quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Coração roubado



Cirilo era um homem de meia idade sem perspectiva nenhuma. Passara a vida cometendo furtos para sobreviver. Já havia cumprido pena, mas como não tinha profissão e nem vontade de trabalhar, voltara a viver de maneira errada.
Ele não tinha família, perdera os pais quando era moleque e vivera grande parte da sua vida num abrigo. Quando aparecia algum casal interessado na adoção, preferia sempre os bebês. Por isso ele crescera carregando consigo, certa revolta. Não conhecera os avós e nem sabia nada sobre os tios. Era sozinho no mundo.
Depois que saiu do abrigo, perambulou pelas ruas por muito tempo e acabou se metendo com o que não devia. Se envolveu com uma quadrilha que praticava roubos de carros, assaltos a Bancos e às residências. Foi pego em flagrante num desses assaltos que resultara na morte de um idoso e condenado a quinze anos de prisão. Viveu dias terríveis na penitenciária, passou maus pedaços até que acabou se enturmando com os outros presos.
Quando cumpriu a pena voltou a morar nas ruas e a cometer pequenos furtos. Roubava comida nos mercados ou frutas nas feiras. Depois, recomeçou com os assaltos às residências. E foi num desses assaltos que conheceu Anita, uma jovem desenganada pelos médicos que esperava a sua hora no conforto do seu quarto. Assim que a viu sentiu compaixão por aquela moça pálida e desnutrida deitada na cama, assistindo um filme romântico.
A casa estava em silêncio, os pais dela, dormiam no andar de cima. Cirilo não teve coragem de cometer nenhum furto. Ficou horas olhando e admirando aquela moça. Quando ela desligou a TV e colocou o controle sobre a mesa de cabeceira e se ajeitou para dormir, ele foi embora. Durante as noites seguintes Cirilo voltou, apenas, para sentir a presença daquela mocinha. Perto dela ele sentia-se protetor e imaginava que nada de ruim aconteceria a ela. 
Na quinta noite ele notou que a televisão estava desligada e a moça estava gemendo. Pensou em como os pais dela tinham o sono pesado. Aproximou-se da cama e viu que ela estava febril. Foi ao banheiro, pegou uma toalhinha úmida e passou horas cuidando dela. Só foi embora quando viu que a febre havia passado.
No dia seguinte, quando os pais entraram no quarto para vê-la, ela contou que sonhara com um anjo. Estava sentindo-se bem e chegou a se alimentar melhor.  Quis dar uma volta pelo jardim para tomar um pouco de sol. Seus pais estranharam a sua alegria, pois, desde que fora diagnosticada com leucemia, ela piorava progressivamente.
A partir daquele dia Cirilo passava horas no quarto da Anita. Começou a ler para ela um livro que estava sobre o criado mudo. A cada dia lia algumas páginas. Sabia que ela estava dormindo, mas que sua voz era absorvida pelo cérebro dela. Para ele era como se tivesse cuidando da sua filha. Sentia por ela um amor profundo, inexplicável.
Sem imaginar o que acontecia enquanto dormia, Anita continuava acordando com a sensação de que sonhara com um anjo. Seus pais temiam que seu fim estivesse próximo, pois tinham ouvido falar que pouco antes de falecer o doente tinha uma melhora.
Se Anita soubesse que na verdade o anjo não era ele e sim ela! Desde o dia que a conheceu Cirilo não sentiu mais vontade de roubar. Começou a trabalhar no lixão, juntando os materiais recicláveis para sobreviver. Quando conseguiu juntar dinheiro comprou roupas novas e foi morar numa pensão. Nem parecia o mesmo homem.
Mas, ele precisava saber qual era a doença que afligia aquela bela moça. Resolveu, então, fazer uma visita a família e se apresentou como jardineiro em busca de trabalho. O pai da Anita, seu Carlos simpatizou com Cirilo e o contratou sem ao menos pedir referência; era do tempo em que os olhos da pessoa diziam muito sobre seu caráter.
No início, dona Zuleica ficou preocupada em ter um estranho trabalhando em casa, porém, acabou aceitando a decisão do marido.
Quando chegou para começar o serviço, no dia seguinte, Cirilo viu a moça tomando sol, sentada no jardim. Ela estava com a mãe e as duas estavam concentradas na leitura. Não o viram se aproximar.
- Bom dia senhora, bom dia senhorita!
- Bom dia! Respondeu, dona Zuleica, sem ao menos levantar os olhos.
Anita não respondeu, mas teve uma leve sensação de conhecer aquela voz. Levantou a cabeça e teve certeza de que nunca tinha visto aquele homem. Cirilo foi cuidar das plantas. 
Na calada das noites, ele continuava visitando o quarto da jovem e lendo para ela.
Nos dias seguintes, Anita continuou cada vez mais esperta. Numa certa manhã, quando chegou ao jardim foi conversar com Cirilo. Os pais haviam saído e ela ficara com a diarista.
- Bom dia, senhor! Gostaria que colhesse algumas rosas para enfeitar o meu quarto.
- Bom dia, senhorita...?
- Meu nome é Anita.
- Pode deixar senhorita Anita, vou colher as rosas mais bonitas do jardim.
- Obrigada senhor...?
- Meu nome é Cirilo.
Anita agradeceu mais uma vez e foi sentar-se para ler. Era seu passatempo preferido. Agora que se sentia melhor, gostava de ficar no jardim lendo ou admirando as flores enquanto ouvia o canto dos pássaros.
Certo dia, Cirilo ouviu sem querer uma conversa entre dona Zuleica e seu Carlos, quando levava as flores que a patroa havia pedido. Ficou sabendo, enfim, sobre a doença da Anita. Pensou numa maneira de ajudá-la. Já tinha ouvido sobre transplante de medula, será que os pais dela já tinham tentado? 
A conversa que ouviu acompanhou-o por todo o dia e no final da tarde, antes de ir embora, interrogou o pai da moça. Seu Carlos disse que ela estava na fila para receber o transplante.
A partir daquela informação Cirilo, a caminho da pensão, entrou numa igreja pela primeira vez e rezou. Pediu a Deus pela vida daquela jovem a quem se afeiçoara. Quando entrou no quarto dela, naquela noite, em vez de ler fez mais uma oração.
Na manhã seguinte, ao chegar para o trabalho, soube pela diarista que Anita havia passado mal, quando sua mãe entrou no quarto com o desjejum. Ela ficara internada para observação. 
Seu Carlos e dona Zuleica se casaram com mais de vinte e cinco anos e a tiveram muito tempo depois. Ela era filha única e como os dois estavam aposentados tinham muito tempo para cuidar dela.
Cirilo ficou desesperado, a princípio, mas depois começou a rezar enquanto fazia seu trabalho. Tinha fé que Anita se recuperaria. 
Naquela noite foi visitá-la no hospital. Ofereceu-se para ficar com ela, porém, foi descartado, porque não era da família. Os pais dela ficaram sensibilizados com a atitude daquele homem tão simples.
No segundo dia, receberam a notícia de que os médicos tentariam um novo tratamento. 
Animado com a notícia, Cirilo quis fazer o exame de compatibilidade, para saber se poderia ser o doador da medula. Quando saiu o resultado ficou muito feliz, Deus ouviu as suas preces, ele seria o doador. Os pais da Anita voltaram a ter esperança.
Meses depois, após os procedimentos serem tomados, a alegria voltou a reinar naquela família. Anita estava reagindo bem, até mesmo os médicos que a haviam desenganado, ficaram surpresos com a recuperação da moça. Era um milagre! Cirilo agradecia a Deus todos os dias. Seu Carlos e a esposa quiseram recompensar Cirilo, mas ele não aceitou.
- A minha recompensa é ver que a moça Anita está bem.
O tempo passou e ele continuou trabalhando como jardineiro. Gostava de ver Anita passeando no jardim. Já não entrava mais no quarto dela durante a noite. Uma manhã ouviu a conversa entre ela e a mãe quando passavam por ele.
- Sabe mãe, nunca mais sonhei com aquele anjo.
- Era seu anjo da guarda, filha, que estava te protegendo.
- A voz dele era parecida com a voz do Cirilo.
- O Cirilo também é um anjo, querida! Graças a Deus e a ele você está curada.
Muitas vezes as pessoas não entendem os desígnios de Deus. Aquele homem era um ladrão e havia entrado naquela casa para roubar e foi ele quem teve o seu coração roubado! 
Anita jamais saberia, seria um amor platônico. Para ele bastava vê-la saudável. Sabia que um dia ela encontraria alguém da sua idade por quem se apaixonaria. O carinho e o respeito que ela tinha por ele, era suficiente. 
E ele seria eternamente grato àquela moça que, sem saber, transformara-o numa pessoa do bem.

14 comentários:

  1. Esse é o verdadeiro amor ,linda e comovente história ,parabéns a escritora

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    1. Obrigada Cleuza, sua opinião é muito importante para mim. Bjos!

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  2. Cada história uma emoção!! Simplesmente maravilhosa!

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    1. Fico feliz que esteja gostando das histórias, Tânia. Obrigada!

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  3. Incrível sua mente imaginar tal história e você saber passar para o papel, com tanta maestria!

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    1. Obrigada Vera, às vezes estou sozinha e a história surge na minha mente. Então procuro escrevê-la da melhor forma possível.

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  4. ... É sempre bom chegar aqui e ler as tuas histórias,
    continua, estou adorando ... !!

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    1. Obrigada Jonh! É muito bom saber que VC está gostando das minhas histórias.

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  5. Quanta emoção!! Coração chegou a acelerar! Tem muito talento!! 😘

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  6. Bossa que emocionante, estou emocionada aqui. Essa moça salvou a vida dele.
    Uma benção

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  7. Lindíssima a história de amor! Fiquei emocionada lendo.

    Bjs!!

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    1. Um amor platônico, puro e sincero.
      Obrigada, Raquel, que bom que você gostou!
      Beijos.

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