quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Bullying

A garota chorava, sentada, no chão de seu quarto com uma lâmina na mão. Seus pulsos sangravam e havia diversos cortes nos mesmos. Por mais doloroso que parecia, para ela não era, pois, se cortar era um refúgio, o que a acalmava. Ela largou a lâmina e as lágrimas inundaram seu rosto. As vozes, as risadas e xingamentos voltaram a ecoar em sua cabeça. O que a menina mais queria era que tudo isso parasse. A cada minuto parecia ficar pior. Ela fechou os olhos com força, mas pareceu não funcionar. ”Gorda, bujão de gás, rolha de poço, baleia…” era o que vinha em sua cabeça juntamente com as risadas altas e maldosas.
Era segunda-feira, o dia em que tudo começava novamente e como sua mãe recebia bolsa família, ela não podia deixar de ir à escola. Então ela colocou seu uniforme, amarrou seu cabelo num rabo de cavalo, vestiu uma jaqueta para esconder os cortes e suspirou. Colocou sua mochila no ombro e correu percebendo que estava atrasada, infelizmente, o ônibus havia acabado de sair. Ela gritou para Luíza, sua única amiga, para que a garota pedisse ao motorista para esperá-la. Luíza que antes ria a olhou, e sem esboçar nenhuma expressão ficou calada, sem fazer o que sua amiga havia pedido. Então, Luana abaixou a cabeça e foi para a escola a pé. O problema é que sua escola era longe, mas pensando em seus pais a menina seguiu seu caminho sem parar.
Quando ela chegou não havia mais ninguém no corredor, todos já deveriam estar em suas devidas salas de aula. Luana guardou seu material no armário e foi para a sala, parou na porta chamando a atenção do professor e dos alunos, abaixou a cabeça e pediu licença.
— OLHA! A GORDA CHEGOU! – um dos meninos da sala gritou fazendo todos rirem. Luana suspirou e seguiu seu caminho para se sentar em seu lugar no fundo da sala. Porém, quando estava caminhando, um dos alunos colocou o pé na frente para que ela caísse. E assim aconteceu, Luana caiu, fazendo as gargalhadas ecoarem pela sala.
— Tão gorda que não consegue nem andar direito. – falou uma das meninas que estava em dupla com sua amiga Luíza. Seu olhar se encontrou com o dela que diferente das outras vezes não fez nada para defendê-la. E o que a surpreendeu, foi que Luíza, também, riu não se importando com a repreensão do professor.
Cansada, sentou-se em sua carteira suspirando, sabendo que novamente iria ser ofendida com diversos nomes durante o dia.
Mesmo estranhando o comportamento da sua amiga Luíza, a menina correu até ela para que as duas pudessem ficar juntas no recreio, como sempre. Ao vê-la sentada com um grupo de meninas que sempre maltratou as duas, ficou chocada. Mesmo assim, chamou a atenção das meninas que a olharam com uma sobrancelha arqueada, com uma cara nada boa. Luíza olhou para as novas amigas e abaixou a cabeça, sem olhar para Luana.
— Ei… Vamos andar juntas? – Luana perguntou à Luíza, que negou com a cabeça – Mas…
— Você não entendeu baleia? – uma das meninas disse – Ela não quer andar com uma gorda igual a você, agora saia. Você está atrapalhando todo o meu campo de visão.
— Luíza…? – Luana não desistiu.
— NÃO ESCUTOU? – Luíza levantou-se, encarando Luana – NÃO SOU MAIS SUA AMIGA, EU NÃO VOU ANDAR COM UMA GORDA, IGUAL A VOCÊ.
O grupo de meninas riu, tirando sarro dela. Luana encarou Luíza pela ultima vez, e as lágrimas ameaçaram a cair. Saiu correndo, ouvindo as gargalhadas que ecoavam nos seus ouvidos. Ela havia acabado de ser humilhada por sua única amiga. Que decepção!
Chegando a sua casa, Luana foi dar uma olhada na sua página, em uma rede social. Enquanto lia os comentários ofensivos em suas fotos e em todas as publicações, não parava de chorar. Tomou a decisão de mandar uma mensagem para Luíza, que depois de dois minutos foi respondida.
” Por que não somos mais amigas?” – Luana
” Porque eu não posso andar com uma perdedora igual a você! – Luíza.
” Mas você é minha única amiga… ” – Luana.
” Eu ERA… “Desculpe Luana, agora tenho novas amizades”. – Luíza.
” Por favor, não me abandone. ” – Luana
” Eu já te abandonei. Entenda Luana, conforme-se, a solidão sempre será sua única amiga. Você nunca terá amigos, porque ninguém gosta de você. Se você se matasse, ninguém iria sentir sua falta, porque você é insignificante. Agora, pare de me mandar mensagens, me esqueça. Saia da minha vida ” – Luíza.
Lendo isso, Luana ficou ainda mais arrasada e simplesmente escolheu desistir de tudo. Pegou uma filmadora e a posicionou de frente para ela. Antes de começar a falar, suspirou, lembrando-se de todas as coisas boas que havia vivido com seus pais que estavam sempre com ela, que cuidaram dela quando estava doente, do carinho e dos conselhos que havia recebido deles. Ela não sabia se era a decisão certa, mas assim que releu a mensagem de Luísa, chegou a uma conclusão. Ligou a filmadora e começou a falar.
”Olá, meu nome é Luana da Silva, moro em Brasilândia, e tenho 16 anos. Estou gravando isso, pois, não entendo porque me odeiam e me maltratam, porque não me aceitam como sou. Será que isso que fazem comigo faz se sentirem melhores? Isso os torna melhores? Realmente não entendo. O problema é meu peso? Minha condição financeira? Minha aparência? Vocês me julgam tanto, mas, nunca falaram comigo, nunca sequer perguntaram o que passo ou como estou me sentindo, vocês não me conhecem, só sabem meu nome. Eu não estou bem, todos os xingamentos me fazem mal, todas as vezes que me machucaram verbalmente e fisicamente… Tudo me faz mal. Então vou fazer o que sempre me pediram, irei sumir da vida de vocês.
Luana desligou a filmadora e recomeçou a chorar. Postou o vídeo e tomou uma decisão, a menina iria fazer o que haviam lhe pedido. Ela iria sumir da vida de todos, iria parar de incomodá-los… Ela iria desaparecer.
Naquela mesma noite Luana foi encontrada morta em seu quarto. Na sua mão direita havia um colar escrito… “melhores amigas”. “Era o colar que Luíza havia dado a ela quando eram menores, e na sua mão esquerda havia um papel escrito ‘‘Eu tentei…”
Luana havia se matado por causa do bullying, ela havia desistido, e agora o único sentimento que estava presente em Luíza e em todos que a fizeram sofrer, era o arrependimento.
”Muitos jovens cometem suicídio por causa de bullying, eles têm a mente fraca, se preocupam muito com a opinião alheia. Então se você está vendo isso não fique calado, denuncie, pois bullying é crime. “Não julgue ninguém por sua aparência, por seu peso ou por sua condição financeira, todos nós somos iguais”.
(Colaboração de Mari F.)

16 comentários:

  1. nem parece que perante Deus somos irmaos como pode um ser humano ter tanta maldade no coracao ,que esta historia sirva de licao ,parabens a escritora .

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    1. Pois é, infelizmente, existem pessoas más que se satisfazem com o sofrimento alheio.

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  2. Uma história corriqueira, infelizmente... Você escreveu bem as situações e o desfecho final co conto, tem acontecido muito na vida real. Suicídios de crianças ou jovens atormentados pelo maldito bullying...

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    1. Sim Vera, infelizmente! Muitos sofrem calados e outros não aguentam a pressão.

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  3. Infelizmente é a realidade de muitos jovens, na escola ganham apelidos, são motivos de brincadeiras e isso na adolescência é algo que pesa muito, por isso muitas vezes o desfecho é esse: o suicidio !

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    1. Sim, infelizmente é isso que acontece!!
      Obrigada pelo comentário!
      Beijos!!

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  4. O texto é incrível, forte como deveria ser, pois infelizmente esse desfecho é muito mais comum do que imaginamos. Que sirva de exemplo para os educadores e outros que veem situações parecidas e ignoram. parabéns.

    www.atraentemente.com.br

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    1. Muito obrigada pelo comentário e opinião!!

      Abraço!

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  5. Oi Cidália!!

    Gostei muito do texto, é forte e impactante. Infelizmente muitos adolescentes e jovens estão perdendo vidas por causa do bullying. É muito triste!

    http://raquelamandamakeup.blogspot.com.br

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    1. Oi, Raquel!!
      Sim, é uma triste realidade!
      Muito obrigada, beijos!!

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  6. Acho que esse é um assunto muito complicado por dois motivos, hoje as crianças estão mais maldosas e mais sensíveis que antigamente. Eu sou gorda, fui uma criança e adolescente gorda mas nunca sofri bullying. Eu não consigo entender a maldade na voz de uma criança de 4 anos chamando a outra de gorda, fico pensando de onde vem essa maldade toda.

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    1. Realmente é um assunto complicado! Na minha época, alguns colegas gostavam de zoar, mas eram brincadeiras, ninguém levava a sério. Eu ignorava. Hoje em dia, existe muita maldade gratuita.
      Obrigada pelo comentário, beijos!!

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  7. Lendo o seu conto, fico fazendo um paralelo entre as crianças de algumas decadas atras e atualmente, as coisas mudam muito. As crianças antigamente mesmo que passassem por casos assim se mostravam fortes, falo isto por que passei por isto tbm juntamente com outras crianças que passaram por esta etapa da vida e superaram, mesmo em pesquisa mostram crianças agiam como se fosse uma fase. So um reflexão, parabéns pela iniciativa que foi bem importante e educativo acho que poderia fazer alguma parceria com escola ou professora. Super beijo #Luma

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    1. Pois é, as coisas mudaram muito. Obrigada pelo comentário, gostei bastante da sua opinião.
      Super beijo,
      Cidália.

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  8. Que texto forte!! Mas muito bem escrito. E infelizmente é a realidade de muitos jovens. :/
    Vc é uma excelente escritora! Parabéns
    Beijão
    www.omundodalilica.blogspot.com.br

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    1. Muito obrigada pelo comentário e elogio!!

      Beijão!

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