segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sorrateiro

 


Há menos de um ano,

 ele surgiu —
feito segredo atravessando o quintal.

Não vinha só.
Um outro corpo ao lado:
irmão? mãe? sombra?
Eram dois mistérios
caminhando pelo forro,
saltando telhados,
costurando a vizinhança com passos leves.

Bastou uma porta entreaberta
para que o mundo mudasse de lugar.
Ele entrou assim —
de mansinho,
sorrateiro,
como quem não quer nada
e, no fundo, quer ficar.

Ficou… sem ficar.
Arisco e doce,
presença de vento:
às vezes noite inteira,
às vezes só manhã,
às vezes um relâmpago de tarde.

Dormiu na poltrona perto da porta
como se guardasse fronteiras invisíveis.
Sumia por horas, por dias —
mas sempre voltava,
como quem sabe
o caminho do afeto.

Tinha duas casas?
Ou dois pedaços de mundo
que o chamavam pelo mesmo silêncio?

Um dia, o outro não veio mais.
E ele, sozinho,
foi ficando.

Conquistou confiança
como quem planta ternura:
subiu no colo,
fez morada no abraço,
aconchego manso —

feito verso antigo de canção:
chegou sorrateiro,
como quem chega do nada,
e se instalou,
posseiro, delicado,
dentro do coração.

Até que, numa dessas andanças,
o mundo foi menos gentil.
Algo amargo cruzou seu caminho —
veneno? descuido? maldade?

Nunca saberemos.

Mas ele voltou.

Voltou para dizer adeus
no idioma breve dos miados,
nos olhos que pediam colo
pela última vez.

E partiu
como chegou:
sorrateiro.

Não teve nome —
não desses que cabem em papel.

Mas tinha um chamado
feito de carinho e repetição:

Tchu Tchu.

 

 Obrigada pela visita,

Cidália. 

 

2 comentários:

  1. 😪😔💔 Sem palavras pra essa linda e poética crônica...🥲

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  2. Eu chorei com esse conto maravilhoso porque eu quase perdi meu gato mingau roubaram ele ficou 5meses fora e um dia voltou estava muito magrinho não conseguia nem miar mais graças a Deus está recuperado quem sabe tchu tchu ainda aparece

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