terça-feira, 25 de agosto de 2026

Abrigo

 

                                                              (foto copiada da internet)


Há pessoas que passam pela vida colecionando conquistas que o mundo faz questão de contar: casamento, filhos, festas, fotografias de uma família reunida. Outras, porém, escrevem sua história em silêncio, onde o amor não aparece nas manchetes, mas sustenta vidas inteiras.

Ela foi uma dessas pessoas.

Ainda jovem, deixou que os próprios sonhos cedessem lugar a uma missão maior. A família que imaginou construir ficou para depois... e, quando percebeu, o depois já havia passado. Não houve marido, nem filhos. Em vez disso, tornou-se mãe daqueles que primeiro lhe ensinaram a amar.

Filha única, estudiosa, trabalhadora, responsável e profundamente temente a Deus, carregava uma beleza rara: a simplicidade. Nunca foi movida pela vaidade, mas pelo desejo de servir. Os pais, que sempre a criaram com tanto cuidado, um dia passaram a encontrar nela o mesmo cuidado que antes lhe ofereciam.

Quando o pai partiu para a eternidade, seu coração se voltou ainda mais para a mãe. As duas se tornaram inseparáveis. Compartilhavam os dias, as conversas, os silêncios. Apenas o trabalho as separava por algumas horas. E, quando a necessidade surgia, nem isso: a mãe a acompanhava em reuniões, como quem apenas desejava continuar perto da filha que se transformara em seu porto seguro.

Era bonito de ver. Uma cuidava da outra. O amor entre elas dispensava palavras.

Então chegou o dia mais difícil.

A mãe também partiu.

E, de repente, a casa ficou grande demais. O silêncio ganhou voz. A saudade ocupou cada cômodo. Durante muito tempo, ela não conseguiu encontrar consolo. Precisou aprender a conviver com a ausência, descobrindo, aos poucos, que quem amamos nunca vai embora por completo. Permanecem nos pensamentos, nos gestos, nas lembranças e naquele lugar do coração onde o tempo não alcança.

Foi o trabalho que a ajudou a seguir em frente. Entre os aluninhos, os sorrisos infantis devolvem um pouco da leveza que a vida insistiu em levar. Cada abraço, cada descoberta, cada pequena vitória de uma criança parece costurar, delicadamente, as feridas da alma.

Mas, quando volta para casa, encontra uma companhia diferente.

É apenas ela.

Deus.

E as lembranças.

Talvez alguns pensem que sua história seja marcada pelas renúncias. Mas quem a conhece sabe que ela não viveu uma vida vazia. Viveu uma vida de amor. Um amor que não gerou filhos, mas gerou cuidado; que não construiu um lar numeroso, mas fez de si mesma um lar para os próprios pais.

E, no fim das contas, talvez seja isso que realmente importe: há quem passe pela vida deixando heranças de bens. Ela deixará uma herança muito mais preciosa, a certeza de que amar é, muitas vezes, escolher permanecer ao lado de quem precisa de nós, até o último instante.

 

Obrigada pela visita,

Cidália.

sábado, 15 de agosto de 2026

Pássaros

 



Há tardes em que a natureza parece querer conversar com a gente.

Basta parar por alguns minutos, esquecer a pressa e olhar para o quintal. Foi assim que, numa dessas tardes amenas, fiquei observando o vento brincar com os galhos das árvores. Ele balançava as folhas, fazia cócegas nas sombras e também embalava, suavemente, duas pequenas casinhas dependuradas, recheadas de bananas docinhas.

E então começou o espetáculo.

Os pássaros chegavam de todos os lados. Voavam de um galho para outro, cruzavam o céu em pequenos voos apressados, esbarravam uns nos outros, davam bicadinhas — talvez pequenas discussões de passarinho — e logo voltavam a voar. Pareciam dançar.

Dançavam como se houvesse uma música invisível tocando no ar. Como se aquele pedaço de quintal fosse um grande palco e nós, silenciosos espectadores, tivéssemos recebido o privilégio de assistir à apresentação.

Havia sanhaços azulados, bonitos-lindos, saíras azuis, sabiás e canários. Cada um com seu jeito, seu canto, sua pressa e sua graça.

Um pássaro preto, de bico branco, passou voando baixo e, por um breve instante, abriu as asas. Debaixo delas, escondiam-se penas prateadas, como um pequeno segredo que só o voo era capaz de revelar.

No fio do varal, o bem-te-vi cantava, dono da tarde. Parecia anunciar ao mundo que ainda havia beleza por ali.

No chão, as rolinhas garbosas ciscavam a grama úmida, indiferentes ao espetáculo que acontecia acima delas. Talvez para elas aquilo fosse apenas mais uma tarde. Para mim, porém, era muito mais.

Era um lembrete.

De que a vida também mora nas coisas pequenas.

Quando o final da tarde começou a se aproximar, a cantoria aumentou. Como se os passarinhos soubessem que o dia estava chegando ao fim e quisessem aproveitar seus últimos minutos de luz.

O vento continuava balançando os galhos. As folhas murmuravam. As asas cortavam o ar. Os cantos se misturavam numa melodia que nenhuma orquestra humana seria capaz de reproduzir.

Então, de repente, um casal de periquitos apareceu. Chegou sem cerimônia, pousou perto das bananas e começou a saborear aquelas pequenas delícias, como quem conhece bem os lugares onde a vida é generosa.

Fiquei ali, olhando.

E pensei em como são pequeninas essas aves e, ao mesmo tempo, tão grandes no que nos oferecem.

Elas enfeitam as árvores, colorindo os dias com suas penas. Enfeitam o silêncio com seus cantos. Transformam uma tarde preguiçosa em espetáculo e, sem saber, nos ensinam a olhar com mais atenção para aquilo que quase sempre passa despercebido.

Talvez seja esse o verdadeiro presente dos passarinhos.

Eles não nos pedem nada.

Apenas chegam, cantam, dançam ao vento e depois partem.

E nós ficamos com a sensação de que, por alguns instantes, a vida foi mais bonita porque tivemos tempo de parar para contemplá-la.

Obrigada pela visita,
Cidália.











quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Colecionando Momentos II


Lá vão elas, em passos serenos,

como quem conhece o valor do tempo

e sabe que a pressa jamais combina

com os encontros da alma.

Elas vão aguardar a carona.

Outra já está à espera delas na entrada do mercado,

e logo são cinco.

Entre corredores do supermercado,

escolhem mais que pães e bolos.

Escolhem memórias.

Pão de queijo, bolo de roda,

bolo de cenoura, biscoitos amanteigados,

torradas, manteiga e geleia...

Pequenos sabores

que alimentam muito mais que o corpo.

No caixa, a surpresa:

o carrinho ficou para trás.

E, entre risos saem à procura dele,

Como tantas vezes na vida,

encontram o que parecia perdido.

A conta é paga.

O destino agora é a casa

onde uma amiga querida espera

com alegria no coração.

A mesa é arrumada:

Pães de minuto,

rosquinhas de polvilho e queijo,

capuccino perfumando a tarde,

chás aquecendo as mãos

e conversas aquecendo a alma.

As fotografias congelam sorrisos,

mas não conseguem captar

a leveza dos abraços,

nem a música dos risos

que enchem a casa de vida.

Uma delas parte mais cedo,

levando consigo o carinho daquele encontro.

Antes, porém, mais algumas fotos,

porque certos instantes

merecem permanecer para sempre.

Depois vem o bingo.

Três vencedoras...

Mas, no coração da anfitriã,

não havia espaço para que alguém saísse sem um presente.

E até o prêmio de consolação

tornou-se prova de afeto.

A noite, silenciosa,

anuncia a hora da despedida.

Cada uma sai dali,

levando nas mãos algumas guloseimas

e no peito um tesouro bem maior.

Então, com os olhos cheios de gratidão,

a anfitriã quebra o silêncio e diz:

"Vocês não sabem o bem que me fazem."

Talvez elas nem soubessem.

Mas era exatamente isso

que colecionavam naquele dia:

Não apenas fotografias,

nem bolos, nem chá, nem brindes...

Colecionavam momentos.

E momentos vividos com amor

são as lembranças mais bonitas

que o coração pode guardar.


Grata pela visita,

Cidália.