quinta-feira, 30 de julho de 2026

Colecionando momentos


                                                                  (foto copiada da internet)

A última quarta-feira de julho amanheceu com um céu tão azul que parecia prometer um dia inteiro de tranquilidade. Ela aproveitou a manhã como tantas outras: foi à feira, passou no mercado, voltou para casa, tomou um banho e escolheu a roupa para um compromisso que aguardava havia dias. Era dia de encontrar as amigas.

Mas julho tem seus caprichos. Bastou o relógio avançar um pouco para o vento ganhar força, o sol desaparecer atrás das nuvens e o sanhaço, pontual como um velho conhecido, anunciar a chuva com seu canto. Ela pegou um agasalho. Sempre vale a pena ouvir quem entende do tempo melhor do que qualquer previsão.

No grupo, uma das amigas, que vinha de um município vizinho, avisou que sairia mais cedo. O céu mudara de humor, e era melhor não desafiar a estrada.

Quando ela chegou ao restaurante acompanhada de duas amigas, as outras já esperavam à mesa. Faltava apenas uma. Não demorou muito, e logo todas estavam reunidas.

A conversa encontrou seu ritmo natural. Entre uma lembrança e outra, novidades foram contadas, risadas surgiram espontaneamente e os assuntos acumulados desde o último encontro foram sendo colocados em dia. A comida chegou quase como um detalhe, porque o verdadeiro alimento já estava ali: a companhia.

Depois do almoço, a tradição falou mais alto. Elas seguiram para o café ao lado, onde a sobremesa parecia completar o ritual. Do lado de fora, uma chuva fina deixava o dia mais frio. Do lado de dentro, o ambiente acolhedor convidava a prolongar a conversa.

Foi então que uma das amigas resumiu tudo em uma frase simples, dessas que merecem ser guardadas: "O dia estava feio, mas tornou nosso interior bonito."

Uma das amigas precisou sair mais cedo para cumprir algumas tarefas de trabalho. Outra pediu licença à dona do estabelecimento para apresentar suas semijoias.

Na hora de ir embora, como acontece nas melhores histórias, vieram os pequenos imprevistos. Uma percebeu que havia deixado o capacete no restaurante, justamente quando ele já estava fechado. Voltou de carona, resignada a buscá-lo mais tarde. Outra já havia se despedido quando descobriram que seu celular permanecia tranquilamente sobre o balcão do caixa.

Houve um instante de preocupação, é verdade. Mas logo o susto deu lugar às gargalhadas. Porque a amizade também é isso: transformar esquecimentos em histórias, contratempos em lembranças e um dia cinzento em um daqueles encontros que aquecem a memória por muito tempo.

Obrigada pela visita,

Cidália.


terça-feira, 21 de julho de 2026

Ausência






Há um tempo em que as amizades deixam de ser medidas pela frequência das mensagens. Não porque o afeto tenha diminuído, mas porque a vida, silenciosamente, muda o ritmo de tudo.

Quando somos mais jovens, acreditamos que amizade se prova na constância: nas conversas intermináveis, nos encontros improvisados, nas notificações que piscam na tela do celular a qualquer hora do dia. Depois, sem perceber, crescemos. As responsabilidades ocupam o espaço que antes pertencia ao tempo livre, e os dias passam a ser contados por prazos, compromissos e cansaços. O silêncio, então, deixa de ser sinônimo de distância e passa a ser apenas mais uma forma  da vida acontecer.

Ela anda sumida. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O último "oi" no WhatsApp ficou perdido em janeiro, como uma folha esquecida no calendário. De lá para cá, os meses correram depressa. O trabalho tomou conta das horas, a rotina ocupou os espaços vazios e a vida continuou exigindo presença em muitos lugares ao mesmo tempo.

Entre uma obrigação e outra, ela conheceu pessoas novas, dividiu projetos, sorriu para desconhecidos que, aos poucos, deixaram de ser estranhos. Algumas amizades nasceram, outras ficaram apenas na superfície dos dias. É assim que a existência segue seu curso: enquanto tentamos dar conta do presente, o tempo reorganiza nossos vínculos sem pedir licença. Nem sempre escolhemos quem ficará mais perto ou mais longe, muitas vezes, é a própria vida quem desenha novos caminhos.

Curiosamente, isso não diminui o valor das pessoas que caminharam conosco antes. Algumas presenças permanecem intactas, mesmo quando a convivência se torna rara. São amizades que aprenderam a morar na confiança. Não exigem explicações nem cobram respostas imediatas. Sabem esperar.

As férias finalmente chegaram. Quem observa de fora imagina passeios, reencontros, cafés marcados, viagens e conversas que ficaram para depois. Parece lógico pensar que, enfim, haverá tempo para todos. Mas nem sempre as férias significam disponibilidade.

Às vezes, elas servem apenas para colocar a casa em ordem, organizar papéis esquecidos, lavar a alma junto com as roupas acumuladas, dormir até o corpo lembrar o que é descanso. Servem para almoçar sem pressa, tomar um café olhando pela janela, ouvir o próprio pensamento sem a urgência do próximo compromisso. Servem para respirar sem olhar para o relógio.

Há um tipo de cansaço que o sono não resolve. É aquele que nasce do excesso de estímulos, das conversas obrigatórias, das decisões constantes, da sensação de estar sempre devendo alguma coisa a alguém. Quando esse cansaço chega, o silêncio deixa de ser vazio e passa a ser abrigo.

E as amigas? Elas continuam ali, guardadas naquele lugar onde o carinho não depende da presença constante. Não é falta de amor, nem de consideração. É apenas uma pausa. Há sentimentos que não precisam ser alimentados todos os dias para continuarem vivos. Eles resistem porque foram construídos com verdade.

Quem ama de verdade aprende que o afeto também precisa de liberdade. Entende que existem fases em que uma pessoa desaparece do mundo não porque deixou de se importar, mas porque está tentando não se perder de si mesma.

Talvez a maturidade tenha justamente essa beleza discreta: compreender que nem toda ausência é um rompimento. Algumas são apenas intervalos necessários entre uma versão de nós e a próxima.

Há fases em que o maior gesto de cuidado é aprender a ficar consigo mesma. Em que o coração pede menos encontros e mais recolhimento. Menos conversa e mais escuta interior. Menos barulho e mais paz.

E talvez o verdadeiro afeto seja exatamente isso: respeitar o tempo do outro sem transformar seu silêncio em ofensa. Confiar que algumas amizades são como árvores antigas. Mesmo durante o inverno, quando parecem imóveis e silenciosas, continuam vivas por dentro. Quando a estação muda, basta um reencontro, um abraço ou uma simples mensagem para que tudo floresça novamente, como se o tempo nunca tivesse sido capaz de diminuir aquilo que o carinho soube construir. Seis meses após a última mensagem, mais uma tentativa de comunicação. 

- Oi, tudo bem? Saudades!

- Tudo bem e você? Muitas saudades!



Obrigada pela visita,
Cidália.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

O andarilho

 




Lá vai ele, caminhando devagar pelo acostamento, com um velho cobertor pendurado nos ombros. O passo é lento, não apenas pelo cansaço, mas porque a vida já não lhe cobra horários. Não há compromissos, relógios ou um destino esperando por sua chegada.

Ele caminha sem pressa, seguindo o ritmo que os anos e as dificuldades lhe ensinaram. Cada passo carrega marcas de uma história que ficou para trás, de lugares por onde passou e de pessoas que talvez nunca tenham parado tempo suficiente para perguntar seu nome. O mundo continua correndo ao seu redor, mas ele segue em outra velocidade, como alguém que aprendeu a sobreviver no intervalo entre a esperança e a resignação.

Ele não tem pressa. Afinal, quem nada possui também não tem para onde correr.

Talvez um dia tenha tido planos, sonhos, uma casa, uma família ou um lugar ao qual chamar de lar. Talvez tenha acordado em manhãs diferentes, com preocupações comuns e pequenas certezas sobre o futuro. Mas a vida, com seus caminhos inesperados, suas perdas e suas quedas, o trouxe até ali. E agora ele carrega apenas aquilo que consegue levar consigo: algumas poucas roupas, um cobertor envelhecido e as lembranças que ninguém pode tirar.

Quando a fome aperta, ele para. Aceita, com um sorriso tímido ou um olhar agradecido, um pedaço de pão, uma marmita ou um café oferecido por alguma mão generosa. Alimenta o corpo com migalhas e a esperança com pequenos gestos de humanidade.

Cada alimento recebido representa mais do que uma refeição. É uma lembrança de que ainda existem pessoas capazes de enxergar além da aparência, além da sujeira das roupas e além da condição em que ele se encontra. Um simples copo de água, uma palavra gentil ou alguns minutos de conversa podem significar, para quem vive na solidão das ruas, muito mais do que muitos imaginam.

Às vezes, ele guarda o pouco que recebe para mais tarde, pensando na próxima noite ou no próximo amanhecer. Aprendeu a economizar não apenas comida, mas também expectativas. A vida nas ruas ensina a esperar pouco, porque cada pequena conquista se torna uma grande vitória.

À noite, o céu é seu teto. Uma ponte, uma marquise ou uma calçada transformam-se em abrigo improvisado. Estende o velho cobertor, já gasto pelo tempo, como quem ainda acredita que o descanso pode existir mesmo em meio ao abandono.

Antes de fechar os olhos, talvez observe as estrelas ou escute os sons da cidade que nunca dorme completamente. Carros passando, passos apressados, vozes distantes. Enquanto muitos retornam para suas casas, ele procura apenas um canto onde possa repousar sem ser incomodado. Um pequeno espaço onde, por algumas horas, possa esquecer o peso do mundo sobre os ombros.

O frio chega sem pedir licença. O calor castiga. A chuva encharca as poucas roupas que possui. Ainda assim, ao amanhecer, ele se levanta e continua caminhando. Sempre em frente. Sempre em silêncio.

Há dias em que o corpo pede descanso, em que as pernas parecem não responder e em que a vontade de continuar parece menor do que as dificuldades encontradas pelo caminho. Mas ele segue. Porque parar, muitas vezes, significa não ter como recomeçar. A rua não espera, o tempo não perdoa e a sobrevivência exige movimento.

As pessoas passam apressadas. Muitas desviam o olhar. Outras fingem que ele não existe. Mas ele está ali, percorrendo ruas estreitas, becos e avenidas, carregando uma história que ninguém quis conhecer e uma dor que poucos seriam capazes de suportar.

Algumas pessoas o veem apenas como mais uma figura perdida na paisagem urbana. Um rosto entre tantos outros, alguém que se tornou parte da rotina da cidade. Mas por trás daquele olhar cansado existe uma vida inteira: lembranças de infância, momentos felizes, perdas, escolhas, erros, acertos e sonhos que talvez ainda resistam em algum lugar escondido dentro dele.

As horas passam. O dia termina. A noite retorna. Para ele, quase nada muda. Os dias se confundem, misturados entre a sobrevivência e a invisibilidade.

Cada amanhecer traz a mesma pergunta: onde conseguir alimento? Onde encontrar abrigo? Onde encontrar um pouco de respeito? A rotina se repete, mas a dor nunca se torna completamente normal. Mesmo aqueles que vivem à margem continuam sentindo, desejando e esperando por algo melhor.

Talvez o maior peso que carregue não seja o velho cobertor sobre os ombros, mas a indiferença de um mundo que aprendeu a olhar através das pessoas, sem realmente enxergá-las.

Porque muitas vezes não é apenas a falta de dinheiro, de moradia ou de recursos que machuca. É a sensação de não ser lembrado, de passar por centenas de pessoas todos os dias e ainda assim permanecer invisível. É sentir que sua existência se tornou um detalhe ignorado na pressa de uma sociedade que raramente para. 

E, enquanto segue sua caminhada sem destino, deixa uma pergunta silenciosa para todos nós: quantos andarilhos cruzam o nosso caminho esperando não apenas por um pedaço de pão, mas por um gesto simples de reconhecimento, capaz de lhes devolver, ainda que por um instante, a dignidade de serem vistos como seres humanos?

Talvez uma palavra, um olhar sincero ou uma atitude de respeito não mudem completamente a realidade de alguém que vive nas ruas. Mas podem mudar aquele momento. Podem lembrar que, apesar das dificuldades, ainda existe humanidade. E talvez seja justamente nesses pequenos gestos que começa a transformação de um mundo onde ninguém deveria ser invisível.

Ele anda devagar pelas ruas estreitas ou becos da cidade.

As horas passam, o dia acaba, a noite chega,

Para ele não faz diferença.


Obrigada pela visita,

Cidália.