domingo, 23 de abril de 2017

Desilusão


O casamento dos pais da Mirella durou  pouco tempo, por isso ela tem pouquíssimas lembranças daquela época. Sua mãe não exigiu a pensão alimentícia a que teria direito. Preferiu arregaçar as mangas para criar a pequena.

Ela não lembra a quem dirigiu a palavra "papai" quando aprendeu a falar. Ao seu avô ou a seu tio mais velho, irmão da sua mãe? Ou a nenhum dos dois, talvez. Deve ter se dirigido ao pai, pois foi uma criança precoce, aprendeu a falar antes dos pais se separarem.

A avó da menina foi peça fundamental na sua criação. Ajudou a cuidar dela para que sua mãe pudesse trabalhar sossegada.

Quando a sua mãe casou novamente tentou cuidar dela, porém depois de algum tempo, a menina voltou para a casa da avó.

Onde estava seu pai biológico? Ela sabia que ele existia, apesar do distanciamento. Como toda criança ela queria ter crescido perto dele. Queria que ele acompanhasse o seu desenvolvimento.

Todos os anos no dia dos pais, Mirella esperava que seu pai aparecesse. Ela ansiava por uma abraço carinhoso. Ela tinha o padrasto, mas não gostava dele. O abraço do avô não substituía o abraço que ela esperava receber do seu pai.

Os cartões feitos na escola eram dados ao avô, quando na verdade a menina queria entregá-los ao seu pai.

Anos após anos, Mirella sentia inveja de suas amigas e até mesmo de suas irmãs por parte de mãe. Elas tinham a presença do pai e um abraço carinhoso a hora que quisessem.

Seu pai, assim como sua mãe, também formara outra família. Tinha outros filhos que ocupavam sua vida e recebiam seus abraços. Talvez por isso ele não sentisse falta da filha que deixou para trás.

Mirella passou toda a infância sem a presença dele. Na adolescência a ausência daquele homem, que fora importante na sua concepção, foi marcante. Ela sonhava passear de mãos dadas com o seu pai e tê-lo junto a si nas datas comemorativas, nos eventos escolares e no seu casamento.

Ela sabia que seus irmãos por parte de pai tinham tudo aquilo que ela desejava, aquilo que  nunca havia recebido dele. Para ela não havia sequer alguma migalha do amor paterno.

No dia do casamento, como todas as noivas, o sonho era ter o pai ao seu lado caminhando até o altar e entregando-a ao noivo.

Tudo não passou de um sonho. Seu pai não participou de nenhum momento importante da sua vida. Mas, ela continuava acreditando que um dia receberia o tal esperado abraço.

Depois que Mirella se tornou mãe pela primeira vez, de um belo menino, com o apoio do marido, um rapaz de coração puro e bondoso, resolveu dar uma chance ao pai.  Foram visitá-lo para que ele conhecesse o neto.

Mirella se apiedou do homem sofrido que encontrou, após anos de separação. Sentiu empatia por ele. Conheceu seus irmãos, adicionou-os em sua rede social.

A partir daquele dia começaram a manter contato. Falavam-se por telefone e a esperança de ter o amor do pai a encheu de esperança. Voltou a ser aquela menina carente do amor paterno.

Ele veio visitá-la, uma vez, antes do pequeno Arthur completar um ano de idade.

O tempo passou muito rápido, cada um levando a sua vida. As conversas telefônicas foram diminuindo. As mensagens foram rareando.

Pela segunda vez, Mirella se tornou mãe. Nasceu uma linda menina, a Manuela. Mais uma vez, ela sentiu necessidade da presença do pai. Queria que ele estivesse presente na vida dos netos como não esteve na sua.

Por mais duas vezes, ela e a família foram ao encontro do seu pai. A primeira para ele conhecer a neta e a segunda para estreitarem os laços. Seus filhos precisavam conhecer o avô e aprender a amá-lo.

Esse último encontro aconteceu em 2012. Dali em diante foram muitas promessas, por parte dele, de que viria visitá-los. A decepção aumentava a cada desilusão.

E a cada promessa não cumprida, depois que a neta começou a sentir a sua ausência, vinha o choro da menina. O neto, muito apegado aos avós paternos, ficava indiferente. Mirella, cansada das promessas, parou de se comunicar com ele.

Assim como ela cresceu sem o amor de pai, seus filhos teriam que crescer sem o amor do avô materno.

Este ano, ela soube que seu pai estava vindo todo final de semana para se encontrar com uma mulher.

No domingo de Páscoa, ela estava na casa da avó, sua segunda mãe, quando ele apareceu.

O neto o cumprimentou com educação e a neta o abraçou carinhosamente. Esqueceu das promessas não cumpridas. Todos os outros familiares o trataram bem. Porém, ela, a filha que por muito tempo esperou um abraço caloroso, uma declaração (tardia) de amor, percebeu que dentro dela não havia mais nenhum sentimento de ternura por ele.

Enquanto lavava a louça, lágrimas teimavam em escorrer do seus olhos. Sentia-se vazia. Ele despediu-se sem o abraço de desculpas pelo abandono, sem a promessa de que se faria presente na sua vida e na vida dos netos.

Ele tinha vindo, não por causa dela, mas por causa da namorada que arrumara. Agora não havia desculpas de falta de tempo ou outra desculpa qualquer. Ele estava vindo todo final de semana.

Onde estava o amor de pai e filha? Talvez ele não soubesse ou não tenha conseguido expressar seus sentimentos. Talvez ele tenha perdido a oportunidade de buscar uma reconciliação. De justificar seus erros.

E Mirella? Mesmo admitindo que não sente mais nada pelo pai, no fundo ela ainda espera por aquele abraço que tanto fez falta na sua infância e adolescência. Ela espera que ele a reconquiste aos poucos, que insista pelo seu perdão, que desperte em seu coração aquele amor que foi sufocado pelas mágoas.

Quando um homem se separa da esposa, ele não pode esquecer os filhos mesmo que forme outra família e tenha outros filhos. Não pode magoar os sentimentos de uma criança. Sempre é tempo para recomeçar, para se perdoar e ser perdoado.

As lágrimas secam nos olhos de Mirella assim como a esperança de um relacionamento normal entre pai e filha desaparece.

Aquele abraço que ela esperou a vida toda receberá um dia? Seu pai a conquistará novamente? Os laços serão reatados entre os dois? 

Obrigada pela visita e pelo comentário! 
Uma linda semana!!

                                                    Beijos,
                                                         Cidália.










domingo, 16 de abril de 2017

Passeio inesquecível



Uma semana antes da viagem comecei a organizar a mala e a providenciar as coisas que pretendia levar.

Não sou compulsiva, mas senti necessidade de comprar algumas roupas novas para a viagem. De vez em quando é bom renovar o guarda roupa e por que não nessa ocasião?

O grupo criado pela organizadora estava a mil! Todos os participantes eufóricos com a proximidade da data.

Desde que me aposentei é a quarta viagem que faço com as amigas. A terceira para o nordeste. Dessa vez eu ficaria num quarto com outras duas pela primeira vez. Uma conhecida e outra desconhecida. Das minhas companheiras apenas duas iriam e ficariam juntas.

Enfim, chegou o dia. Saímos de madrugada, mal dormi no ônibus até o aeroporto. Pegamos o avião às 8:45h e chegamos em Recife a tarde. Tomamos o ônibus com destino a Porto de Galinhas.













Assim que chegamos, fizemos o check in no resort e subimos para o quarto. Conheci a outra companheira de quarto e de cara simpatizei com ela. Acredito que foi recíproco. Ela sentou-se ao lado da minha conhecida no avião sem imaginar que ficariam juntas.

A primeira impressão que tivemos da vila e do resort não foi boa. Porém, ao entrarmos no quarto, abrirmos a porta da varanda e nos depararmos com a vista magnífica, mudamos de opinião.


Descemos e fomos explorar a redondeza. Eu e uma das companheiras fomos caminhar na praia. Tomei uma água de coco e ela uma cerveja. Curtimos, também, a área da piscina.

A noite nos preparamos para o jantar e em seguida pudemos prestigiar uma boa música ao vivo.

No dia seguinte acordamos cedo para o primeiro passeio, depois de um belo café da manhã. Fomos conhecer a praia dos Carneiros. Andamos de catamarã e nos divertimos muito com direito à música ao vivo. O povo estava super animado!



Meus olhos ficaram impressionados com tanta beleza. Quão bela é a natureza! Muitas vezes não nos damos conta do que temos a nossa volta.



Fizemos três passeios de bugue e conhecemos várias praias. Entre elas, a praia dos Carneiros, Muro Alto, Cupe, Maracaípe, Porto de  Galinhas, Xaréu e Calhetas. As  piscinas naturais, os peixinhos que vêm comer bem perto da gente, os arrecifes.


Teve mergulho, passeio de jangada e jet ski. Algumas amigas fizeram esses passeios. Preferi ficar de fora.



Ah, não posso esquecer dos artistas que demonstraram seu trabalho com palha de buriti ou pintura a dedo.

As noites passadas em Ipojuca, no resort, ficarão na memória. Para cada noite um tema (italiana, nordestina, espanhola, etc.) com direito à animação pela equipe responsável. Na noite do forró na varanda dançamos até quadrilha.

Aproveitamos  a piscina onde fizemos hidroginástica e tiramos muitas fotos.


Depois fomos ao Recife onde pudemos passear na feirinha local e tomar um chope bem gelado para matar a sede.




No dia seguinte saímos cedo para fazermos o tour pelo Recife antigo, praça do Marco Zero, onde tiramos fotos com a sombrinha do frevo e no letreiro da palavra RECIFE.



O guia contou a história da cidade, da colonização e sobre outras curiosidades. Nem todos prestaram atenção, queriam aproveitar para fotografar todos os momentos.

Visitamos a Casa dos Bonecos Gigantes, a Embaixada de Pernambuco com a apresentação da dança típica, o frevo.



Fomos à Casa da Cultura (antiga casa de detenção) com lojas de artesanato e comidas típicas.

Após o almoço, num restaurante caro, subimos a ladeira de São Francisco. Foi cansativo por causa do calor intenso, mas aguentamos corajosamente. Passamos pelo Convento e pela Capela de São Roque. Conhecemos a igreja da Sé.



Na volta, seguindo o tour panorâmico, passamos pela Praça da República onde se encontram o Palácio do Governo, o Teatro de Santa Isabel, o Palácio da Justiça.


Passamos na Cachaçaria Carvalheira onde houve explicação sobre o processo de fabricação e envelhecimento da cachaça.
No dia seguinte ainda deu tempo de irmos ao mercado livre para comprarmos algumas lembranças e de tirarmos fotos na praia de Boa Viagem, antes de nos prepararmos para a viagem de volta. Almoçamos num restaurante em frente ao hotel.


Foi um passeio maravilhoso e nem tive acesso a todas as fotos, ainda, porque uma amiga está organizando as fotos da câmera dela.
São lembranças que ficarão para sempre na memória, juntamente com as lembranças de Vitória, Salvador e Fortaleza.
Como disse minha nova amiga, não há remédio melhor que uma viagem!

Obrigada pela visita neste meu cantinho que, hoje, não trouxe nenhuma história ou reflexão, mas sim uma pequena narrativa sobre o passeio deste ano. Espero que tenham gostado.
Uma semana com muita paz no coração e repleta de amor!

Um abraço!
Cidália.

PS: estou atrasada, mas espero responder em breve todos os comentários.


domingo, 9 de abril de 2017

Respeito


Uma palavra tão significativa, mas que infelizmente, algumas pessoas não a conhecem. Todos sabem dos seus direitos e deveres. Seria tão bom se esses direitos e deveres fossem respeitados!

Dentro da minha casa posso fazer o que quero, a hora que bem entender? Posso chegar em casa à meia noite, ligar o som no último volume, numa noite de domingo e deixá-lo ligado até de madrugada?

E meus vizinhos, crianças e idosos que estão dormindo? Ou os vizinhos que levantam cedo para trabalhar, que têm compromisso e responsabilidades? Ah, eles que passem o dia bocejando, não me importo!

Este post traz uma reflexão sobre determinado tipo de pessoas, jovens inconsequentes e mal educados que não estão nem aí para os outros. 

Já nem penso mais no tipo de “música” que ouvem. Letras pornográficas, provavelmente, gravadas no fundo de algum quintal. O que me deixa preocupada é a falta de respeito com os vizinhos. Nem tanto por mim que posso acordar mais tarde, mas por àqueles que tem compromisso na manhã seguinte.

Muitos dirão que basta ligar para a polícia. A questão é que se todos respeitassem seus direitos e cumprissem seus deveres não haveria necessidade de intervenção policial.

Se o “fulano” quer ouvir porcaria pode ouvir a vontade, contanto que ouça no volume normal e dentro do horário que não incomode ninguém.

Quando digo porcaria, nem tenho coragem de postar trechos das barbaridades que são citadas nessas cantorias.

Na madrugada passada, o furdunço começou a uma e se estendeu até lá pelas quatro e meia. Dessa vez, além do som que parecia estar dentro de casa, ouvia-se vozes e xingamentos. Parece que o barraco foi feio.

Parecia que eu estava vivenciando a história de ficção escrita por mim, “A Casa ao Lado”. Pensei nas atitudes tomadas pelos personagens da trama de suspense. O que eu deveria fazer? Não, não ouvi nenhum tiro como na trama. Era apenas um quebra pau. Não sei se alguém chamou a polícia.

Continuei deitada, me virando na cama até que o barulho cessou e eu pude voltar a dormir.  Pensei nos outros vizinhos. Será que eles têm o sono pesado e não se incomodam com o barulho? 

Confesso que torci para que o aparelho de som pifasse e que não tivesse conserto. Ou que de repente esse ser se tocasse e tivesse um pouco de compaixão. Que respeitasse seus vizinhos, assim como algum dia deve ter respeitado seus pais.  


O que passa na cabeça de determinados jovens? Será que querem chamar a atenção? 

Gostaria de saber a sua opinião!

Obrigada pela visita!!

Uma semana abençoada a todos!

PS: Que todos possam ter tranquilidade para dormir a noite! Que a paz reine na sua vizinhança!

Abraços,

Cidália.






domingo, 2 de abril de 2017

Liberdade





Duas amigas que se comprometeram a visitar uma vez por mês, àquela que foi companheira de trabalho durante muitos anos, saem à rua protegidas pelas sombrinhas. O calor é intenso e o sol queima a pele. O protetor solar derrete no rosto por causa do suor.

Ao chegarem a encontram deitada no sofá assistindo um programa na TV. A porta estava entreaberta e elas entram fazendo brotar um sorriso naquele rosto cansado. Cansado? Sim, cansado da monotonia que se tornou a sua vida. E num de seus desabafos ela diz, olhando para as amigas.

- Eu só queria um pouco de liberdade. O meu direito de ir e vir sem dar satisfação a ninguém. O direito de escolher e comprar uma roupa nova, pintar meu cabelo, fazer as unhas e servir um café para vocês.

Então, as duas amigas que já tinham colocado o refrigerante e o bolo que levaram na geladeira, disseram a ela que não se preocupasse.

“Ela” comentou que no dia anterior, uma das filhas chamara a sua atenção, dizendo que ela precisava reagir, levantar do sofá, resgatar a sua vaidade e sair para visitar as amigas, caminhar, fazer alguma coisa.

Qual o dia da semana? Sua mente pregava-lhe algumas peças. Estava perdida. Às vezes, não lembrava se tinha almoçado. Pequenos esquecimentos como acontecem com todo mundo, independente da idade.

Contou que faz suas orações diariamente em casa já que não vai à igreja. Sabe de cor alguns Salmos.

Suas amigas perguntaram sobre a máquina de costura que ela sabia usar tão bem e no passado havia sido muito útil. Poderia ser um ótimo passatempo, além de ser lucrativo. Ela poderia fazer barras de calças ou confeccionar algumas roupas.

Ah, a velha máquina estava abandonada num canto qualquer da casa, desde o dia em que "ela" se formou e começou a trabalhar. Faltava uma peça, quem sabe tivesse conserto?

- Você leu o livro que sua vizinha te emprestou? – perguntou uma delas.
- Li e posso contar a história se vocês quiserem.

Outros assuntos surgiram e, de repente, "ela" disse que preferia estar morta, assim não estaria sofrendo.

- Não diga isso nem de brincadeira, você está muito bem, só precisa seguir os conselhos da sua filha. – disse a outra amiga.

Conversa vai, conversa vem, enquanto sentavam-se à mesa da cozinha, as amigas encheram-na de esperança.

"Ela" só precisa acreditar que ainda é capaz de tomar suas próprias decisões, de recuperar a sua dignidade e a sua auto estima. Precisa fazer alguma coisa que gosta para ocupar o tempo e se sentir útil.

Dentro dela ainda resta muito da pessoa que foi, um dia, antes de ouvir a palavra que passou a assombrá-la. Uma palavra que a assustou e a fez refém da solidão. Uma palavra que define a doença que ela afirma não ter mais. Alzheimer!


PS: A mente nos prega peça, muitas vezes, não importa a idade. É comum dizermos ou ouvirmos a frase, "esqueci de fazer tal coisa" ou trocarmos uma palavra ou o nome de alguém.
Mas, quando esses esquecimentos ou trocas passam a ser preocupantes? 

Se você gostou do texto deixe um comentário, pois sua visita é gratificante para mim. 

Muito obrigada!!

Desejo a você uma excelente semana!

Abraços,
Cidália.








domingo, 26 de março de 2017

15- Crime perfeito (fim da maldade)




O detetive seguiu as pistas que tinha e não descobriu nenhum sinal do escritor Cassiano. Parecia que ele havia evaporado. Procurou pelo nome falso que a Suzana lhe dera e nada. Deduziu que ele estava usando um terceiro nome. Sua foto foi espalhada nos aeroportos e rodoviárias. 

Sua conta bancária havia sido encerrada há semanas. Bem antes do corpo do Josias ser encontrado. 

As locadoras de automóveis estavam sendo investigadas. Numa das locadoras descobriram que ele alugara um carro para o interior de São Paulo, na ocasião da morte da faxineira. 

Que homem era aquele que, de um escritor famoso, passara a ser procurado como um criminoso? Um homem que durante muito tempo viveu na obscuridade, recolhido no seu mundo literário, agora era manchete em todos os noticiários? 

Nas redes sociais a notícia se espalhara rapidamente. Nos comentários a preocupação era a sempre a mesma.

- Quantas pessoas esse assassino matou?
- Se ele continua livre pode matar muita gente por aí.
- Coitado de quem atravessar seu caminho!
- Será que ele está procurando a Suzana, sua esposa?
- Eu não queria estar na pele da atual esposa.
- Se ele fez picadinho dá primeira vai fazer dessa também.
- A polícia precisa encontrar logo esse monstro.
- O mundo está perdido, não se pode confiar em mais ninguém.
- Quem diria, um escritor como ele se tornar um homem sem escrúpulos!
- Será que foi ele que matou os sogros? - alguém tinha lido uma matéria sobre a atual esposa do Cassiano, a Suzana, onde ela comentara que os pais haviam morrido após sofrer um acidente de carro. O acidente tinha ocorrido pouco tempo depois que ela levara o escritor para conhecê-los.

Ao ler aquele comentário no computador da pensão, Suzana ficou petrificada. Ela não pensara na morte dos pais. Tentou lembrar os acontecimentos daquele dia. 

Na volta da fazenda, eles conversaram muito pouco. Ele cochilou durante a viagem, enquanto ela dirigia. Ela o deixou em casa e foi para o trabalho. No final do dia recebera a notícia do acidente.

Estava atordoada com essas notícias e com os comentários maldosos. Não queria acreditar que o companheiro gentil e amoroso era o protagonista do noticiário da TV, internet e jornal impresso. Desligou o computador e foi dormir.

Cassiano chegou à rodoviária de São Paulo e pegou um ônibus para o interior. O movimento de pessoas que iam de um lado para outro era intenso. Ninguém reparou num padre que caminhava entre a multidão. Ele ficaria na cidade vizinha àquela onde morou por tanto tempo e onde a Suzana estava.

O escritor estava confiante, sabia que a polícia era vagarosa. Se hospedaria  num motel de beira de estrada, conhecia bem o lugar, já passara por ali. Certamente, o dono estranharia a presença de um padre no motel, então antes de chegar, ele tirou a batina. 

Daria um jeito de ir atrás da Suzana. Provavelmente ela estava na mesma pensão onde o Josias ficara. Não tinha nenhum hotel na cidade. Apesar de viver recluso, ele conhecia o lugar onde morara por tanto tempo.

Ao chegar e pedir um quarto a adrenalina estava a mil. Não via a hora de rever sua esposa. Pensou em dar uma volta, no dia seguinte, pelas redondezas da pensão. Ele estava com a aparência bem diferente das fotos espalhadas para a sua captura. Andaria de ônibus, assim não seria notado entre os passageiros. Se alguém puxasse assunto, faria um sinal, para mostrar que era surdo mudo.

A partir do dia seguinte ele começou a sair cedo e pegar o ônibus num ponto próximo. Criou uma rotina. Andava pela cidade onde morara, distraidamente, sem parar em nenhum lugar específico. Seus olhos procuravam a Suzana. Tinha esperança de vê-la por ali. Imaginara que ela estaria se sentindo mais segura ali do que numa de suas casas no sul do país.

Ele poderia ter ido para algum outro lugar e viver tranquilo, a polícia jamais o encontraria, mas precisava conversar com a Suzana. Tinham contas a acertar. Ele queria que ela o acompanhasse. Ela poderia vender seus bens e os dois comprariam uma casa no norte ou nordeste. Se ela o amasse acreditaria nele, na sua versão.

Para não chamar a atenção de ninguém na rua ele usava algumas estratégias. Uma delas era sentar na praça com um jornal na mão. Fingia que lia enquanto observava os arredores. Quem é que iria reparar aquele homem comum, de aparência insignificante? Outra estratégia, além do horário diferente, era mudar os lugares por onde caminhava. 

Numa dessas caminhadas em que ele parecia um andarilho, viu a Suzana saindo da pensão em direção à praça. Ela estava sozinha. Saíra para comprar algumas roupas já que pretendia continuar ali por mais algum tempo. A Nair não pôde acompanhá-la, apesar de ter garantido que tomaria conta dela.

Era um horário de pouco movimento, após o almoço. Ele a seguiu de longe, disfarçadamente. Quando ela estava a uma quadra da loja e bem afastada da pensão, ele se aproximou dela, às suas costas e falou:

- Estou armado, não olhe para trás e nem ouse gritar. Continue andando até o ponto do ônibus. Assim que o ônibus parar, você vai entrar e comprar a passagem até a cidade vizinha. Sentarei ao seu lado e vamos descer juntos, entendeu? 

Ao reconhecer a voz, Suzana tremia dos pés à cabeça. Teria que obedecê-lo, senão ele poderia atirar nela e em qualquer pessoa que se aproximasse.

Ela seguiu adiante e ele encostou nela. Será que ninguém tinha reparado neles? Com o coração disparado, Suzana chegou no ponto que estava vazio aquela hora do dia. Onde estava a proteção que o delegado havia prometido? 

Mal sabia ela que um policial a seguia, discretamente, a paisana. Assim que o ônibus encostou, Cassiano a empurrou delicadamente para dentro e sentou-se ao seu lado. O policial entrou e sentou logo atrás. 

Quando o ônibus se aproximou do motel, o escritor deu sinal e conduziu a Suzana para a porta de saída. O policial desceu na parada seguinte depois de ligar pedindo reforço. 

No quarto, Cassiano a jogou sobre a cama. Suzana, com as mãos trêmulas tentou se defender acertando a bolsa no rosto dele.

- Fique quieta e me escute. Não quero te machucar, quero apenas que você acredite em mim. Não sou o monstro que estão pintando.
- Se você é inocente porque está fugindo? A polícia quer apenas ouvi-lo. 
- Tenho acompanhado o noticiário, minha querida. Sei que a polícia está me acusando da morte do meu agente. O que aconteceu foi um acidente, não tive a intenção de matá-lo.
- E a sua esposa, também foi um acidente? 
- Sim, eu não pretendia matá-la, foi ela quem começou a discussão.
- Quem mais você matou sem querer?
- Eu estou com saudades de você, dos seus beijos. Esqueça esses casos para seu próprio bem. Vamos fugir juntos. 
- E meus pais, você tem alguma coisa com a morte deles? E aquela mulher que trabalhou na sua casa? Você a matou?
- Seu pai não foi com a minha cara, estava na hora dele sair de cena e sua mãe o acompanhou como uma boa esposa.
- Então você admite que os matou? Meu Deus! Quem é você, afinal?
- Aquela faxineira estava bisbilhotando a minha vida. Teve o que procurou. Ela foi responsável pelo que aconteceu a ela.
- Você é muito mal, como pode carregar tanto ódio dentro do coração?
- Querida, já disse que não quero machucá-la. Pare de me acusar. Aquelas pessoas pediram para morrer. Não faça como eles. Não tenho nenhuma arma comigo, menti quando falei que estava armado.
- Tenho nojo de você. Não quero compactuar com tanta maldade. 
- Sinto muito, queira ou não, você vai ficar comigo. Vou trancá-la no banheiro e amanhã iremos embora para bem longe daqui. Se não fizer o que quero irá se arrepender. 

De repente, vozes alteradas ao lado de fora do quarto deixaram Cassiano em alerta. Ele agarrou o braço da Suzana no momento em que a porta foi aberta. O gerente do motel abriu a porta com a chave reserva.

Os policiais entraram e vendo que o escritor estava desarmado partiram para cima dele e o renderam. No instante em que um dos policiais ia algemá-lo, ele agiu com rapidez, tirou a arma do policial e deu um tiro no céu da boca.

Acabou ali, naquele quarto de motel, a vida do homem que ao invés de aproveitar a fama pelas obras desenvolvidas ao longo da carreira, optou pelo crime. Ele preferiu tirar a própria vida a ter que pagar pelos erros cometidos.

Suzana, desolada com aquela cena que ficaria gravada em sua memória para sempre, tomou a decisão de vender a fazenda e a casa da cidade. Não quis voltar a morar no sul do país. Ela comprou a casa onde o Cassiano morou com a Belinda e doou para a prefeitura. Ali seria aberta uma biblioteca. 

Apesar da decepção amorosa, guardaria na lembrança os bons momentos que tivera com o escritor. A Nair, agora sua amiga, a convidou para ser sua sócia. A pensão seria transformada numa pousada. 

O movimento da cidade aumentou. Os curiosos queriam saber os detalhes daqueles crimes sórdidos.

                                                                   Fim

Chegou ao fim a história do Cassiano! Deixe a sua opinião sobre a atitude tomada por ele no momento em que seria preso.



Obrigada pela visita!

 Abraços e uma ótima semana!!
   Cidália.

Segue os links dos capítulos anteriores:

1- http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/11/crime-perfeito.h…


14- http://contosdacabana.blogspot.com.br/…/14-crime-perfeito-i…


sexta-feira, 17 de março de 2017

Crime perfeito (interação)





Sei que prometi que publicaria o último capítulo desta história (Crime perfeito), no próximo domingo, dia 19.

Mas, de repente, tive a ideia de fazer um post diferente. Ficarei off na semana que vem, pois viajarei amanhã numa excursão. Postarei futuramente as fotos da viagem.

Peço desculpas pelo atraso nas respostas dos comentários, em breve colocarei tudo em dia.

Muitos leitores acompanharam a história do escritor Cassiano que se transformou num vil assassino. Ele matou sem querer a esposa, mas o que fez em seguida foi desumano. Esquartejou seu corpo e o jogou no rio, dentro de uma mala. O ciúme não era motivo para um crime bárbaro.

Em seguida, matou seus sogros, os pais da atual esposa. Mexeu no carro do casal provocando assim um acidente no trânsito. A troco do quê uma maldade como essa?

Como se bastasse, ao descobrir que a faxineira que trabalhara na sua casa estava bisbilhotando sua vida, tirou-a do caminho, matando-a sem piedade. Nada justifica a morte desnecessária de uma mulher trabalhadeira, mãe de família.

E o que fez com seu agente, que o considerava um amigo foi mais cruel ainda. Esfaqueou-o e enterrou o corpo na casa da sua esposa. Quem precisa de inimigo com um "amigo" como esse Cassiano?

Até onde vai a maldade desse homem? Ele se vingará da Suzana, sua mulher, por tê-lo abandonado no navio durante um cruzeiro? Ou ele a ama de verdade e não terá coragem para lhe fazer mal?

A polícia descobrirá seu esconderijo? Qual a pena que ele merece? Se você fosse um juiz, qual seria o veredito? A única prova contra ele é o corpo do Josias enterrado no quintal da casa da Suzana, a esposa do escritor. Quanto aos outros crimes, não há provas, apenas suspeitas. Ele precisa confessar a sua culpa.

Gostaria de saber a opinião de cada leitor para saber se alguma coincide com o final que escrevi.

Sua participação é importante para mim! Até mais!!
Obrigada pelo apoio e incentivo!!


Abraços,
Cidália.


domingo, 12 de março de 2017

14- Crime perfeito (incertezas)




Quanto a morte da faxineira, a suspeita havia sido suicídio. Nada podia ligar o Cassiano àquela morte. Apenas o fato dele ter viajado na ocasião e ficado uns dias fora. A não ser que depois do caso reaberto, durante a investigação, encontrassem uma testemunha que o vira na cidade. Ou descobrissem através da locadora de automóveis para onde o escritor tinha viajado. 

O fato do Josias ter ido se encontrar com um amigo não queria dizer que o amigo fosse o Cassiano. Havia outras possibilidades. Nenhum corpo fora encontrado, ele poderia ter conhecido alguém pela internet e marcado um encontro às escuras. O depoimento do escritor seria esclarecedor ao apresentar a data que vira ou conversara com seu agente pela última vez.

O delegado não via a hora de solucionar aqueles casos para poder pensar na aposentadoria. O detetive designado para encontrar o escritor estava no seu encalço. Viajou para o sul do país e com a ajuda da polícia local começou a procura do meliante pela fazenda da Suzana. Era um bom esconderijo. A essa altura, supôs o detetive, o escritor devia saber que estavam procurando por ele.

A notícia estava na internet e em vários jornais. Apesar do nome dele não ter sido citado como suspeito, se ele era culpado, certamente pensaria em fugir.
A casa da fazenda estava trancada e não havia nenhum sinal de vida por ali. Até as plantas da varanda estavam secas. 

O segundo endereço passado pela Suzana era a casa da cidade. O detetive se informou com a vizinhança e ficou sabendo que o escritor esteve na casa por dois dias, depois sumiu. Como o detetive estava com a cópia da chave da Suzana, entrou para procurar alguma pista do seu paradeiro. Saindo para o quintal dos fundos, observou uma pequena elevação de terra sob um vaso. O instinto fez com que ele pegasse uma pá que estava  num canto da casa e verificasse aquele monte. Tirou o vaso e arregaçou as mangas. 

De repente, a pá tocou em algo. Não era terra. Parecia cabelo. O detetive ligou para a polícia local e pediu ajuda. Suas pernas estavam trêmulas. Mesmo acostumado a lidar com todo tipo de crime, quando se deparava com algo daquele tipo, ficava horrorizado.

Assim que chegou o reforço policial o buraco foi totalmente aberto. O buraco não era tão profundo, um corpo de homem jazia, sentado, com seus pertences. Pelos documentos o corpo foi facilmente identificado. 

As providências foram tomadas, a remoção do corpo, o encaminhamento para o IML. O detetive ligou para o delegado e o colocou a par de tudo. A busca pelo escritor tornou-se prioridade. O corpo do Josias, ali, naquela casa era a prova de que precisavam. 

O Cassiano jamais imaginou, talvez, que a Suzana se voltaria contra ele. Sequer pensou que um dia ela desconfiaria dele. Ao enterrar o corpo naquele quintal ele assinou a sua sentença. 

O delegado entrou em contato com a Suzana para lhe dar a notícia.
- D. Suzana preciso que a senhora compareça aqui imediatamente. 
- O senhor tem alguma novidade?
- Sim, quero que saiba por mim, antes que a notícia se espalhe.
- Já estou de saída, até daqui a pouco!

Dona Nair ficou curiosa, ao atender o telefone e largou o que estava fazendo para acompanhar a Suzana.

Ao chegarem à delegacia foram encaminhadas à sala do delegado.
- Sentem-se senhoras, a notícia que tenho não é boa e interessa a ambas.
- Estamos curiosas, senhor. - Suzana falou pelas duas.
- Infelizmente, dona Nair, a sua procura pelo seu hóspede chegou ao fim. O corpo dele foi encontrado no quintal da sua casa da cidade, dona Suzana.

Aquela notícia pegou as duas de surpresa e elas se olharam ao mesmo tempo que se davam as mãos. O olhar de d. Nair era uma mistura de espanto e tristeza, enquanto o olhar da Suzana era de pavor. Ela não podia acreditar que o homem que estivera ao seu lado por algum tempo, que a acariciara tantas vezes, tivesse matado uma pessoa. Quem era o verdadeiro Cassiano? Um vil assassino? Uma pessoa má, sem coração? Alguém capaz de matar seu agente, um amigo?

As duas saíram dali abraçadas. Apesar do pouco tempo que se conheciam, aquele momento as uniu fazendo com que uma amparasse a outra. A tristeza e a dor eram os elos da união.

- Moça, a d. Nair gostava de chamá-la assim - você não pode voltar para lá antes que a polícia o encontre.
- E se ele descobrir que estou aqui? 
- Não vou deixar que você saia sozinha por aí. 
- A senhora está pensando o mesmo que eu? Se ele foi capaz de matar o amigo, pode ter matado e esquartejado a primeira mulher.
- Ai, meu Deus! Só falta ele ter matado a Rosa, também. Coitada!
- Será que ele matou mais alguém que não sabemos? - dúvidas surgiram na cabeça da Suzana.
- Por que ele mataria a Rosa? O que ela fez pra ele? - d. Nair não sabia mais o que pensar.
- O dono da banca me contou que ela ficou preocupada quando viu uma foto do Cassiano comigo numa revista. Ela não teve mais notícia da ex patroa, deve ter ficado curiosa.

Chegando na pensão, dona Nair providenciou um chá de cidreira para as duas. Precisavam digerir aquela notícia tenebrosa. O choro entalado na garganta, cada uma por um motivo. Para Nair, era o fim de um relacionamento que prometia um belo futuro. Para Suzana, era o fim de um sonho. O sonho de ter encontrado o homem ideal, o amor  verdadeiro.

A notícia sobre o corpo do Josias saiu na internet com todos os detalhes. Cassiano, hospedado na pousada, leu a notícia e descobriu onde a Suzana estava. Ficou sabendo que foi ela quem deu a cópia da chave para que o detetive revistasse a casa. Que a polícia estava no seu encalço, qualquer deslize e ele seria pego.

O escritor fechou a conta, pediu um táxi e ao sair da pousada colocou o óculos de grau, falso. Ele usava lentes por causa das miopia. Ao descer na rodoviária, colocou a batina e um boné discreto.

Comprou uma passagem para São Paulo. De lá pegaria o ônibus para o interior. Agora já sabia onde a Suzana estava.  Durante a longa viagem pensaria no que faria.  Pensou até em brincar de gato e rato com a polícia. A brincadeira seria divertida. 



Até onde vai a insolência do Cassiano?  Será que nada o deterá de suas perversidades?
A história, enfim, está chegando na reta final!! No próximo domingo publicarei o último capítulo. Aguardem!!

Sua visita me deixa muito feliz! Obrigada a todos pelo apoio!!
Beijos,
Cidália.

Quem quiser acompanhar a história desde o início segue os links na ordem: