quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Solidão

Dulcinéia saiu da casa dos pais, muito nova, deixando um bebê para eles cuidarem. Seus pais registraram a neta como filha e Dulcinéia passou parte da sua vida, vivendo na casa de parentes, trabalhando como doméstica. Era uma moça alegre e muito simpática.
Quando completou vinte e cinco anos, conheceu um homem bem mais velho que a pediu em casamento. A partir daquele dia, alugaram uma casa e foram morar juntos. Ela aprendeu a costurar e assim podia ajudá-lo com as despesas da casa. Ele ganhava pouco, era motorista de ônibus e uma ajuda extra era bem vinda.
Muitas vezes ela visitou a filha, que a tratava como irmã. Seus pais não a recebiam muito bem,  preocupados, pensando que Dulcinéia quisesse levar a menina com ela. Isso nunca havia passado pela sua cabeça, porque, seu marido não aceitaria a criança. Aliás, ele não sabia nada sobre essa menina. Quando viajava, dizia que ia visitar os pais e os irmãos. Ela tinha um irmão mais velho, além da menina que a chamava de mana.
Anos depois, seu marido faleceu num acidente e ela ficou sozinha. Conseguia se sustentar com seu trabalho e com a pensão que recebia pela morte do esposo. As visitas à família foram escasseando até que seus pais faleceram. Seu irmão foi morar no exterior e não deixou o endereço. Eles nunca tiveram um bom relacionamento.
A filha, que se tornara uma linda moça, se casou e perderam o contato. Afinal, a sua filha era sua irmã, de acordo com o registro de nascimento. O nome da Dulcinéia não era pronunciado dentro de casa.
Com a idade avançando, ela já não conseguia mais costurar. Conheceu um homem da sua idade, muito trabalhador que fazia qualquer tipo de trabalho. Convidou-o para morar com ela. Não estavam apaixonados, mas se davam bem, um cuidava do outro.
Dulcinéia começou a se sentir doente, enfraquecida e seu companheiro também estava ficando debilitado. Não tinham mais forças para cuidar da casa. Mal faziam a comida. Eram amparados por uma prima que, infelizmente, não tinha condições de se dedicar exclusivamente a eles.
O casal foi levado para o asilo, para que lá pudessem ter uma melhor assistência. Os funcionários cuidavam deles com carinho, mas, eles não se sentiam bem naquele lugar. Dulcinéia quase não falava sobre a família. Tornara-se uma pessoa triste. Vivia pelos cantos e nem mesmo com o seu companheiro queria conversar. Ali, os dois passaram a ser apenas meros conhecidos. O amor e a amizade, que, um dia, sentiram um pelo outro, ficaram para trás.
Dulcinéia pensava na filha que tivera e em como teria sido a sua vida se a tivesse criado, apesar das dificuldades. Ou se seus pais tivessem agido de outra forma, apoiando-a em vez de tê-la expulsado de casa e registrado a criança como se fosse filha deles. Com certeza, ela não estaria num asilo e sim ao lado da família, da filha e dos netos. Infelizmente, é impossível voltar no tempo e tudo o que resta a Dulcinéia é viver de lembranças e de algumas suposições. Quando ela se afastou da família os laços foram desfeitos. A solidão passou a fazer parte da sua vida.

14 comentários:

  1. è muito triste quando o arrependimento chega tarde demais ,linda e comovente historia .

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  2. Foi baseada em alguém que fez parte de nossas vidas, estou certa? Reconheci algumas partes...Muito cruel esse destino dela.

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    1. Sim, vc está certa. Pois é, muito cruel mesmo!

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  3. Nossa ... que texto mais triste. Vida difícil esta da Dulcinéia. Bateu até uma deprê.

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  4. Comovente! Dulcineia sofreu viu? Vida triste 😐

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  5. Nossa que texto tocante e emocionante! Que vida mais difícil sa Dulcineia. Vai entender os mistérios da vida!
    Beijos
    Lilica
    www.omundodalilica.blogspot.com.br

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    1. Pois é, Lilica! Às vezes a vida prega algumas peças nas pessoas.

      Obrigada!
      😘😘

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  6. Este conto é bem triste, vemos atualmente muitos casos parecidos com este. Infelizmente os laços familiares estão diminuindo por escolhas ou correrias dos tempo. Beijão #Luma

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    1. Sim, Luma! Muito triste que esteja acontecendo isso nas famílias.

      Obrigada

      😘😘

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