quinta-feira, 16 de abril de 2026

O encontro que não aconteceu

 

                                                             (foto copiada da internet)

Havia uma alegria silenciosa pairando sobre aquele domingo, o último do mês de março, que ainda nem tinha começado direito. Era o terceiro encontro do ano — e, como sempre, carregava consigo a expectativa de risadas fáceis, memórias revisitadas e novas histórias que, inevitavelmente, nasceriam à mesa.

Cada uma, à sua maneira, já havia se preparado. A roupa escolhida com um cuidado especial, o cabelo ajeitado, talvez um batom passado com a intenção de celebrar mais do que um simples almoço. Celebrar a amizade, o tempo, o fato de ainda estarem ali, juntas, apesar da vida — essa mesma vida que tantas vezes separa, atrasa, cansa.

Era domingo. Dia de pausa. Dia de encontro.

Mas a vida, às vezes, atravessa o caminho sem pedir licença.

Logo pela manhã, antes mesmo que o café terminasse de esfriar nas xícaras, chegou a mensagem. Não era uma mensagem qualquer. Era um áudio. E, no instante em que ouviram a voz da matriarca, algo já pareceu fora do lugar. Não havia o tom firme de sempre, nem a leveza habitual. Havia um peso — daqueles que não cabem nas palavras.

A voz vinha entrecortada, embargada por um choro que não pedia permissão para existir. A notícia caiu como um silêncio repentino: sua sobrinha havia falecido. Assim, de um instante para o outro, o domingo mudou de cor.

Não havia mais almoço. Não havia mais encontro.

Havia dor.

Ela iria ao velório. E isso bastava para que todas entendessem que aquele dia já não lhes pertencia mais. Sem precisar de muitas palavras, as seis amigas decidiram adiar. Não era apenas uma questão de respeito — era de sentimento. Porque, sem ela, nada seria igual. A cadeira vazia falaria mais alto que qualquer conversa.

A mesa no restaurante foi cancelada. Talvez alguém do outro lado da linha tenha achado que era só mais uma reserva desfeita. Mas não era. Era um encontro inteiro que deixava de existir. Era um pedaço da alegria que ficava suspenso no tempo, aguardando um outro dia, um outro mês, um outro momento que ainda não se sabia quando viria.

Porque há dias que simplesmente não são feitos para acontecer.

E, naquele domingo, o destino havia escrito outra história.

Cada uma seguiu o seu dia em silêncio, carregando um pouco da dor da outra, como só as verdadeiras amizades sabem fazer. Talvez tenham olhado para o relógio na hora em que estariam se encontrando. Talvez tenham imaginado a mesa posta, os pratos chegando, as gargalhadas ecoando. Talvez tenham sentido, juntas, a ausência que preenchia tudo.

A vida tem dessas interrupções bruscas, desses desvios inesperados. Ela nos lembra, sem delicadeza alguma, que nem sempre estamos no controle — e que, às vezes, o que nos resta é apenas acolher o que vem.

O encontro não aconteceu.

Mas a amizade, essa sim, permaneceu intacta. Talvez até mais forte. Porque, naquele dia, mesmo distantes, elas estiveram juntas — unidas não pela celebração, mas pela dor compartilhada.

E, no tempo certo, haverá outro domingo. Outra mesa. Outro encontro.

Mas aquele… aquele ficará para sempre guardado como o encontro que não aconteceu — e que, ainda assim, disse tanto.

 

 Obrigada pela visita,

Cidália.