, a professora de didática criticou a minha voz. A ela eu respondi, educadamente.

- Vou ser professora e não cantora.

Como professora minha voz foi muito usada. Falei e cantei com os aluninhos. Sem vergonha, sem complexo. Uma única vez, uma aluna do quinto ano escreveu-me uma cartinha, das muitas que recebi ao longo da carreira, onde dizia que quando eu falava parecia que eu estava chorando.

Sem nenhum problema falei com os pais em todas as reuniões, porém, nunca gostei de microfone.

Dependendo do lugar, passei maus momentos por causa do complexo. Vergonha e nervosismo.

Creio que seja por isso que prefiro a escrita. Tenho mais facilidade com as palavras redigidas do que com as palavras pronunciadas em público.

Na semana do meu aniversário, resolvi escrever esse texto, para saber se há mais alguém entre os leitores que assim como eu não gostava do nome e acabou se acostumando com ele. Ou se tem alguém com complexo de voz ou alguma história da infância que queira compartilhar.

Que 2018 seja um ano repleto de saúde, amor, determinação, paz, prosperidade e sucesso em todos os campos profissionais!”

Aos blogueiros que a caminhada seja de muito sucesso!!

Um carinhoso abraço,

Cidália.









domingo, 17 de dezembro de 2017

Alegria de Natal



                                                 


Na semana que antecede o Natal, me vem à mente a música do Roberto Carlos (E as mesmas emoções sentindo; São tantas já vividas; São momentos que eu não esqueci). São muitas emoções!

Eu estava numa loja de variedades, na manhã de sexta feira, quando fui abordada por duas mulheres.

A mais nova olhou para a outra enquanto me abraçava:

- Mãe, essa é a professora de quem falo sempre.

Retribuindo o abraço ao mesmo tempo que buscava na memória de onde nos conhecíamos, perguntei-lhe:

- Oi, qual é o seu nome?

- Sou a Lurdes, eu e meus irmãos estudamos com você no Ribeirão do Salto. 

Ali, paradas no corredor da loja, trocamos algumas informações que me fizeram retroceder no tempo. Ela me contou que ainda tem uma boneca que ganhou num sorteio que fiz na sala de aula. Uma boneca que ela guarda com muito carinho e ciúme.

Nos despedimos e saí da loja deixando-a na fila do caixa com a mãe.

Entrei no sacolão que estava sendo inaugurado e dali uns minutos vi que a Lurdes e a mãe tinham acabado de entrar.

Fui até elas e conversamos mais um pouco. Trocamos o número de telefone. 

Fiquei de enviar à Lurdes algumas fotos antigas para que ela identificasse os colegas.
Ao chegar em casa olhei o whatsapp e lá estava a foto da boneca que tem mais de trinta anos. Meus olhos ficaram marejados.

 Enviei a foto para dois grupos, um da turma do magistério e o outro de amigas, ex-colegas de trabalho. Quis compartilhar aquele momento especial.

Meu coração encheu-se de sentimentos indescritíveis ao imaginar aquela menina passando a infância, a adolescência e chegando a idade adulta, ao casamento e conservando consigo aquela pequena e simples boneca. 

Uma boneca que representava para ela a lembrança da primeira professora. Nas fotos que eu enviei, ela identificou os colegas e me ajudou a lembrar de fatos que estavam guardados num canto da memória.

Aquela escola da zona rural era distante do ponto de ônibus uns três quilômetros, mais ou menos. Havia três rios, rasinhos, que podíamos atravessá-los arregaçando as pernas das calças compridas. 

Quando chovia era preciso atravessá-los passando sobre um tronco de árvore que era usado como a ponte. Como eu tinha medo, dois alunos seguravam minhas mãos, um de cada lado, e passávamos de lado.

No ano seguinte, abriram uma estrada paralela. Era necessário andar a pé, mas uma boa opção para desviar os rios.

Aquela foi a segunda escola da zona rural na minha trajetória profissional. As lembranças compartilhadas com a ex-aluna, foram a colheita de amoras na beira do rio, na hora do recreio, a merenda (macarrão e arroz à grega), e as dificuldades de aprendizagem de um determinado aluno.

São momentos como esses, a demonstração de carinho, o reencontro feliz, que torna gratificante o trabalho do professor. 

O professor, um profissional desvalorizado, que não mede esforços para atingir seus objetivos durante o ano letivo. Para ele não tem final de semana ou feriado. As aulas precisam ser preparadas com antecedência, os materiais didáticos confeccionados de acordo com o conteúdo desenvolvido. Os relatórios precisam ser redigidos. Etc.etc.etc.

Tudo o que o professor faz, faz por amor e com amor.

Nas fotos antigas, alguns colegas foram reconhecidos pela ex-aluna e as fotos foram encaminhadas para eles através do whatsapp. 








Minha lista de contatos aumentou depois desse reencontro. Um presente antecipado de Natal. Uma grande alegria.

Assim como o presente que recebi, o gesto de carinho representado por uma boneca de crochê, desejo aos leitores amigos e seus familiares, um Feliz Natal!!

OS SINOS DE NATAL
NOS CONVIDAM
A COMUNICAR
A MENSAGEM
DE PAZ E AMOR
QUE ESTÁ
EM NOSSO CORAÇÃO.

Um grande abraço,
Cidália.