Ela pede a Jesus força e paciência,
enquanto, quase em segredo, sonha com algo que muita gente acharia sem graça:
um dia absolutamente monótono.
Um dia sem compromissos,
sem ligação urgente,
sem drama,
sem notícia inesperada batendo à porta.
Um dia sem emoção forte,
sem lágrimas repentinas,
sem correria de última hora.
Um dia em que o telefone permaneça quieto sobre a mesa,
em que a campainha não toque,
em que ninguém precise dela com urgência.
Ela sonha com um dia sem histórias para contar,
sem acontecimentos marcantes,
sem episódios que virem assunto no jantar.
Um dia simples, quase invisível,
repleto de uma paz silenciosa
que se espalhe pela casa como a luz suave da manhã entrando pela janela.
Um dia em que absolutamente nada renda uma boa crônica.
Um dia preguiçoso em que possa acordar a hora que quiser,
espreguiçar-se devagar,
tomar café sem pressa,
olhar o céu pela janela e perceber o tempo passar sem exigir nada.
Um dia em que ela possa fazer apenas o que der na telha:
folhear um livro antigo,
regar as plantas do quintal,
ou simplesmente sentar-se em silêncio,
deixando os pensamentos vagarem sem destino.
Um dia desconectado de tudo que possa lhe tirar o sossego.
Mas a realidade raramente respeita esse desejo.
Como a única filha que mora perto dos pais,
é sempre ela quem atende quando algo acontece.
É ela quem escuta primeiro o telefone tocar,
quem corre, quem resolve, quem tenta acalmar.
Há dias em que mal termina uma tarefa
e outra já aparece, pedindo urgência.
A convivência com a mãe nunca foi fácil.
Desde muito cedo aprenderam a se amar
misturando carinho com impaciência.
Com o passar dos anos,
o que antes era apenas diferença de temperamento
transformou-se em algo mais delicado.
A idade foi trazendo suas próprias teimosias,
seus esquecimentos,
suas fragilidades.
E, pouco a pouco,
a filha percebeu que o papel dentro daquela história também mudava.
A mulher que um dia segurou sua mão para atravessar a rua
agora precisava ser conduzida com cuidado.
A voz firme de antes,
agora muitas vezes se tornava frágil, confusa ou irritadiça.
Há dias bons, é verdade.
Dias em que conversam tranquilamente,
lembram histórias antigas
e até dão risada de alguma lembrança.
Mas há também os dias difíceis,
aqueles em que qualquer palavra vira motivo de desentendimento,
em que o cansaço pesa mais que a paciência.
Nesses momentos, ela respira fundo
e repete silenciosamente a oração que já se tornou hábito:
— Senhor, dai-me força… e um pouco mais de paciência.
Porque, no fundo, ela sabe
que a monotonia que tanto deseja
é um luxo raro na vida de quem cuida.
Ainda assim, continua sonhando com aquele dia simples.
Um dia comum,
tão tranquilo
que não mereça ser contado.
Um dia tão quieto
que não vire crônica.
Mas, ironicamente,
é justamente a falta desses dias
que continua enchendo suas páginas.
Grata pela visita,
Cidália.

Bendita monotonia que faz tanta falta! Me identifiquei demais com a protagonista. Seu estilo inconfundível de cronista sempre me comove.Você descreve almas! Mexe com os sen timentos do(a) leitor(a).
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