terça-feira, 30 de junho de 2026

Frustação



                                                           (foto gerada pela internet)


Aos poucos, as pessoas vão se afastando. Não de maneira brusca, nem por uma discussão declarada. O afastamento acontece em silêncio, quase imperceptível, como quem se levanta da mesa para buscar alguma coisa e demora mais do que deveria para voltar. Quando alguém percebe, a distância já se instalou.

Naquela tarde, a decepção estampada no rosto de quem esperava era impossível de esconder. Entre os adultos, pairavam perguntas que ninguém dizia em voz alta. Teria sido falta de comunicação? Falta de vontade? Falta de comprometimento? Talvez um pouco de cada coisa. Talvez apenas o desencontro tão comum na vida das famílias, mas que, para quem espera com o coração cheio de expectativa, ganha proporções muito maiores.

A menina aguardava aquele encontro havia dias. Imaginava as brincadeiras, as conversas e as risadas que dividiria com o primo. Na sua cabeça, a visita tinha um roteiro simples: chegar, encontrá-lo e passar algumas horas felizes ao lado dele. Era esse o motivo que fazia seus olhos brilharem durante o caminho.

Mas a realidade, como costuma acontecer, não seguiu o plano.

Assim que chegou, soube que o primo já havia ido embora. Não houve tempo para um abraço, para uma brincadeira rápida ou sequer para um “até logo”. Ele simplesmente não estava mais lá.

A notícia caiu sobre ela como uma chuva inesperada em dia de festa.

— Quero voltar para a casa da vovó. A menina se manifestou atraves de gestos.

Foi a primeira reação. Direta, sincera, impossível de disfarçar. As crianças ainda não aprenderam a esconder suas frustrações atrás de sorrisos educados. Sentem tudo com intensidade e demonstram exatamente o que sentem.

Enquanto isso, o café já estava servido. A mesa estava bonita, preparada com carinho. O aroma do café recém-passado se misturava ao cheiro do bolo que sua mãe havia feito especialmente para levar ao encontro. Havia conversa, movimento e boa vontade ao redor.

A menina sentou-se, mas contrariada.

Aceitou um pedaço do bolo. Comia devagar, olhando para os lados, como se ainda esperasse que o primo aparecesse por alguma porta da casa e dissesse que tudo não passara de um engano.

Os avós observavam a cena em silêncio. Os pais trocavam olhares discretos, sem saber exatamente o que dizer. Havia pouco a explicar para um coração infantil que só conhecia a lógica simples da expectativa: quando esperamos muito por alguém, queremos encontrá-lo.

A tia,  a anfitriã daquela tarde, fazia de tudo para agradar. Oferecia mais bolo, sugeria brincadeiras, puxava conversa, tentava preencher o vazio deixado pela ausência do bisneto. Seu esforço era visível e sincero. Mas algumas ausências não podem ser substituídas, principalmente quando ocupam um lugar tão específico na expectativa de uma criança.

O tempo passou mais rápido do que deveria.

A visita, que prometia ser longa e animada, foi sendo encurtada pelas circunstâncias. Aos poucos, os assuntos terminaram, os compromissos chamaram e as despedidas começaram a acontecer. A priminha também saiu com os pais. Tinham outros lugares para ir, outras obrigações para cumprir.

E, de repente, a casa ficou mais vazia.

Para os adultos, talvez tivesse sido apenas uma tarde comum, marcada por desencontros e agendas diferentes. Mas, para a menina, a história era outra. Para ela, a visita havia terminado antes da hora. Não porque o relógio avançara depressa, mas porque aquilo que mais importava nunca chegou a acontecer.

No caminho de volta, ela carregava uma tristeza silenciosa, dessas que só as crianças conhecem bem. A tristeza de quem imaginou uma tarde inteira de brincadeiras e precisou voltar para casa apenas com a lembrança daquilo que poderia ter sido.

E talvez seja justamente assim que os afastamentos começam: não nos grandes conflitos, mas nas pequenas ausências. Nos encontros que não acontecem, nas expectativas que ficam sem resposta e nas visitas que, para alguém, terminam antes da hora.

Obrigada pela visita,

Cidália.



5 comentários:

  1. Toda história tem mais de uma perspectiva. Nem toda ausência significa falta de amor, interesse ou comprometimento. Muitas vezes, ela representa apenas a vida acontecendo: trabalho, rotina, compromissos ou até a necessidade de descansar. Nem tudo deve ser interpretado como um afastamento.

    Também é importante refletir sobre o cuidado que precisamos ter para não projetarmos nas crianças as expectativas e frustrações dos adultos. Elas sentem, é claro, mas muitas vezes nós damos aos acontecimentos um significado que parte do nosso olhar, e não necessariamente do delas.

    Talvez, antes de transformar um desencontro em uma história de distanciamento, valha a pena lembrar que toda família tem sua própria dinâmica e que nem sempre conhecemos os motivos das escolhas do outro. A empatia começa quando entendemos que existe uma realidade além daquela que conseguimos enxergar.

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  2. Há quem acredite que os laços se rompem em grandes acontecimentos. Eu desconfio que, muitas vezes, eles começam a se desfazer quando passamos a medir uma história inteira pela dor de um único instante.

    É curioso como uma ausência pode ganhar voz, enquanto tantas presenças permanecem em silêncio. Como um domingo pode ocupar o lugar de tantos anos. Como aquilo que faltou pode falar mais alto do que tudo aquilo que existiu.

    Talvez a pergunta nunca tenha sido quem foi embora primeiro. Talvez a pergunta seja: por que esquecemos tão facilmente de tudo aquilo que ficou?

    E talvez exista outra pergunta ainda mais difícil: o que nós, adultos, carregamos dentro de nós para que um único “não” tenha o poder de apagar tantos “sins”?

    Às vezes, não é o acontecimento que dói. É a expectativa, a frustração, a dificuldade de aceitar que o outro também tem limites, rotina, cansaço e escolhas. E, sem perceber, transformamos nossas próprias dores em histórias que colocamos sobre os ombros de quem amamos.

    Talvez valha a pena olhar para dentro antes de olhar para a ausência do outro. Porque, no fim, o amor não se prova pela presença em todos os domingos, mas pela permanência do afeto mesmo quando a vida não cabe exatamente nos nossos planos.

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  3. Acho que eu tive muita culpa nessa história toda só posso pedir desculpa

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  4. A vida nos ensina uma verdade que quase sempre aprendemos tarde demais: o vazio que enxergamos nos outros, muitas vezes, é o reflexo do vazio que também carregamos.

    É fácil falar de família, de amor, de perdão e de união. Difícil é abandonar o orgulho, silenciar o ego e dar o primeiro passo quando acreditamos que a razão está do nosso lado.

    Antes de lamentar quem se afastou, talvez devêssemos fazer a pergunta mais difícil de todas: de quem eu também me afastei? Quantas vezes esperei ser procurado, quando eu mesmo poderia ter procurado? Quantas vezes transformei uma mágoa em distância e uma distância em indiferença?

    O tempo é um juiz implacável. Ele não escolhe culpados; apenas revela que, no fim, todos perdemos. Perde quem foi embora, perde quem ficou, perde quem esperou o momento certo para pedir perdão, para abraçar ou simplesmente dizer: "senti sua falta".

    A família não se desfaz apenas por grandes acontecimentos. Ela também se rompe no silêncio, nas visitas adiadas, nas mensagens nunca enviadas e nas pequenas ausências que, somadas, se transformam em um abismo.

    Talvez a culpa nunca seja de uma única pessoa. Talvez ela seja dividida entre todos aqueles que permitiram que o orgulho falasse mais alto do que o afeto. E o mais triste é que, quando percebemos isso, muitas vezes o tempo já levou embora as oportunidades que jamais voltarão.

    No fim, a vida deixa apenas uma pergunta: vale a pena vencer uma discussão e perder uma relação? Porque o orgulho alimenta o ego por um instante, mas o arrependimento pode acompanhar uma vida inteira.

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  5. "Tire o telefone do gancho para não ser incomodado." Quantas vezes ouvi essa frase, enquanto meu coração só queria fazer o caminho contrário: ir ao encontro de quem amava e dar um abraço.

    É muito fácil fazer apenas o que nos convém e acreditar que estamos certos. Mas nem sempre o que é conveniente é o que é correto.

    A vida é um investimento de longo prazo. O lucro ou o prejuízo não será medido pelo que acumulamos, mas pela forma como aplicamos o nosso coração nas pessoas, no perdão, na presença e no amor. Porque, no fim, tudo aquilo que deixamos de oferecer ao outro é, muitas vezes, o que mais fará falta dentro de nós.

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