Há menos de um ano,
ele
surgiu —
feito segredo atravessando o quintal.
Não vinha só.
Um outro corpo ao lado:
irmão? mãe? sombra?
Eram dois mistérios
caminhando pelo forro,
saltando telhados,
costurando a vizinhança com passos leves.
Bastou uma porta entreaberta
para que o mundo mudasse de lugar.
Ele entrou assim —
de mansinho,
sorrateiro,
como quem não quer nada
e, no fundo, quer ficar.
Ficou… sem ficar.
Arisco e doce,
presença de vento:
às vezes noite inteira,
às vezes só manhã,
às vezes um relâmpago de tarde.
Dormiu na poltrona perto da porta
como se guardasse fronteiras invisíveis.
Sumia por horas, por dias —
mas sempre voltava,
como quem sabe
o caminho do afeto.
Tinha duas casas?
Ou dois pedaços de mundo
que o chamavam pelo mesmo silêncio?
Um dia, o outro não veio mais.
E ele, sozinho,
foi ficando.
Conquistou confiança
como quem planta ternura:
subiu no colo,
fez morada no abraço,
aconchego manso —
feito verso antigo de canção:
chegou sorrateiro,
como quem chega do nada,
e se instalou,
posseiro, delicado,
dentro do coração.
Até que, numa dessas andanças,
o mundo foi menos gentil.
Algo amargo cruzou seu caminho —
veneno? descuido? maldade?
Nunca saberemos.
Mas ele voltou.
Voltou para dizer adeus
no idioma breve dos miados,
nos olhos que pediam colo
pela última vez.
E partiu
como chegou:
sorrateiro.
Não teve nome —
não desses que cabem em papel.
Mas tinha um chamado
feito de carinho e repetição:
Tchu Tchu.
Obrigada pela visita,
Cidália.

😪😔💔 Sem palavras pra essa linda e poética crônica...🥲
ResponderExcluirEu chorei com esse conto maravilhoso porque eu quase perdi meu gato mingau roubaram ele ficou 5meses fora e um dia voltou estava muito magrinho não conseguia nem miar mais graças a Deus está recuperado quem sabe tchu tchu ainda aparece
ResponderExcluir