terça-feira, 29 de setembro de 2026

Olhar de menina

 



Ela nasceu diferente. Não diferente como quem está fora do mundo, mas como quem encontrou uma maneira muito própria de estar nele.

Uma síndrome rara veio acompanhando seus passos pela vida. Ela não fala, mas isso nunca significou que não tivesse o que dizer. Seus olhos observam, atentos, tudo o que acontece ao redor. Ela entende as conversas, percebe as pessoas, reconhece os gestos e, à sua maneira, participa de tudo.

É uma menina curiosa. Gosta de assistir a vídeos e tem um carinho especial pela turma do Cocoricó. Também gosta de nadar, talvez porque, dentro d’água, encontre uma liberdade que dispensa palavras.

E como toda adolescente que se preze, tem suas vontades bem definidas. É teimosa, às vezes. Quando quer uma coisa, sabe deixar isso bastante claro. Afinal, adolescência é adolescência, com ou sem palavras.

Desde pequena, tem uma amiga que permanece ao seu lado. Uma dessas amizades que atravessam os anos e que não precisam de grandes explicações. Ela também tem uma característica bonita: apega-se às pessoas que a tratam bem. Talvez porque reconheça, com uma sensibilidade que nem sempre percebemos, quando existe carinho verdadeiro.

Ao seu redor, há pais dedicados e cuidadosos, que aprenderam a conhecer seus sinais, seus desejos, seus limites e suas conquistas. Há também profissionais que a acompanham diariamente, ajudando-a a realizar atividades e, principalmente, a conquistar sua independência.

Ela gosta de reunir e ter por perto os avós nem que seja numa chamada de vídeo nas horas das refeições.

Mas existe alguém que ocupa um lugar muito especial nessa história, a sua babá.

Ela não é apenas a pessoa que cuida. É aquela que sabe o que a menina gosta, conhece suas manias, entende seus silêncios e reconhece seus pequenos gestos. Sabe quando é hora de ajudar e quando é importante deixá-la tentar sozinha. Trata-a com carinho, mas também com respeito, porque cuidar de alguém é muito mais do que fazer por ela, é acreditar naquilo que ela pode fazer.

Talvez essa menina tenha ensinado a todos ao seu redor uma coisa que a vida, às vezes, insiste em nos fazer esquecer: comunicação não acontece apenas através das palavras.

Há conversas feitas com olhares. Há pedidos feitos com gestos. Há carinho em um sorriso, confiança em uma mão estendida e afeto na presença de quem permanece.

Ela não fala.

Mas observa.

Entende.

Escolhe.                            


Gosta.

Reclama.

Se apega.

Nada.

Assiste aos seus vídeos.

E segue crescendo, cercada por pessoas que aprenderam a enxergar além do silêncio.

No fim, talvez a grande história não seja sobre uma menina que nasceu com uma síndrome rara.

Talvez seja sobre uma menina que, todos os dias, encontra seu jeito de dizer ao mundo: “Eu estou aqui. Eu sinto. Eu entendo. Eu tenho vontades. E também tenho muito a viver.”

E isso, por si só, já é uma história linda.


Obrigada pela visita,

Cidália.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Mães

 



De vez em quando, algumas perguntas sem resposta ficam rondando os pensamentos. Não chegam fazendo barulho. Apenas se acomodam, silenciosas, e insistem em permanecer.

Uma delas me acompanha há algum tempo: por que a mãe atípica é chamada de guerreira?

Mãe é mãe. Antes de qualquer rótulo, existe uma mulher que cuida, que se preocupa, que ama, que se cansa, que muitas vezes chora escondido e, ainda assim, no dia seguinte, levanta-se e segue.

Todas as mães têm muito em comum, principalmente aquelas que trabalham fora. Mas isso não significa que as mães que permanecem em casa não trabalhem. Cuidar de uma casa, administrar uma rotina e acompanhar os filhos também é trabalho e, muitas vezes, um trabalho invisível, sem salário, sem férias e sem hora para terminar.

Há o almoço para preparar, a roupa para lavar, a casa para organizar, as compras no supermercado e na quitanda, o filho para levar à escola e depois buscar. Há consultas, compromissos, tarefas, imprevistos. Há uma lista que parece nunca chegar ao fim.

E então pensamos na mãe de um filho atípico.

Se ela também trabalha fora, sua rotina pode se tornar ainda mais exaustiva. São horários que precisam se encaixar, consultas que precisam ser conciliadas, necessidades específicas que exigem atenção e, muitas vezes, uma preocupação constante com aquilo que o amanhã poderá trazer.

Essa mãe precisa de apoio.

Do companheiro, quando existe. Da família, dos amigos, da escola, da sociedade. Precisa de uma rede que não apenas admire sua força, mas que também esteja disposta a dividir o peso.

E quando ela é uma mãe solo?

Talvez a palavra “desdobrar-se” ainda seja pequena para explicar o que acontece. Ela precisa encontrar braços onde não há braços, tempo onde não há tempo, forças onde, muitas vezes, só existe cansaço.

Por isso, fico pensando: será mesmo necessário chamá-la de guerreira?

A palavra parece bonita, mas carrega um peso. Porque, quando dizemos que uma mãe é guerreira, corremos o risco de romantizar a sobrecarga. Como se ela precisasse ser forte o tempo todo. Como se não pudesse fraquejar. Como se fosse natural enfrentar tudo sozinha.

Talvez não devêssemos esperar que mães sejam guerreiras.

Talvez devêssemos simplesmente reconhecê-las como mulheres.

Mulheres admiráveis, sim. Mulheres que fazem o possível e, muitas vezes, até o impossível. Mulheres que amam, cuidam, trabalham, se cansam, recomeçam e seguem adiante.

Mas mulheres que também precisam de colo, descanso, compreensão e ajuda.

Porque, no fim das contas, mães não deveriam precisar vestir uma armadura para serem reconhecidas. Deveriam poder apenas ser mães, humanas, imperfeitas, cansadas, amorosas e, acima de tudo, acompanhadas.

 

Obrigada pela visita,

Cidália