terça-feira, 22 de maio de 2018

Sob o sol do outono





Sobrevoando o Oceano Pacífico numa manhã de sábado, com o coração em festa, ela olhou através da janela e fez uma prece. Pode sentir a grandiosidade de Deus naquele momento. Talvez os incrédulos não a sentissem, ela pensou.

Jamais imaginaria que aos 71 anos de idade receberia um presente desses. Poder desfrutar de tanta beleza é uma dádiva. O medo que tinha, de andar de avião, ficou para trás. Naquele momento o que ela sentia era encantamento e um prazer indescritível.

De todos os presentes que ganhou até agora, com certeza esse será inesquecível. Na sua memória guardará todas as boas lembranças da viagem. Desde a hora em que chegou no aeroporto de Guarulhos até o momento que desembarcou no aeroporto em Lima.

Ao seu lado, sua filha mais velha captava suas emoções com a câmera do celular. As lembranças não poderiam ficar apenas na memória, teriam que ser registradas.

Antes de viajar ela teve que passar por uma avaliação médica porque faz uso de uma bombinha para respirar, devido a uma bronquite crônica. Essa avaliação fez parte do presente dado pelo neto que mora no Peru.

Cada passeio, sob o sol do outono, em solo peruano foi uma alegria imensa. Cada lugar que conheceu com suas belezas naturais e histórias ficarão armazenados na sua memória. Ficou maravilhada com a cultura popular, com a comida típica. Riu e dançou entre os artistas.

Até o susto que levou com o tremor de terra foi algo surpreendente. Descobriu que não tem nenhum problema cardíaco.

"Essa viagem será inesquecível. Entrar no deserto foi uma sensação de que realmente Deus está nos guiando a cada segundo de nossas vidas. Sou imensamente grata pelo carinho que meu filho e nora tiveram conosco. Até a próxima vinda ao Peru!" (Tânia Lupi)
































Essas são apenas algumas fotos de um passeio memorável. Um passeio emocionante que lhe proporcionará belas recordações. Um até breve quem sabe, pois a vontade de retornar a esse lugar será grande certamente!

PS: Durante sua estadia no Peru, minha irmã visitou San Isidro District; Larcomar; Asia, Paracas, Ica; Islas Ballestas; Cañete e no deserto (Reserva Natural, Paracas), com a filha mais velha e com o neto que lhe presenteou, acompanhado pela família, esposa e filho.

Obrigada pela visita,

Abraços,

Cidália.



terça-feira, 15 de maio de 2018

Todo dia é dia!


Trezentos e sessenta e cinco dias compõem o ano. Não temos somente um dia para homenagear àquela que nos deu a vida.

Claro que assim como em todas as outras datas especiais, o dia reservado às mães deve ser lembrado e comemorado.

Que mãe que não gosta de receber um carinho em forma de um abraço ou mesmo uma chamada pelo Face Time?

Lendo os comentários que apareceram na minha timeline, notei certo sarcasmo por parte de algumas pessoas. Elas se referiam ao mundo de faz de conta que estava começando no domingo, sugerindo falsidade nas homenagens que os filhos estavam fazendo.

Muitos preferem compartilhar uma mensagem, um poema ou uma música ao invés de falar diretamente. Parece muito difícil para algumas pessoas falar "eu te amo". Não vejo nada de errado nessas homenagens. 

Porém, aqueles que criticam devem saber que cada um é livre para pensar ou fazer o que quiser. O que elas têm contra o mundo de faz de conta? Por que para essas pessoas as homenagens soavam falsas? 

Falando sobre o mundo de faz de conta, segundo minha opinião, não tem nada a ver com as belas homenagens que vi nas redes sociais. 

Quando comecei a desenvolver o gosto pela leitura foi exatamente o mundo imaginário que me atraiu.

Quando me interessei pelas novelas, foi o mundo imaginário que despertou dentro de mim. No momento em que as novelas começaram a ficar realistas demais perdi a empolgação.

Quando comecei a escrever o que me motivou foi poder dar asas à imaginação, mesmo quando alguns textos retratam fatos baseados em histórias reais.

Feliz daquele que ainda pode se dar o direito de sonhar. Se os sonhos se tornarem realidade, melhor ainda.

Mas, voltando ao início desta reflexão, vamos continuar homenageando as mães todos os dias do ano.
Não conheço pessoa mais abnegada do que uma mãe. Ela se entrega de tal maneira que muitas vezes, esquece de si.

Seus filhos são sempre a prioridade. Àquela que tem condição financeira boa, deixa de trabalhar para se dedicar à criação dos seus filhos.

Àquela que precisa trabalhar para ajudar no orçamento da casa, faz o impossível para dar conta de educar seus filhos.

E ainda tem a mãe solteira que tem que dar duro para dar conta de tudo. E ela consegue!

Não podemos esquecer a mãe do coração que sem poder ter seu próprio filho, acolheu uma criança sem família e deu a ela um lar e muito amor.

"Qualquer dia desses eu sumo e vocês nunca mais terão notícias do meu paradeiro!"
Meia hora depois estávamos todos embaraçados no mesmo sofá.
Todo dia é dia delas.
Mãe é comemoração eterna.
(Pe Fábio de Melo)


Sua visita me deixa muito feliz, obrigada!

Cidália.




terça-feira, 8 de maio de 2018

MÃES


O marido levanta, toma banho e vai para o trabalho. Não tem tempo de esperar pelo café. Ela acorda cedo, levanta e vai preparar o desjejum para si e para a filha.

Quando a menina levanta, a mesa está posta. Após o café da manhã, as atividades diárias ocupam todo seu tempo. Ainda bem que logo a secretária do lar chega e a ajuda com as tarefas.

Já está na hora de sair para o trabalho. Ela veste uma roupa bonita, passa um batom e pega a chave do carro. Sua filha tem aquela manhã livre.

Enquanto dirige organiza mentalmente tudo o que tem que fazer naquele dia. Entre seu corre-corre diário ainda encontra tempo para ir à academia uma vez por semana.

A manhã passa voando. Ela chega para almoçar. Não tem muito tempo. É hora de levar a filha à escola e de voltar ao trabalho.

Lá vai ela novamente enfrentar o trânsito. Já está acostumada com aquela agitação. No final do dia ela se lembra que não teve tempo de retocar a maquiagem. Retocou apenas o batom após o almoço.

Chega em casa por volta das 18h com a filha. É hora do banho da pequena. Ela apronta o jantar. O marido chega e a filha está aguardando-o para fazê-la dormir. A mamãe pode relaxar um pouco.

No dia seguinte, de volta à rotina, ela acorda cedo e começa tudo de novo. A escolha do cardápio do dia é uma das suas tarefas. Aquela manhã será mais atribulada. Terá que levar a pequena a uma das suas atividades. Ela dará conta. Já está habituada àquele ritmo.

O trabalho não a assusta. Ela é decidida, determinada, dinâmica, admirável, dedicada, notável e linda!
Seu nome é MULHER.

(Minha nora, minha irmã, cunhada, sobrinhas e amigas, mães carinhosas)
PS: Estou incluída.


Esta é uma singela homenagem a algumas mães neste mês de maio! Em 2016 falei num post sobre a minha mãe, uma mulher simples e humilde, de coração puro e sem vaidade.

Hoje vou lembrar da minha sogra, uma mulher forte, determinada e batalhadora. Com ela aprendi a fazer alguns pratos. A cozinha era sua paixão. Ainda guardo as receitas feitas por ela. Entre essas receitas, estão a receita da cuca alemã, da torta de frango e do pão caseiro.
Ela fazia compotas de frutas, sonhos e bolos deliciosos. Usava o cilindro para fazer a massa do macarrão e do capeletti.
Não tínhamos preocupação com diabetes ou colesterol. A visita dela, uma vez por mês, era aguardada com ansiedade. Ela assumia a cozinha. Gostava de ralar o coco e fazer tudo do jeito mais trabalhoso.
Enquanto cozinhava contava suas histórias que eu ouvia com atenção. Histórias da infância e da adolescência ou da vida de casada. Falava dos filhos e dos parentes que moram no sul.
Outra paixão dela era o artesanato. Fazia lindos trabalhos de tricô. Não consegui aprender. Vó Olga, como era chamada carinhosamente pelo meu filho​ e ainda é lembrada.


A você, mãe de primeira viagem, mãe de um ou de muitos ou que será mãe em breve, parabéns!!

Agradeço ao meu sobrinho Marcos Wagner pelo lindo desenho.

Obrigada pela visita!

Beijos,
Cidália



terça-feira, 1 de maio de 2018

Gratidão


Ao acordar pela manhã, assim que abrir os olhos, agradeça a Deus pela vida. Muitos se deitam para dormir e não acordam. Já estou sendo repetitiva, falei sobre isso no texto, "Reclamações". Com o tempo se aprende a importância da gratidão. Se olharmos a nossa volta podemos ver que temos muito para agradecer.

Neste momento sentada à frente do notebook, ouço o canto dos pássaros. Penso na natureza. Quanta beleza há neste mundão que ainda não conhecemos. Vemos apenas nas imagens mostradas pela TV.

Ao fundo, ouço vozes de uma criança, filho do vizinho e o latido do seu cão. O meu cachorro, prestes a completar 15 anos, acordou, foi dar uma volta pelo jardim e voltou para sua caminha. Ultimamente ele dorme muito e late pouco.

A minha gata, companheira de sempre, dorme ao meu lado, depois de comer na minha mão. Não preciso de despertador, é ela quem me acorda miando e arranhando a porta do quarto. Já tem uma boa idade também. 

Ontem, eu e meu marido rimos ao ver, pelo Face Time as caretas da nossa neta. Ela ficou adoentada e não pode vir, com os pais, passar o feriado conosco. Nem tudo acontece do jeito que planejamos. Assim é a vida.

No domingo minha irmã veio passar a tarde aqui. Ela está feliz e agradecida. Aos 71 anos fará a sua primeira viagem de avião (está ansiosa). Ganhou a passagem de presente do neto que mora no Peru. 

Ontem, segunda-feira, recebemos a visita de duas sobrinhas netas. Foi uma visita rápida, apenas para matarmos um pouquinho da saudade. A noite saí no quintal para deslumbrar a beleza da lua. A Lua dos eternos namorados!

Lá fora os pássaros continuam seu canto. Um canto que me encanta. Minha casa parece uma casa de campo. Com uma rede na varanda. Escondida entre as árvores. Um bom lugar para ler e escrever.
Por tudo isso só tenho motivos para agradecer.

"Manter-se em paz é um exercício diário, porque muitos obstáculos estarão presentes no seu dia a dia, a começar pelo seu lar, onde sob o mesmo teto reúnem-se pessoas que não compartilham as mesmas ideias que você. Sorria mais, relaxe, busque um cantinho dentro de você para ser feliz. Você é responsável pelo seu bem-estar. Estando feliz, o outro seguirá seu exemplo. Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito, um se chama ontem e outro amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer, e principalmente viver. (Mensagem recebida no WhatsApp)"




Você já agradeceu pelo dia de hoje? Pelo final de semana prolongado e ensolarado? 

Deixo meu agradecimento especial a você que visitou este blog e deixou um comentário! Demoro um pouco para responder, mas respondo a todos, individualmente!!

Uma semana de muita paz e amor!

Abraços,

Cidália.










terça-feira, 24 de abril de 2018

Histórias entrelaçadas


Ao concluir a leitura de um livro (Os Crimes do Monograma, Agatha Christie por Sophie Hannah) e assistir uma série (Le Chalet) no final de semana, me peguei refletindo sobre a mente de uma pessoa. Quantos segredos mirabolantes uma mente é capaz de guardar!! De quanta engenhosidade uma mente é capaz! 
Entender o que se passa na mente das pessoas é trabalho para os profissionais da área. 
Neste post reuni textos, escritos no blog, reflexivos sobre a mente. Quantos sentimentos bons ou ruins estão lá, em algum canto da mente! 




TRAÍDA PELA MENTE


O tempo passou tão rápido que quase nem senti! As rugas enfeitam o meu rosto e não dá mais para disfarçar a idade. O cabelo ainda posso pintar para me iludir. Não sei se adianta, porque, o rosto e o corpo mostram a realidade. Em momento algum estou me queixando, aliás, sou agradecida pelos anos vividos.


Anos de dedicação à família e ao trabalho. Sempre fui muito ativa e consegui dar conta dos filhos pequenos e continuar os estudos. Me formei, comecei a trabalhar e fiz muitos cursos. Graças ao meu salário meus filhos puderam se formar. Sou uma mãe orgulhosa! 



Conforme a idade foi avançando, a minha memória começou a falhar. Com isso, perdi o direito de cuidar de mim. Meus filhos, muito preocupados, pensam que me tornei incapaz e não me deixam mais sair sozinha.



Perdi a vontade de me arrumar como antes. Eu era vaidosa, tinha o corte de cabelo da moda, as unhas sempre feitas e gostava de comprar roupas novas. Agora, vivendo dentro de casa, sem fazer nada, apenas comendo a comida que me servem, não preciso me preocupar com a aparência.



Não posso fazer um café para as amigas que raramente me visitam. Entendo que minhas amigas são ocupadas, algumas trabalham e outras têm algumas atividades. São mulheres donas de si. Mulheres que fazem a diferença, como já fiz, um dia! Toda a minha inteligência e altivez simplesmente desapareceram. Tornei-me uma mulher insignificante, um zero à esquerda, como dizem. Os diplomas e certificados não servem mais para nada. Os dons que sempre tive estão adormecidos. Fui traída pela mente! 



Meus dias são passados dentro de casa, mas especificamente, no quarto, assistindo televisão. Durmo, acordo, vejo um pouco de TV e durmo novamente. Nem preciso tirar o pijama. Faz muitos meses que não compro nada, não sei mais o preço das coisas. Então, por que me preocupar com a aparência? Uma das minhas filhas, às vezes, me leva para passear. Quando isso acontece, meu coração se alegra com a luz do sol. Nesses dias sinto de novo um vestígio daquela pessoa que fui no passado.



Sinto saudades da alegria que irradiava a minha alma, da autonomia que me fazia ser forte, batalhadora e ao mesmo tempo, frágil e vaidosa.



Perdi o contato com muitas amigas, não uso mais o celular. Talvez, elas tenham me ligado e como não retornei a ligação, elas acabaram me esquecendo. Não tenho redes sociais, então, estou completamente por fora do que acontece por aí. Sei apenas o que vejo na televisão. 


Pouca coisa, porque, como disse durmo muito. Deve ser o efeito dos medicamentos.

Sei que meus filhos só querem o meu bem, se preocupam comigo e é por isso que não me deixam cozinhar e nem fazer qualquer atividade doméstica.  E assim como cuidei deles quando eram pequenos e incapazes de se cuidarem sozinhos, eles cuidam de mim. 



Quem sabe se eles perceberem que ainda sou capaz de responder por mim, me deixem um pouco mais livre. Uma amiga muito querida (prometi a ela que não ficará esquecida num canto da minha memória), me disse que fui eu que deixei as coisas chegarem neste ponto. Pode ser que sim, me acomodei diante da situação e me deixei levar.  Entreguei os pontos sem protestar.



No fundo, sei que tenho muita vida pela frente e gostaria de ter encontrado alguém que me fizesse feliz. Isso, antes de eu ter desistido de mim. Desistido de viver!



Quem sabe, só estou precisando de um incentivo, um estímulo das pessoas que amo? A união da família, o amor que era o esteio entre nós, a alegria que contagiava as datas importantes do calendário. Como tudo isso se perdeu? Quando tudo isso deixou de fazer parte das nossas vidas? Será que foi no dia em que perdi o meu marido? 



Antes que a memória se perca completamente, quero voltar a me sentir confiante, pelo menos por um tempo. Confiante dos meus atos e desejos. Sem cobranças e pressão. Com amor e alegria. Quero ser eu como era antes. Dona de mim! Será que conseguirei ou não terei mais tempo? Essas perguntas assombram meus pensamentos sem que encontre as respostas.



A memória é o nosso bem mais precioso! É nela que guardamos as boas recordações, não é mesmo? 

O que fazer quando a memória começa a falhar? Tem a ver com a idade? O que você acha?


TARDE ENSOLARADA

Sentada na varanda, num dia lindo, de sol intenso, ela olha o movimento na rua. Espera que um daqueles transeuntes pare um pouquinho para conversar. São pessoas conhecidas que caminham em busca de algo. Espera ser notada por alguém, mas ninguém olha em sua direção.

As palavras estão presas na sua garganta e esperam ser jorradas, boca a fora, na primeira oportunidade. Esperar é o verbo mais conjugado naquela fase da sua vida. Muitas vezes a espera é longa, porém ela não desiste de esperar.

Espera pelo café todas as manhãs, pelo prato de comida na hora da refeição; espera pelo medicamento uma vez ao dia; espera por um afago, um sorriso, um estímulo. Espera pela visita das amigas, por um sorvete para refrescá-la naquele calor.

Enfim, espera por alguém que se interesse em dividir com ela os anos que lhe restam. Um companheiro da sua idade. Ainda sonha com passeios na praia, uma viagem de navio ou quem sabe de avião, e um jantar à luz de velas.

Os anos foram passando numa rapidez atordoante, que quando se deu conta já era uma anciã. As rugas não seriam nada se não sentisse sua alma envelhecida. Não estava caduca, disso tinha certeza. Apenas sentia um grande desânimo.

A juventude de outrora deixara saudades. Saudades de um grande amor, de momentos especiais, de uma vida bem vivida. Ela foi uma mulher ativa, decidida, resolvida que ao longo do tempo foi vencida pelo cansaço.

Cansaço mental, espiritual; que a deixa à mercê da ociosidade. Nada mais faz, além de ver o tempo passar sentada no degrau da sua varanda. Às vezes caminha até o final da rua para exercitar as pernas. Não tem hábitos de leitura, não faz nenhum artesanato e até a TV perdeu a graça.

De repente, os olhos brilham, o sorriso se faz presente naquele rosto, que um dia foi, tão sorridente. As amigas fazem-lhe uma surpresa após os abraços prolongados. Entregam-lhe um pequeno embrulho de presente.

Um simples presente, uma foto delas, num encontro festivo. Uma foto num lindo porta-retratos que a deixa imensamente feliz. Ela se vê tão bonita entre as amigas, bem arrumada, ereta, posando para a câmera. Foi um momento especial, que guardará para sempre.

Durante aquela tarde, as palavras que estavam sufocadas na sua garganta são despejadas para fora, num ritmo acelerado. Ela precisa aproveitar aquele momento para extravasar os sentimentos que estão adormecidos dentro de si. O desânimo deu uma trégua!

Ali mesmo, sentadas sobre o degrau da varanda, as amigas colocam os assuntos em dia. Riem muito e aquela, que ansiava por aquele momento, satisfaz seu ego. Ela coloca para fora as mágoas e rancores que lhe afligem o peito. As amigas ouvem pacientemente e fazem-na sentir-se viva e disposta para o que der e vier.

Uma tarde que valerá por um bom tempo até a próxima visita. Agora ela poderá olhar aquela foto e saberá que as amigas estarão sempre pensando nela. Mesmo que não a visitem com frequência. Mesmo que os dias demorem para passar até que se reencontrem novamente.

Muitas tardes ensolaradas, com as amigas, virão para iluminarem a sua vida. O riso estampará sua face e seu coração transbordará de alegria, nem que seja apenas por algumas horas. Então, agradecerá a Deus!



Trecho da música: Amizade sincera (Fábio Jr.)

Os verdadeiros amigos
Do peito, de fé
Os melhores amigos
Não trazem dentro da boca
Palavras fingidas ou falsas histórias
Sabem entender o silêncio
E manter a presença mesmo quando ausentes
Por isso mesmo apesar de tão raros
Não há nada melhor do que um grande amigo.


FORA DE CENA

Ela se recolheu à sua inércia. Cansou de lutar pelos seus direitos. Os fios de cabelos brancos agora tomaram conta da sua cabeleira. Já não sente mais saudades dos cabelos pintados e escovados.

Suas unhas, antes sempre pintadas, são apenas cortadas quando estão muito compridas. A vaidade se distanciou de tal maneira que ela não se importa mais.

Ela já foi linda de bonita, como diz a personagem de uma novela. Hoje é somente uma sombra da mulher que foi um dia. 

Veste a roupa que lhe dão, come a comida que lhe servem. 

O dia passa sem nenhuma novidade. A rotina é a mesma dos últimos anos. As rugas aumentam a olhos vistos. A pele flácida não a incomoda mais.

Ela perdeu a vontade de viver. Perdeu a alegria que a contagiava. Não reclama. Entregou os pontos, como no ditado popular.

A cortina se fechou. Ela nem lembra da última cena em que representou uma mulher feliz. Qual foi a última vez em que teve a família reunida? Foi há muito tempo! A imagem está se apagando da sua memória.

Seu palco agora é a sala onde passa o dia deitada no sofá vendo TV.

Quem se importa com a vida que ela está levando? Muitos dirão que ela é responsável pela escolha que fez. 

Será que se ela quisesse poderia mudar aquela situação? Se ela decidisse se impor, teria novamente as rédeas em suas mãos?

Por onde anda aquela mulher decidida, dona de si, inteligente e batalhadora? Será que ela não gostaria de voltar àqueles tempos? Por onde andarão os diplomas que conquistou ao longo da vida?

Ah, se ela tivesse disposição para ir ao salão de beleza e dar uma repaginada na sua vida! Sua autoestima, certamente, agradeceria!

Ela poderia fazer uma viagem para conhecer novas pessoas e novos lugares. Talvez conhecesse alguém interessante, que se preocupasse com ela. Mesmo que isso não acontecesse, só o fato de querer passear, comprar algo que a agradasse, seria o suficiente para tirá-la daquela monotonia em que estava confinada.

Aos olhos de muitos ela estava vivendo em cárcere privado. Na sua opinião, talvez tivesse se acostumado à comodidade. Do jeito que estava vivendo ela não precisava se preocupar com as contas, com os assaltos ou com qualquer coisa que fosse.

Nem mesmo a situação do país lhe interessava mais. Para ela tanto fazia a água correr para cima ou para baixo. (Mais um ditado popular)

Qual o cardápio do dia? O que fazer primeiro, lavar a louça ou a roupa? Essas pequenas preocupações do dia a dia já não faziam parte da sua rotina.  Lavar, passar ou cozinhar eram verbos que deixaram de ser conjugados há muito tempo. Assim como outros verbos, comuns no cotidiano das mulheres.

Quanto ao espelho que um dia foi um item que não podia faltar na bolsa ou no banheiro, hoje nem lembra da sua utilidade.

O que ele vai lhe mostrar? A pessoa que se tornou, uma flor murcha que perdeu a sua vivacidade e a sua beleza. Um zero a esquerda que não tem mais voz ativa. Alguém que se deixou dominar, que perdeu sua autonomia e a vontade de reagir.

O espelho não faz parte desta nova etapa da sua vida. Assim como o sol ou a alegria. Neste seu novo universo ela busca refúgio no aconchego do seu quarto ou no sofá da sala.

E assim os dias vão passando numa lentidão que a assusta. E lá deitada no sofá assistindo os mesmos programas de sempre, o dia se torna noite.

Ela não se queixa, não reclama. De que adiantaria? Sabe que ninguém a ouve!


Desalento


O que ela fez com a sua vida? Deixou-se levar pela vontade dos outros e perdeu o ânimo, a coragem. A lembrança da mulher determinada e vencedora tornou-se remota e em breve desaparecerá completamente da sua memória.

Presa na sua rotina sem graça ela passa pelos dias, semanas, meses a fio. Sente-se como um animal enjaulado. As pernas começam a atrofiar por falta de uma atividade física. Para levantar do sofá ela encontra dificuldades. Não tem a ver com a sua idade. Muitas mulheres idosas, colegas de outrora, ainda viajam, dançam, praticam atividades físicas.

Às vezes no meio do dia ela toma um banho para se refrescar e veste uma blusa de pijama. A vaidade foi embora há muito tempo. Abandonou-a. Dentro do seu guarda roupas, não tem nenhuma peça que a agrade. As roupas que estão ali não foram escolhidas por ela. Quando foi a última vez que comprou algo para si?

O calor é intenso e ela não encontra o ventilador. Devem ter levado dali. Ela pega uma revista para se abanar. Usa-a como se fosse um leque. Pelo menos havia uma revista por ali. Alguém a deixou no sofá. Ela folheou-a procurando uma notícia interessante. De repente se deu conta, ao olhar a data, que a revista era velha. Volta, então, a usá-la como leque. A revista é mais útil dessa maneira.

Seus cabelos desalinhados e embranquecidos rejeitam o pente. Ou será a sua mão que não tem mais firmeza para segurar o pente e pentear seus cabelos? Os fios estavam embaraçados. Ela para de tentar ajeitá-los para se abanar.

Batem na porta nessa tarde quente de verão. Ela ouve seu nome. Não se importa que está vestida com a blusa do pijama. Vai atender a porta. Coloca a revista debaixo do braço para liberar a mão. O pente continua na outra mão.

Ela recebe as amigas com um leve e cansado sorriso. Um misto de alegria e alívio. 

- Que bom que vieram me ver, eu estava pensando em vocês.

Uma das amigas vendo o pente em suas mãos, pega-o e penteia seus cabelos com facilidade. Enquanto isso conversam relembrando os bons momentos do passado. Querem alegrá-la, distraí-la um pouco.

Ela fica perdida ouvindo a conversa das duas, olhando para uma e outra sem entender nada.

- Vou me intrometer no assunto de vocês, mas sobre o que vocês estão falando mesmo?

As duas amigas tentam fazê-la participar da conversa. Em determinados momentos ela ri, parece entender sobre o que estão falando. Ela procura participar comentando sobre alguns fatos.

Em outros momentos ela fala coisas sem nexo. Parece que fala qualquer coisa apenas para participar da conversa.

Ao lhe perguntarem sobre sua saúde, ela diz que não tem doença nenhuma. Não toma nenhum medicamento. 

- Então, por que você não sai para passear, para caminhar um pouco, ver gente? - pergunta uma das amigas.

Ela responde que não tem vontade. Desde o dia que perdeu o direito de cuidar de si, perdeu também o estímulo, o desejo, a iniciativa.
Talvez ela nem consiga mais sair sozinha. As pernas estão perdendo as forças. A visão começa a ficar turva. A catarata está cobrindo seus olhos. Essas coisas são notadas e não faladas pelas visitantes.

Ela comenta que acredita que ninguém sente a sua falta. Ninguém a procura exceto as duas que estão sempre ali. Por onde andam àquelas que se diziam amigas? Provavelmente, entretidas com suas atividades diárias.

-E seus filhos? - Uma delas quis saber.

-Meus filhos têm seus afazeres, suas ocupações, não podem ficar o tempo todo comigo. Quando eles têm tempo aparecem por aqui.

Geralmente, quando ela está enjoada da televisão, olha pela janela para acompanhar o movimento da rua. Olhar o trânsito ajuda-a a passar o tempo. É um ótimo entretenimento. Às vezes ela conta os carros que passam, como se estivesse contando carneirinhos quando perdia o sono.

Outra coisa que ela faz é conversar com o cachorro, que sempre esquece o nome, para ouvir a própria voz. Com o cachorro como ouvinte ela fala coisas do passado. Repete a mesma história. O cachorro não reclama. É um bom ouvinte.

Quando as amigas chegam ela não tem assunto para conversar. Suas amigas conhecem de cor e salteado as suas histórias. Ela prefere ouvir as novidades do mundo lá fora. Novidades que entrarão por um ouvido e sairão por outro. Sua memória não retém mais como antigamente. 

Não reclama de nada. Foi ela quem se permitiu àquela vida. Agora não pode mais voltar atrás. Ou talvez, quem sabe, não tenha força para reagir. O isolamento tornou-se cômodo.

As amigas prometem levá-la para passear. Ela diz que vai aguardar pelo passeio. Se as pernas permitirem. 

Quem sabe sua alma, aparentemente morta para o mundo, reencontra a vontade de viver?

Suas amigas vão embora muito tristes por vê-la desanimada. Será que ainda há esperança para aquela pobre mulher? Ela precisa reagir. Lá fora existe vida. Ela tem que observar o vai e vem de pessoas que transitam pela cidade nas tardes ensolaradas.

Ela precisa se sentir, novamente, parte da comunidade onde mora. Ela deve mostrar aos filhos que tem vontade própria. Que ainda é capaz de escolher o que come e o que veste. Que é capaz te ter as suas próprias decisões. 

 Ela deixará a vida em preto e branco para se aventurar numa nova vida, uma vida repleta de cores?




Grata pela visita,

Cidália.