domingo, 25 de junho de 2017

Vida às avessas lll (o retorno)



Durante o percurso até a rodoviária, a menina que teve a voz presa na garganta por muito tempo, disparou a falar com o avô:

- Vovô, estou feliz que tenha vindo me buscar. Eu estava pensando que ficaria naquela casa até completar a maioridade. Se isso acontecesse eu fugiria quando aparecesse uma oportunidade. Já estava pensando nisso. 

- Não fale besteira, menina. Nem comente isso com a sua mãe, ela estava desesperada para reaver vocês. Não se conformava por ter que ficar longe dos filhos, coitada.

- Se eu fugisse daquela casa, vovô, seria para ver a mamãe e meus irmãos. Como eles estão?

- Primeiro vim buscar você, Ariana, porque era a única de quem não tínhamos notícias. Seus irmãos estão próximos um do outro, morando na mesma cidade. Serão levados para casa amanhã.

- Por que só eu vim morar tão longe, vovô?

- Porque seu tio Jesuíno é o único que mora bem afastado da família. Estaremos em casa na hora da janta, se o ônibus não atrasar.

- O senhor deve estar cansado de vir e voltar no mesmo dia.

- Um pouco, mas vou descansar no ônibus. Na vinda, dormi durante toda a viagem. 

- Nem acredito que vou ver a mamãe, a vovó e meus irmãos.

- Será que você não vai sentir saudade da sua tia, minha menina?

- Que tia, vovô? Aquela mulher nunca me tratou como uma pessoa da família.

- Pensei em esperar seu tio chegar do serviço para ter uma conversa séria com ele. Na ida, passei na fábrica, mas só contei a ele que ia te levar embora. Ele estava trabalhando e eu estava com pressa. Mas, pretendo voltar outro dia, para lhe dar um puxão de orelha.

- Sabe de uma coisa, vovô? Não quero mais pensar naquelas pessoas. Se um dia eu encontrá-las, por acaso, apenas as cumprimentarei como cumprimentaria qualquer pessoa. Não pelo fato de me obrigarem a fazer o trabalho da casa, mas por me ignorarem.

A conversa entre os dois continuou mesmo depois que entraram no ônibus. Ariana passou tanto tempo falando consigo mesma que estava amando o fato do avô estar ali ouvindo-a e conversando com ela.

Quando percebia que ele estava cochilando iniciava outra conversa. Estava tão empolgada por estar voltando para sua família que não conseguia se conter. Como estavam seus irmãos? 

José Carlos era dois anos mais novo que ela e Elizandra, a caçula, estava com doze anos. Como sentia falta das brincadeiras no quintal e dos banhos no rio! Sua brincadeira predileta era jogar bola com o irmão. 

Será que durante esse tempo que seus irmãos passaram na casa dos tios foram bem tratados? Ela não via a hora de saber como tinham sobrevivido durante esse tempo sem a mãe. A caçula era muito apegada a ela. 

Numa das paradas do ônibus, Ariana olhou para o avô e viu que ele estava apreciando a paisagem. 

- Vovô, você está me ouvindo? 

- Sim, minha neta. Pode continuar falando. Não tenho todas as respostas, mas amanhã quando seus irmãos chegarem, saberemos.

- Estou muito curiosa para saber o que a mamãe tem para nos contar. Deve ser coisa boa se ela mandou nos buscar.

- Prometi a ela que não ia te contar nada. Tenha paciência, menina!

- Desculpe, meu avô, não vou perturbar mais o senhor. Sou grata por ter me tirado daquela casa.

Ao chegarem no ponto final da viagem, o avô pegou a neta pelo braço e caminharam, em silêncio, até chegarem em casa. Estava uma noite clara, noite de lua cheia. Nem sentiram os três quarteirões que andaram. 

Mil pensamentos povoavam a mente da Ariana. Três anos se passaram desde que vira a mãe pela última vez. Três anos de reclusão para ela. Três anos sem ter com quem conversar. Três anos de solidão, de sofrimento. Três anos que esperava esquecer, apagá-los da memória.

Assim que chegaram, Ariana olhou para a casa dos avós e suspirou! Sentiu uma paz tão grande que pensou que fosse morrer ali, naquele momento.

Depois de viver longe da sua família, das pessoas que amava, por três terríveis anos, Ariana precisava compensar o tempo perdido.

Ela perdera parte da infância e adolescência. Ficara atrasada na escola. Tornara-se uma ótima dona de casa, aprendera a cozinhar e a tricotar. Poderia ajudar a mãe a refazer a vida.

Nesse período em que ficou longe da família, Ariana percebeu que era uma moça forte, pois conseguiu suportar as humilhações que lhe foram impostas.

Durante esse tempo ela chorou, apenas, uma única vez.

Qual a surpresa que a vida tinha lhe reservado? Será que a mãe arrumara um marido?

Continua!

PS: Desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.

Sua visita é muito bem vinda, obrigada!

Volte sempre que estiver com vontade de ler.
Você encontrará aqui no blog vários textos reflexivos e contos baseados em histórias reais.


Uma semana abençoada!!

Cidália.


Segue os links do capítulos anteriores:











domingo, 18 de junho de 2017

Vida às avessas ll (a chegada do avô)


Conforme o tempo ia passando aquela pobre menina fazia o impossível para se manter forte. Sentia muitas saudades da mãe e dos irmãos.

Todas as noites, antes de dormir, fazia sua oração pedindo a Deus que sua mãe viesse buscá-la. Tinha esperança de voltar a viver com a sua família.

Ali, naquela casa, Ariana não tinha com quem conversar. Desenvolveu o hábito de falar sozinha enquanto realizava suas tarefas.

Depois que aprendeu a cozinhar, seu serviço aumentou. Era ela quem cuidava de tudo. Era a primeira a acordar e a última a dormir. As palavras que proferia diariamente eram:

- Sim, senhora! - Sim, senhor!

Aos quatorze anos de idade, Ariana era responsável pela casa dos tios e ainda encontrava tempo para tricotar meias e cachecóis com restos de lã que a tia começou a lhe dar, depois que a viu, um dia, observando-a tricotar.

O primeiro Natal que passou longe da família foi muito triste para Ariana. Ela viu os tios e as primas saírem, bem vestidos, para irem à igreja. Naquela noite ela foi dormir cedo.

Na manhã seguinte viu a alegria das primas ao desembrulharem os presentes. Lindas bonecas.

- Ariana, o café está pronto? - perguntou a tia.

- Sim, senhora.

- O que você está esperando para arrumar a mesa? Não tem nada aqui pra você ficar olhando - falou uma das primas.

Ariana não respondeu a prima, abaixou a cabeça e foi para a cozinha. Ela não tinha folga e nem remuneração. Pagava a sua estadia com o trabalho. Vestia e calçava o que a tia lhe dava, aquilo que ela não queria mais. Roupas e calçados usados.  O que ela tinha de novo eram as meias e os cachecóis que fazia. pelo menos podia se agasalhar no inverno.

Ela gostaria de ter seu próprio dinheiro para comprar linhas e lãs para fazer outras coisas além de meias e cachecóis.

O tempo passava e a saudade aumentava. Queria perguntar ao tio se ele tinha notícias da sua mãe, porém não se atrevia a falar com ele. Desde que estava naquela casa, nunca havia recebido uma palavra ou gesto de carinho dele. O jeito era esperar. Tinha certeza de que assim que pudesse, sua mãe viria buscá-la.

Muitas vezes, quando perdia o sono, Ariana pensava no tio. Desde que chegara, nunca o ouviu falar sobre a mãe dele, sua avó ou sobre o avô que a trouxe para viver ali. Foi seu avô quem a levou, assim como levou seus irmãos para a casa de outros parentes.

Ao completar dezesseis anos, Ariana recebeu, certo dia, a visita do avô. Ela estava preparando o almoço quando ele apareceu.

- Menina, como você cresceu! Está uma bela moça. Sua mãe tem uma surpresa para você e seus irmãos.

Seu avô não reparou em suas vestimentas. Não viu que ela estava usando avental e um lenço na cabeça.

- Onde está sua tia? Sei que seu tio está trabalhando, já falei com ele.

- Ela deve estar na sala de costura, vovô, com as filhas. E a mamãe como está? Estou sentindo muita saudade dela e dos meus irmãos.

- Ela também sente saudades de vocês, mas espero que me entendam que não pudemos agir de outra maneira. Eu e sua avó não tínhamos condições de sustentar todos vocês.

- Eu entendo, vovô e sei que meus irmãos, também, entendem.

- Muitas vezes sua mãe quis visitar vocês para saber como estavam passando, porém a falta do dinheiro a impediu de viajar. Ela trabalhou todo esse tempo fazendo compotas e bolos para juntar algum trocado. Por isso estou aqui hoje, ela me deu o dinheiro para a sua passagem e a de seus irmãos. Eu não pago a passagem por causa da idade.

- O dinheiro não vai fazer falta para ela, vovô?

- Não vou falar mais nada, mocinha, senão vou estragar a surpresa da sua mãe. Vou falar com a sua tia. Depois do almoço nós vamos embora. Enquanto converso com ela, vá arrumar as suas coisas.

Ariana terminou o almoço, arrumou a mesa e foi para seu quartinho. Estava transbordando de alegria. Sentiu vontade de pular e cantar. Ela ia rever sua mãe e seus irmãos. Deus ouviu as suas preces.

Seu avô foi procurar pela nora. Chegando ao quarto de costura a viu ensinando as filhas um novo ponto de crochê.

- Como vão vocês, Iracema e minhas netas queridas?

- Estamos bem e o senhor? Que bons ventos o trazem sem nenhum aviso prévio? - a nora perguntou, levantando-se para cumprimentá-lo.

- Olá vovô, que saudades! - as gêmeas o abraçaram.

- Vim buscar a Ariana, já passei na fábrica e falei com o Jesuíno.

- E quem é que vai cuidar da comida e da casa? Não posso ficar sem ninguém, a casa é grande e preciso de ajuda.

- Coloque as meninas para te ajudar. A Ariana já ficou tempo demais longe da família. Pelo que pude ver, a pobre menina ficou no lugar da empregada. Ela até poderia ajudar, mas não assumir a responsabilidade da casa. Vou conversar com o Jesuíno, ele deveria ter tratado melhor a sobrinha.

- O que foi que essa mal agradecida foi falar para o senhor? Ela não tem nada do que reclamar, tem que dar graças a Deus pelo nosso acolhimento.

- Ela não precisou falar nada, eu vi com meus próprios olhos. Quando entrei na cozinha pensei que fosse encontrar a Clotilde.

- Pelo menos agora ela será mais útil, poderá ajudar a mãe. - Iracema proferiu a frase encaminhando-se à cozinha. As gêmeas e o avô a seguiram.

Sentaram-se à mesa e se serviram. Iracema não esperou pela sobrinha. A comida estava muito boa. 

Quando Ariana voltou para a cozinha sem o avental e o lenço na cabeça, a tia perguntou:

- Você não vai deixar a cozinha arrumada antes de ir embora?

- Venha almoçar menina, sente-se ao meu lado - disse o avô - sua tia e suas primas vão cuidar da cozinha hoje.

Iracema não se atreveu a responder o sogro. Sentiu vontade de respondê-lo, porém preferiu ficar calada. O jeito seria pedir ao marido, no final do dia, que chamasse a Clotilde de volta.

Cabisbaixa, Ariana se sentou ao lado do avô. Durante o tempo que permaneceu naquela casa foi a primeira vez que sentou à mesa com aquela família. 

Após o almoço silencioso, Ariana pediu licença e foi pegar suas coisas. Voltou com uma pequena trouxa. O avô a esperava na sala. Despediram-se e foram embora. Tinham uma pequena caminhada até a rodoviária.

Continua...

Acompanhe a história da Ariana acessando o link abaixo para ler a primeira parte deste conto:

http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/vida-as-avessas.html


PS: Mais um desenho feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.

Sua visita me deixa muito feliz, obrigada!

Uma semana abençoada a você e sua família!!

Abraços,

Cidália





segunda-feira, 5 de junho de 2017

Vida às avessas (o sacrifício)




Aos treze anos de idade, Ariana viu seu mundo desmoronar. A família composta por cinco pessoas se desfez depois da morte do seu pai. Sua mãe ficou sem renda, pois os negócios eram feitos de boca, não havia documento assinado. Seu pai era comerciante. 

Cada filho foi morar na casa de um parente e sua mãe voltou para a casa de seus pais. Era uma época difícil. Os avós não tinham condições de ajudar a filha e os netos. Sua mãe não teve opção. Era para o bem de todos.

Ao chegar na casa dos tios onde ficaria, Ariana assumiu o lugar da empregada doméstica que foi dispensada no dia seguinte. Antes de partir, a empregada teve que mostrar à menina seus deveres.

Para a menina a mudança de vida foi drástica. Teve que deixar a infância para trás de uma hora para outra e aprender os ofícios domésticos. Limpar o chão era o pior dos serviços. Ela não era tratada como sobrinha e sim como uma serviçal.

Nem nas horas de folga ela podia brincar com as primas. Não a aceitavam por perto. Quanto às roupas, usava àquelas que eram dispensadas pelas meninas. Não importava que ficassem apertadas.

- Vai procurar o que fazer sua inútil – dizia a tia quando a via pelos cantos olhando as gêmeas brincando.

Muitas vezes ela pensava em contar ao tio, irmão da sua mãe, sobre o modo como era tratada pela tia e primas.

Porém, certo dia ouviu uma conversa entre o casal.
- Não sei porque você se ofereceu para cuidar dessa menina, Jesuíno. A nossa despesa aumentou, você não notou?

- Mas, querida, você dispensou a Clotilde e a menina Ariana é que está fazendo o serviço da casa.

- A Clotilde cozinhava  e essa menina não sabe cozinhar. Sou eu quem faço a comida agora. Ela ajuda descascando os legumes, é só o que sabe fazer na cozinha, além de comer muito.

- Por que você não a ensina a cozinhar? Está na hora dela aprender. Minha irmã deu moleza para os filhos. 

- A partir de amanhã vou ensiná-la. Já estou cansada de ir para a cozinha. 

Ariana, ouvindo aquela conversa, correu para o quarto dos fundos onde dormia e jogou-se na cama chorando.  

Naquela noite dormiu sem janta, ninguém sentiu a sua falta. Ela comia depois que todos jantavam. O que sobrava. Não se sentava à mesa com a família.

Provavelmente, naquela noite a família foi para a sala e nem viu que ela não foi tirar a mesa. Ela só era lembrada quando precisavam dos seus serviços.

- Ariana, faça isso! - Ariana, faça aquilo! - Ariana, você já fez o que te pedi? - Se apresse menina! 

Na manhã seguinte, Ariana acordou bem cedo, com muita fome, e foi para a cozinha. Precisava se conformar com a sua situação. Não tinha a quem recorrer. Levantou a cabeça, recolheu a louça da mesa, lavou e limpou o chão.

Assim que encontrasse sua mãe contaria a ela o que estava passando. Esperava que seus irmãos tivessem tido mais sorte que ela.

Sentia muita falta do seu pai. Se ele ainda estivesse vivo ela poderia estar em casa com seus irmãos. Ela não teria que se sujeitar àquela vida. Ao mesmo tempo sentia raiva dele. Culpava-o pelo modo que estava vivendo. Se ele não tivesse deixado sua mãe sem recursos nada daquilo teria acontecido. Infelizmente, porém, o armazém do seu pai faliu após a sua morte.

Quando sua tia a viu pondo a mesa para o café, de olhar cabisbaixo, chamou a sua atenção.

- Menina, por que amanheceu com essa cara emburrada? Você tem que agradecer ao seu tio. Se ele não a trouxesse pra cá, o que seria da sua mãe? Trate de fazer o serviço direito. A partir de hoje vou te ensinar a cozinhar. 

Naquele momento, Ariana sentiu vontade de responder, mas, apenas concordou com a cabeça sem levantar os olhos para ela. Queria ter coragem para responder que preferia estar morando debaixo da ponte com sua mãe e seus irmãos.

Ali, naquela casa, ela se sentia desprezada. Só lembravam dela na hora de pedir que fizesse algum trabalho. As primas não a chamavam para brincar e nem repartiam com ela algo diferente que estivessem comendo. Seu tio sempre trazia um doce para as filhas quando chegava do trabalho.

E assim, Ariana começou a aprender a cozinhar o arroz, o feijão, a fazer massas e bolos, entre outras comidas.

A tia estava satisfeita, a menina aprendia rápido e em poucos meses assumiria a cozinha. Seria um descanso para ela. 

O dia para Ariana começava muito cedo. Ela precisava dar conta de todos os afazeres domésticos. Fazia tudo em silêncio. Só falava quando os tios perguntavam alguma coisa em relação à casa.

Sentia saudades dos irmãos e das brincadeiras. Os brinquedos eram poucos, mas eles tinham muita imaginação e criatividade. Ela e os dois irmãos ajudavam a mãe nas tarefas simples como arrumar as camas, varrer a casa e lavar a louça. Sobrava muito tempo para as brincadeiras.

Suas poucas vestes estavam se acabando. Se aparecia um rasgo ela mesma costurava na mão para não incomodar a tia. 

Aos domingos, enquanto os tios iam à missa ela ficava em casa. Para passar o tempo pegava as agulhas de tricô da tia e com sobras de linhas que recolhia do lixo, tentava fazer alguma coisa. Procurava deixar sempre as agulhas no mesmo lugar, na sala de costura, para a tia não brigar com ela. Assim como fazia com a agulha e linha que usava para remendar a sua roupa.

Com o passar do tempo, os vestidos das gêmeas foram ficando pequenos para ela que, sendo dois anos mais velha, estava se desenvolvendo muito rápido.

- De agora em diante vou reformar meus vestidos para você, menina. Àqueles que estão encostados no guarda roupa. Você está comendo demais, por isso as roupas das suas primas não te servem mais.

A pobre Ariana sentia-se como a gata borralheira. Não tinha nenhum direito, apenas deveres. Sua vida estava às avessas!



Continua


Obrigada a todos pela visita!!

Beijos

Cidália.


PS: o desenho foi feito pelo meu sobrinho Marcos Wagner.





segunda-feira, 29 de maio de 2017

Palavras


                       
   


Muitas ideias se misturam na cabeça dela, porém nenhuma inspiração para um conto. 

Lembranças de filmes assistidos e de livros lidos. Somente fragmentos. 

Ela pensa nas histórias inacabadas e nas sugestões que recebeu. Onde estão as palavras que darão continuidade a esses personagens?

Estarão no fundo, bem lá no fundo da sua mente, num cantinho trancafiado? 

Muitas vezes o silêncio inspirador não lhe dá asas para a imaginação. Ela fica entorpecida. 

- Onde estão as palavras? - se pergunta mais uma vez. 

O dia amanheceu ensolarado e lá fora, na cidade grande, diversos sons são ouvidos. Automóveis, aviões, sirenes, alarmes disparados. Ela apura os ouvidos. Do décimo segundo andar tenta distinguir alguns sons. 

Enquanto despertava, agarrada à sua neta, ouvia o canto dos pássaros. 
- Bem te vi! - Bem te vi! - Bem te vi!

Mas, conforme as horas vão passando, o canto dos pássaros se perde entre o barulho do dia. A cada momento um novo som. 

Ela olha pela janela, ouve ao longe, algumas vozes misturadas com o latido de cachorros. Um motor é acionado. Parece o barulho de uma serra elétrica. 
A cidade não pára. Enquanto algumas pessoas dormem, outras trabalham ou apenas se divertem na calada da noite. Assim é a vida na cidade grande.

O sol entra pela janela iluminando a sala. 

As palavras começam a surgir de uma forma inusitada. 

De repente, o cheiro de comida entra pelas narinas. O horário do almoço se aproxima. Ela espera a chegada da neta que havia saído.

Até aquele momento ela ainda não conseguiu organizar seus pensamentos. 

Nenhum personagem surge. 

As histórias continuam inacabadas.

Qual o tipo de leitura que os leitores preferem? Uma trama comovente, um suspense ou fantasia?

Ela pensa no seu gosto literário.  Gosta de romances e dramas, mistério e suspense.

Com a chegada da neta ela esquece as palavras e a envolve num abraço. O carinho recebido a distrai. 

A tarde se anuncia. 

Cadê as palavras? 

Ela precisa terminar algumas histórias e pensar em outras.

Na ausência das palavras ela se torna repetitiva. 

O melhor a fazer é esperar que novas palavras surjam e que o repertório seja ampliado.

E assim, em breve, novas histórias e novos textos reflexivos serão postados.

Um abraço carinhoso em agradecimento pela visita!

Cidália.





domingo, 21 de maio de 2017

O ninho


Segunda, a tarde, lá estava meu marido limpando o quintal e cuidando do jardim, quando se deparou com um ninho em uma pequena árvore. Ele o tirou para jogar fora.

Eu estava tirando a roupa do varal e ele me chamou para mostrar a perfeição.
- Olha que obra prima – disse ele.
- A natureza é fantástica – respondi.
- Parece que está vazio – ele comentou colocando a mão na entrada do ninho.
- Será que não tem um ovinho aí dentro? – perguntei curiosa.
- Não.
- Olha, tem uma pena! – exclamei surpresa.

Então, ele colocou a mão mais no fundo e vimos o filhote encolhido, escondido. Mas que depressa, meu marido ajeitou o ninho e colocou-o no mesmo lugar onde o havia encontrado.

- Logo a mãe virá cuidar dele, é um filhote de corruíra.
- Que gracinha! – falei admirada com tamanha magnitude.

Pensei nas maravilhas criadas por Deus. A mamãe passarinha faz o ninho para abrigar seu filhotinho até que ele esteja pronto para voar e se virar sozinho. Ela o protege dos predadores.



Enquanto isso, em algum lugar, uma criança está sendo abandonada a sua própria sorte! Por inúmeros motivos ou por motivo nenhum. Não cabe a mim tal julgamento, é apenas uma comparação.

No dia seguinte um casal de passarinhos sentou no varal e de longe meu marido ficou observando a cena. Um de cada vez visitou o ninho, provavelmente para levar comida ao filhote.

Depois que eles foram embora, lá foi meu marido, muito curioso olhar o ninho novamente. Eu queria tirar uma foto. E a surpresa foi grande, pois lá dentro estavam dois filhotes e não apenas um como achamos que fosse no dia anterior.

Talvez, na primeira vez tenhamos enxergado mal ou um deles estivesse muito bem escondido. Uma dúvida surgiu quanto aos pais, não eram corruíras como havíamos pensado. Que pássaros eram aqueles?

Existem muitos tipos, mas uma hora dessas descobriremos que passarinhos são esses que fizeram seu ninho numa pequena árvore do nosso jardim.





Não me canso de admirar a natureza e pensar nas maravilhas criadas por Deus! Na beleza dos pássaros e borboletas que voam sobre as flores! Flores de cores alegres! Folhagens exuberantes!

Mais uma surpresa nos aguardava no sábado! Curiosos, eu e meu marido fomos olhar o ninho e lá estavam três lindos filhotes nos observando. Provavelmente estavam escondidos no fundo, pois o ninho tem uma boa profundidade.

Em breve os filhotes sairão do aconchego do seu lar e estarão entre os outros pássaros sobrevoando as árvores e flores do jardim. E serão eles a fazer um novo ninho para abrigar seus filhotes. O ciclo continuará!

Poderão nos acordar com seu canto majestoso e nos presentear com a sua beleza como fazem seus pais. Voarão de galho em galho entre as árvores para se alimentar de seus frutos. Desfrutarão de sua liberdade!

Para encerrar este texto vou deixar um poema que encontrei entre meus achados. Numa folha amarelada pelo tempo a letra de uma adolescente que o copiou sem anotar o nome do autor.

LIBERDADE

Quem me dera ser livre
e poder correr entre os campos
sem hora marcada para voltar.
Dormir sob as árvores,
tomar banho num riacho,
comer somente frutas,
andar descalça sobre a relva,
e apreciar o por do sol.
Cantarolar baixinho para a lua,
sonhar de olhos abertos
e esquecer o amanhã.
Colher flores silvestres,
acompanhada apenas pelo silêncio.
                           (autor desconhecido)

Em breve novos contos, aguardem. 

Grata pela visita!

Abraços,
Cidália.









sábado, 13 de maio de 2017

Singela homenagem



Uma singela homenagem às mães, que devem ser lembradas todos os dias e não apenas no segundo domingo de maio.
Que o carinho e o amor sejam sentimentos presentes no seu dia a dia!
Que as bênçãos se multipliquem na vida de todas as MÃES!!
Feliz DIA!!

MÃE (DESNECESSÁRIA)
                                                                                Márcia Neder

A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo.

Várias  vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha. Até agora. Agora, quando minha filha de 18 anos começa a dar vôos-solo.

Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos.
Uma batalha hercúlea, confesso.

Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara.
Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também.

A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical.
A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.
Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.

Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo.

O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.

Pai e mãe - solidários - criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.

"Dê a quem você ama :
Asas para voar...
Raízes para voltar...
Motivos para ficar..."
                  (Dalai Lama)

Eu não poderia deixar de falar sobre a minha mãe  que partiu há muito tempo deixando um enorme vazio no meu coração.
Para ela os filhos não deveriam sair debaixo das asas da mãe, onde estariam sempre protegidos.
Maenga do céu era o termo mais usado por ela quando sentia pena de um dos membros da família por menor que fosse o motivo.

Também sinto saudades da minha sogra, uma mulher de fibra, trabalhadeira, que me ensinou, entre algumas coisas a fazer pão.
Quando ela vinha em casa, uma vez por mês, a cozinha ficava por conta dela. Ela era mestre para fazer sonho, cuca alemã, massa de pão de ló, tortas, capeletti, pães, etc.
Ela, apesar de ser um pouco mais velha que minha mãe, tinha a mente mais aberta. Três de seus cinco filhos sempre moraram fora, bem longe dela.

E neste exato momento em que estou escrevendo, sentada, no jardim de casa, ouço a homenagem que os alunos da escola de educação infantil, que tem na proximidade, estão fazendo para suas mães.
Muitas lembranças me vieram à mente!
Minha mãe não participava dessas homenagens, mas se alegrava com os mimos, cartões feitos na escola que meu pai guardava num baú junto com suas coisas de valor.


Obrigada pela visita!

Um abraço especial às MÃES!

Cidália.
MÃE
Que ao dar a benção da vida, entregou a sua...
Que ao lutar por seus filhos, esqueceu-se de si mesma...

Que ao desejar o sucesso deles, abandonou seus anseios...
Que ao vibrar com suas vitórias, esqueceu seu próprio mérito...
Que ao receber injustiças, respondeu com seu amor...

E que, ao relembrar o passado, só tem um pedido:

DEUS, PROTEJA MEUS FILHOS, POR TODA A VIDA!

Para você mãe, um mais que merecido:




http://contosdacabana.blogspot.com.br/2016/05/perfis-de-maes.html?spref=fb





domingo, 7 de maio de 2017

Deserdada

                                                          Desenho: Marcos Wagner


Lígia, uma menina tímida e retraída, sentia-se muito solitária. Na escola não tinha amigos. Sentava-se na primeira carteira e como era a melhor aluna da classe, era a primeira a terminar as tarefas.

Enquanto esperava os demais terminarem a lição, sonhava de olhos abertos. Imaginava-se num palco, cantando para milhares de pessoas.

Aos dezessete anos começou a cantar na igreja onde seu pai era o pastor. Nesses momentos em que a música invadia sua alma, ela não sentia solidão. As pessoas gostavam de ouvir a sua voz e isso lhe trazia conforto.

Seus irmãos eram fãs e perdiam horas assistindo seus ensaios. Eles não eram de muita conversa com  a irmã mais velha porque ela não lhes dava atenção, mas sempre a rodeavam.
Quando descobriu que sentia atração por outras meninas, o desespero tomou conta dela. Sabia que se revelasse seus sentimentos não seria aceita, nem pelos pais e nem pela comunidade. Seria apedrejada.

Continuou sufocando seus sentimentos e só sentia-se livre quando estava cantando para os fiéis, na igreja.

Seus pais pensavam que ela não tinha namorado por causa da timidez. E ela estava sempre na escola ou na igreja. Não saía com amigos. Para os colegas da escola ela era antipática, pois conversava apenas o essencial com alguns deles, quando precisavam se agrupar, para fazerem determinados trabalhos.

Ao completar dezoito anos, seus pais encontraram cartas de amor que ela tinha escrito para outra menina, colega da faculdade, e recebeu ameaças de seu pai.

Tanto sua mãe quanto seu pai ficaram horrorizados com a descoberta de que a filha tinha uma namorada e cortaram o relacionamento com ela.

- A partir de hoje você não será mais nossa filha - disse o pai - eu e sua mãe queremos que saia de casa e que cuide da sua vida bem longe de nós.

- E a faculdade? Vocês vão me ajudar até que eu consiga bancá-la sozinha?

- Tranque a matrícula, faça o que achar melhor, mas não conte conosco – disse a mãe.

- Você pode ficar com o carro que foi presente e o dinheiro da poupança que foi presente de seus avós - o pai falou, sem olhar para a filha.

- Por favor, arrume suas coisas e saia antes que seus irmãos cheguem da escola, não queremos que eles saibam sobre a sua vida - a mãe foi rude.

- O que vocês vão dizer a eles, quando perguntarem onde estou? Vão mentir?

- O que diremos a eles não é da sua conta. Contaremos apenas o necessário quando perguntarem por você - o pai já estava perdendo a paciência.

Lígia foi para o quarto sem derramar uma lágrima sequer, arrumou suas coisas e pegou seu violão, o companheiro de todas as horas. Colocou a mala no bagageiro e o violão no banco do carona. Verificou o combustível e deu partida no carro. Seguiu em frente com um aperto no coração. Gostaria de ter se despedido de seus irmãos. Mesmo não sendo muito ligada a eles, amava-os. No fundo, talvez sentisse ciúme deles.

Luiz e Leda, eram gêmeos e tinham quatro anos a menos que ela. Desde que eles nasceram, Lígia sentiu-se rejeitada pelos pais. A atenção era toda para os bebês.

O dinheiro que ela tinha, na conta, teria que ser economizado até que arrumasse um trabalho.

Conseguiu emprego no restaurante, onde fazia suas refeições, numa cidade próxima. Alugou um quarto num pensionato.

Nos finais de semana se apresentava em bares e lanchonetes. Com o apoio da namorada, sentia-se mais confiante e enquanto dedilhava as cordas do seu violão a timidez não a incomodava tanto.

Seis meses depois, já familiarizada com a nova rotina, voltou para a faculdade. Sabia que precisava pensar no futuro, não poderia viver de sonhos. A música continuaria sendo um maravilhoso passatempo.

Ela estudava durante o dia e trabalhava a noite.  Começou a manter contato com os irmãos através das redes sociais. Soube que seus pais nem queriam ouvir o seu nome. Era como ela tivesse uma doença contagiosa.

A família da namorada era muito diferente da sua. Eram pessoas legais. Aceitaram a escolha da filha numa boa. Recebiam a Lígia com alegria. Eles moravam na mesma cidade que a família da Lígia, porém num bairro distante.

Com esforço e dedicação, Lígia conseguiu terminar a faculdade. Se formou nutricionista e continuou no restaurante, onde foi promovida a gerente. Assim que possível pretendia abrir seu consultório.

Porém, a nutricionista que prestava serviços ao restaurante foi embora para outra cidade e Lígia assumiu seu lugar.

A música continuou fazendo parte da sua vida e nos dias de folga ela se apresentava com a banda formada pela namorada, em festas de casamentos e aniversários.

A esperança de fazer sucesso como cantora ainda existia. Quem sabe sua estrela ainda brilharia?
Quanto aos pais perdera a esperança de uma reconciliação. Eles não compareceram na sua formatura.

Seus irmãos foram contra a vontade dos pais. Lígia ficou feliz por ter o amor e o carinho deles, num momento marcante da sua vida.
Ela sentia falta dos pais, mas não podia fazer nada se eles não aceitavam a sua escolha.

Será que seus pais voltariam atrás, um dia, e se aproximariam dela?

Obrigada pela visita!

Beijos,
Cidália.

PS: não deixe de acompanhar o blog e de segui-lo.


     http://contosdacabana.blogspot.com.br/