As coisas nem
sempre saem do jeito que queremos.
Apesar de estarem aposentadas, algumas ainda têm responsabilidades, trabalhos
voluntários ou compromissos inadiáveis. Escolher uma data que seja boa para
todas não é uma tarefa simples.
No começo parecia fácil. Bastava sugerir um restaurante, escolher um dia qualquer e confirmar presença no grupo. Mas os dias foram ficando apertados, as agendas ganharam novos compromissos e o tempo, que antes parecia abundante, passou a escapar pelas frestas da rotina.
Duas tinham compromisso naquele dia. Outra não respondeu a mensagem. Havia também quem simplesmente estivesse cansada demais para sair de casa depois de uma semana cheia de pequenas obrigações invisíveis aos olhos dos outros. Nos dias seguintes uma delas já tinha se comprometido com a igreja.
A impressão que fica é que aquelas que estão mais disponíveis acabam insistindo em cumprir um objetivo proposto no ano anterior: um encontro por mês. Uma meta criada no entusiasmo do momento, quando todas estavam emocionadas com a ideia de não deixar a amizade se perder com o passar do tempo.
Naquele dia
parecia simples. Entre risadas, sobremesas e lembranças antigas, alguém
sugeriu:
— Precisamos nos encontrar mais vezes.
Todas concordaram imediatamente, como se a boa vontade fosse suficiente para vencer as dificuldades da vida adulta. E talvez, naquele instante, realmente acreditassem nisso.
Mas a vida não costuma obedecer aos nossos combinados.
— Não é preciso fazer um encontro por mês — disse uma delas, em uma das intermináveis tentativas de marcar um almoço.
Houve um breve silêncio depois da mensagem. Não um silêncio de raiva, mas daqueles que obrigam cada pessoa a pensar um pouco sobre si mesma. Porque, no fundo, ninguém queria decepcionar ninguém. O problema é que vontade e disponibilidade raramente caminham juntas.
Algumas começaram a interpretar as ausências como desinteresse. Outras se sentiram pressionadas pelas insistências. Sem perceber, uma coisa que deveria ser leve começou a ganhar o peso das obrigações.
Talvez o erro tenha sido transformar afeto em meta.
Amizades não funcionam como reuniões de trabalho nem precisam cumprir calendário. Existem pessoas que passam meses sem se ver e continuam se querendo bem da mesma forma. O carinho verdadeiro não desaparece porque alguém faltou a um almoço ou respondeu tarde uma mensagem.
O que, a princípio, parecia algo grandioso tornou-se um desafio. O que parece importante para uma pessoa nem sempre tem o mesmo significado para a outra — e tudo bem.
Com o tempo, cada uma foi entendendo que envelhecer também é aprender a respeitar os próprios limites e os limites dos outros. Há dias em que a companhia faz falta. Em outros, o silêncio da própria casa parece suficiente.
Nada deve ser imposto; as vontades precisam ser respeitadas. Cada um deve fazer o que quer, e quando quiser, sem cobranças disfarçadas de preocupação.
Porque encontros marcados podem até falhar. Datas podem nunca coincidir. Sempre haverá alguém impossibilitado, atrasado ou cansado demais.
Mas amizade de
verdade talvez não dependa tanto da presença constante.
Às vezes ela permanece justamente nos desencontros.
Obrigada pela visita,
Cidália.
PS: Sinta-se à vontade para manifestar a sua opinião.

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