segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sonho perdido



Era noite de verão e Sônia, sozinha em casa, olhava pela janela a chuva torrencial que caía. Enquanto a água inundava as ruas, ela mergulhava nas suas lembranças.
Riu pensando na moleca que foi, na infância feliz que teve, apesar da sua família ter passado por maus pedaços. Pensou nas pequenas aventuras da adolescência, nas paqueras, nos namoros mais sérios e no seu casamento.
Viveu anos felizes com o esposo e o casal de filhos até que começaram a surgir as  dificuldades da vida. Enfrentou muita coisa ruim, sempre de cabeça erguida, fazendo o impossível para que os filhos fossem preservados.
Aos quarenta e um anos de idade, deu um basta no sofrimento. Era nova ainda e logo depois de sair de um casamento infeliz, resolveu encarar mais um relacionamento. Sentia que tinha o direito de tentar mais uma vez. Necessitava de uma nova chance para ser feliz! Ela estava divorciada, com os filhos criados, cada um vivendo a sua vida. Por que não tentar de novo?
Só que desta vez era um relacionamento maduro, com respeito e muito amor. Tudo que precisava naquele momento. A paixão por aquele homem foi instantânea. Seu perfume, sua gentileza, sua educação e seu jeitinho elegante de se vestir, serviram para que Sônia tivesse esperança de recomeçar uma nova vida e ser muito feliz.
Então, ela resolveu viver com ele, ser sua companheira. Mas, o destino, muitas vezes prega algumas peças e fez com que, mais uma vez ela se tornasse esposa de um empresário. Assim começou a trabalhar com ele, encarando as dificuldades do dia a dia, porque a empresa estava atravessando por um período de turbulência.
Sônia, mulher decidida e trabalhadeira, tomou seu posto e foi à luta. Saíam e voltavam juntos todos os dias. Eles moravam numa chácara, um lugar muito gostoso. A felicidade irradiava seu lar e apesar da diferença de idade, dezessete anos, eles se davam muito bem. Muitas vezes foi surpreendida por ele. Ailton gostava de lhe fazer surpresas, com pétalas de rosas pela casa ou com a mesa posta, lindamente, aguardando-a sair do banho.
Talvez por ser um homem maduro, com experiência de vida e um passado de sofrimento, às vezes tinha um comportamento brutal com os funcionários. Se bem que o sofrimento não era desculpa, afinal, sua vida também, não havia sido um mar de rosas.
Nesses momentos Sônia ficava muito triste. As lembranças ruins voltavam a sua mente. Essas recordações ainda a machucavam muito e temia passar por tudo novamente.
Ao mesmo tempo procurava não pensar naquilo, até porque, Ailton era muito diferente do seu ex-marido, não tinha hábito de beber nada alcoólico. Então, vinha o alívio e ela tentava tirar da cabeça aqueles pensamentos.
Com o passar do tempo, sua filha ficou um tempo morando com eles, até resolver seu casamento e ir embora para fora do país. Em seguida, seu filho mais novo precisou ficar um tempo morando com eles na chácara.
Sônia ficou imensamente feliz, ela amava cuidar dos filhos.  Só que ali começava seu pesadelo. Ailton começou a demonstrar ciúme, não admitia que ela ajudasse os filhos, principalmente o filho caçula. E na condição de mãe, Sônia jamais largaria seu filho, jamais o deixaria desamparado.
A tristeza invadiu seu coração, pois seu filho enfrentava ônibus todos os dias para ir ao trabalho e retornava altas horas, cansado. Ela esperava-o chegar para o jantar até que ele se recolhia para descansar. Fazia isso para que no outro dia ele estivesse bem para realizar seu trabalho. Ailton começou a implicar com o enteado. Sônia disfarçava e deixava a porta da cozinha aberta para que seu filho, que dormia no porão, pudesse entrar e comer alguma coisa antes de sair. O medo começou a perturbá-la. Já não tinha mais paz de espírito, era seu filho ou seu companheiro. Ao lado de quem ficaria?
Então aconteceu um fato desagradável, o caseiro fez um comentário e Ailton chamou o enteado e o expulsou da sua casa. Para Sônia foi uma dor muito forte, como se tivesse sido apunhalada no peito.
Nesse momento ela viu que seu filho era um homem forte e decidido. Arrumou suas coisas e foi morar numa pensão. Sônia, por sua vez continuou ajudando-o como podia.
A partir daquele dia ela começou a ver seu marido com outros olhos. O encanto que sentia por ele não era mais o mesmo, já há algum tempo. A falta de respeito da parte dele fizera seu amor enfraquecer.
Algum tempo se passou e tudo foi resolvido. Seu filho, um ser humano de sentimento nobre, não querendo ver a mãe triste pediu desculpas ao padrasto que também se  desculpou.
Para Sônia que estava com o coração partido a convivência se tornou difícil. No trabalho já não tinha mais a mesma vontade. Seu coração estava machucado.
Mas, continuou a vida como se nada tivesse acontecido. Cumpria suas obrigações como todos os funcionários. Apesar de tudo, ele era bom para ela, tratava-a muito bem. Amava-a muito.
E a vida seguiu seu curso, viajaram juntos a trabalho algumas vezes e Ailton conseguiu reconquistá-la. A chama do amor, que havia se apagado em seu coração, voltou a reacender, até o dia em que Deus o chamou. 
Sua morte foi estúpida, um atropelamento repentino e brutal. Sônia ficou sem chão, seu mundo desmoronou, foi uma perda irreparável. Ah, se ela pudesse apagar da sua memória aquela cena!
Ela o amou e apesar da decepção pela qual passou, sempre o respeitou. Viveu ao seu lado um sonho lindo que se foi! Acredita que  ele estará esperando-a quando sua hora chegar e que terão a eternidade para serem felizes. 
E conforme a chuva diminuía Sônia se preparava para dormir ouvindo a canção que escutavam juntos, “SONHO LINDO” (na voz de Roberto Carlos). Mas, a música não sai do rádio ou do cd e sim da sua mente, onde ela está e ficará gravada para sempre!
Amanhã será um novo dia e Sônia acordará pronta para vivê-lo ao lado dos filhos e netos e isso basta para encher o seu coração de alegria e amor. E como a esperança faz parte da vida, se tiver que aparecer uma outra pessoa, que seja alguém que saiba fazê-la feliz!

Colaboração de L.T.A.

6 comentários:

  1. Essa escritora Cidália, esta saindo muito bem com suas histórias. Acabo de viajar nessa narrativa!! Parabéns e continue assim!!

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    1. Que bom que gostou Tânia! Obrigada! Abraços.

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  2. Essa história me fez chorar ,existem muitas sonias que passaram momentos tristes e conseguiram um pouco de felicidade ,parabéns adorei .

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    1. Obrigada Cleuza! Terminei de escrever essa história ouvindo a música "Sonho lindo"!

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  3. Triste! Mas quantas coisas tristes acontecem nesse mundo! Boa narrativa, Dallica.

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    1. Muito triste mesmo Vera, obrigada pelo comentário!

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