terça-feira, 21 de julho de 2026

Ausência






Há um tempo em que as amizades deixam de ser medidas pela frequência das mensagens. Não porque o afeto tenha diminuído, mas porque a vida, silenciosamente, muda o ritmo de tudo.

Quando somos mais jovens, acreditamos que amizade se prova na constância: nas conversas intermináveis, nos encontros improvisados, nas notificações que piscam na tela do celular a qualquer hora do dia. Depois, sem perceber, crescemos. As responsabilidades ocupam o espaço que antes pertencia ao tempo livre, e os dias passam a ser contados por prazos, compromissos e cansaços. O silêncio, então, deixa de ser sinônimo de distância e passa a ser apenas mais uma forma  da vida acontecer.

Ela anda sumida. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O último "oi" no WhatsApp ficou perdido em janeiro, como uma folha esquecida no calendário. De lá para cá, os meses correram depressa. O trabalho tomou conta das horas, a rotina ocupou os espaços vazios e a vida continuou exigindo presença em muitos lugares ao mesmo tempo.

Entre uma obrigação e outra, ela conheceu pessoas novas, dividiu projetos, sorriu para desconhecidos que, aos poucos, deixaram de ser estranhos. Algumas amizades nasceram, outras ficaram apenas na superfície dos dias. É assim que a existência segue seu curso: enquanto tentamos dar conta do presente, o tempo reorganiza nossos vínculos sem pedir licença. Nem sempre escolhemos quem ficará mais perto ou mais longe, muitas vezes, é a própria vida quem desenha novos caminhos.

Curiosamente, isso não diminui o valor das pessoas que caminharam conosco antes. Algumas presenças permanecem intactas, mesmo quando a convivência se torna rara. São amizades que aprenderam a morar na confiança. Não exigem explicações nem cobram respostas imediatas. Sabem esperar.

As férias finalmente chegaram. Quem observa de fora imagina passeios, reencontros, cafés marcados, viagens e conversas que ficaram para depois. Parece lógico pensar que, enfim, haverá tempo para todos. Mas nem sempre as férias significam disponibilidade.

Às vezes, elas servem apenas para colocar a casa em ordem, organizar papéis esquecidos, lavar a alma junto com as roupas acumuladas, dormir até o corpo lembrar o que é descanso. Servem para almoçar sem pressa, tomar um café olhando pela janela, ouvir o próprio pensamento sem a urgência do próximo compromisso. Servem para respirar sem olhar para o relógio.

Há um tipo de cansaço que o sono não resolve. É aquele que nasce do excesso de estímulos, das conversas obrigatórias, das decisões constantes, da sensação de estar sempre devendo alguma coisa a alguém. Quando esse cansaço chega, o silêncio deixa de ser vazio e passa a ser abrigo.

E as amigas? Elas continuam ali, guardadas naquele lugar onde o carinho não depende da presença constante. Não é falta de amor, nem de consideração. É apenas uma pausa. Há sentimentos que não precisam ser alimentados todos os dias para continuarem vivos. Eles resistem porque foram construídos com verdade.

Quem ama de verdade aprende que o afeto também precisa de liberdade. Entende que existem fases em que uma pessoa desaparece do mundo não porque deixou de se importar, mas porque está tentando não se perder de si mesma.

Talvez a maturidade tenha justamente essa beleza discreta: compreender que nem toda ausência é um rompimento. Algumas são apenas intervalos necessários entre uma versão de nós e a próxima.

Há fases em que o maior gesto de cuidado é aprender a ficar consigo mesma. Em que o coração pede menos encontros e mais recolhimento. Menos conversa e mais escuta interior. Menos barulho e mais paz.

E talvez o verdadeiro afeto seja exatamente isso: respeitar o tempo do outro sem transformar seu silêncio em ofensa. Confiar que algumas amizades são como árvores antigas. Mesmo durante o inverno, quando parecem imóveis e silenciosas, continuam vivas por dentro. Quando a estação muda, basta um reencontro, um abraço ou uma simples mensagem para que tudo floresça novamente, como se o tempo nunca tivesse sido capaz de diminuir aquilo que o carinho soube construir. Seis meses após a última mensagem, mais uma tentativa de comunicação. 

- Oi, tudo bem? 

- Tudo bem e você? Muitas saudades!



Obrigada pela visita,
Cidália.



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